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Alexandre Chiure
Cresce, a cada dia que passa, entre os moçambicanos, o descrédito e a desilusão quanto ao futuro do País. Entendem que não há sinais claros de mudanças no País. As coisas não são levadas a sério. As pessoas fazem de conta que estão a trabalhar e a esperança por um futuro melhor está por um fio.
O número de jovens e adultos, com ou sem formação, que decidiram atirar a toalha ao chão e cruzar a fronteira em busca de sobrevivência ou de melhores oportunidades de emprego é assustador. Famílias inteiras já se transferiram para as terras lusas, e outras em processo. Hoje, Portugal é o que dá. O movimento é forte.
Um amigo meu, funcionário de um dos maiores bancos comerciais do País, um caixa, em conversa disse-me que tencionava abandonar o País e procurar emprego em Lisboa.
Pensei que estivesse a brincar quando me disse que já tinha um emprego à sua espera, o de motorista. Só que, passado algum tempo, liguei-lhe e o seu número não chamava. No balcão onde trabalhava não está. Significa que se foi embora.
Por seu turno, uma colega de uma das minhas filhas também bateu com a porta. Ela é uma dos 611 médicos graduados ao longo dos últimos anos, em diferentes faculdades de Medicina, mas encontra-se desempregada. O Estado moçambicano não os contrata porque não tem dinheiro para os pagar.
A minha faxineira também quer deixar-me. Segredou-me que o destino é o mesmo: Lisboa. Disse que depois de se estabilizar, iria chamar os seus filhos para lá. Está, neste momento, a juntar os seus ordenados para tirar o passaporte e levar algum no bolso.
Os casos aqui reportados representam a milésima parte dos moçambicanos que, decepcionados com tudo o que está a acontecer no País, abandonam, semanalmente, Moçambique com destino a Portugal, especialmente.
Os investidores estrangeiros querem segurança no país como condição para investir e exigem protecção aos seus interesses económicos em Moçambique. O Governo oferece visto de residência de dez anos para homens de negócios com um capital a partir de 4,3 milhões de Euros.
Lá fora, a agenda do Governo é promover o investimento. A nível interno, os investidores estão a abandonar o País por conta da insegurança. Casos de raptos multiplicam-se e a polícia não consegue os esclarecer. Os mandantes estão impunes. Depois é o terrorismo em Cabo Delgado que continua a fazer vítimas.
A Província de Gaza, em particular o Distrito de Chókwè, tem um regadio com cerca de 200 quilómetros de extensão. Já produziu e alimentou, no passado, a zona sul de arroz. O seu nível de aproveitamento, hoje, é de cerca de 25 por cento da sua capacidade.
Quer dizer que em vez de massificar a produção do arroz (temos, no País, condições de sobra para o efeito) e tornarmo-nos auto-suficientes neste cereal, mas, ao que parece, o que interessa é importar o que os outros produzem e mantermo-nos dependentes do estrangeiro.
No discurso político, fala-se da necessidade de desenvolvimento da indústria, mas não há políticas públicas que incentivam isso. A Mozal exporta todo o alumínio que produz. Não fica nada para servir de matéria-prima para as indústrias locais,
Exportamos as areias pesadas em bruto das quais se extraem metais valiosos como ilmenita, rútilo e zircão, essenciais para as indústrias de alta tecnologia como as de tintas, plásticos, cerâmica, aeronáutica e telecomunicações em vez de abrir fábricas para o efeito. As indústrias locais de tintas são obrigadas a importar matérias-primas para o seu trabalho.
Frutas da época como ananás, banana, manga e outras apodrecem às toneladas. Não temos indústria transformadora ou de agro-processamento. O sector com um crescimento assinalável, nos últimos anos, são fábricas e fabriquetas de bebidas espirituosas. Que embebedam jovens aos milhares, sem ocupação, tornando-os alcoólatras.
O país tem sol, praia com águas cristalinas, fauna, a exemplo de leão, leopardo, elefante, búfalo e rinoceronte e lindas paisagens, mas o turismo não é prioridade. O Ministério do Turismo foi extinto e passou a ser um simples sector dentro do Ministério da Economia.
As Seychelles, aqui ao lado, um, arquipélago constituído por 115 ilhas, não tem metade do que Moçambique possui em termos de atracções. Ainda assim, o turismo representa quase 50 por cento do Produto Interno Bruto. Praticamente, o país vive de turismo. Cá entre nós, estamos abaixo de 10 por cento.
Nas terras de Montepuez, em Cabo Delgado, estão a ser explorados rubis, minerais de grande valor económico no mundo. Um negócio chorudo com sócios moçambicanos e estrangeiros. Coisa de gente grande, num distrito com um rosto cada vez mais pálido. Não há nada que possa servir de relíquia. Está tudo na mesma.
Em algumas zonas do País, os camponeses produzem, mas os seus produtos ficam deteriorados porque não há escoamento. A cadeia de valores está quebrada. As estradas estão todas esburacadas e o comerciante que consegue chegar aos campos de produção em regiões como Lalaua, Meti, em Nampula, e noutros sítios, dita o preço.
Apesar de tudo isto, há quem ainda continua a sonhar com um futuro melhor. Talvez os filhos dos filhos dos nossos filhos é que serão testemunhas desse desenvolvimento quando decidirem fazer uma ruptura em relação ao passado. Aí, sim, o País irá mudar para o melhor.



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