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- Bombas retardadas no ANAMOLA começam a explodir
- Houve pancadaria, contestação e deserções em massa dentro e fora do País
- “O ANAMOLA não foi cauteloso e há muita gente que não pertence ao partido” – analistas
- “Saídas colocam em causa a capacidade organizacional da liderança” – Elísio Macamo
- VM diz que aparecimento precoce de problemas é uma dádiva por dar tempo de corrigir
A Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), formação política liderada pelo antigo candidato presidencial Venâncio Mondlane, enfrenta uma crise interna profunda que ameaça a coesão do partido e expõe conflitos organizacionais, em meio a acusações e rupturas em várias frentes. A crise vai desde eleições internas controversas até renúncias e acusações entre membros destacados. O cenário sugere um risco de implosão política interna, num momento em que ainda procura consolidar‑se como força relevante no panorama político moçambicano. Enquanto analistas entendem que o partido não foi cauteloso ao admitir membros sem nenhum crivo, abrindo assim portas para infiltração de bombas retardadas para pôr em marcha um plano de explodir os alicerces do partido por dentro, Venâncio Mondlane diz que o aparecimento precoce de problemas é uma dádiva por dar tempo de corrigir os erros e sarar as feridas.
Reginaldo Tchambule e Elísio Nuvunga
Oficialmente registado em Agosto de 2025, o ANAMOLA surge como tubo de escape para o descontentamento pós‑eleitoral e apresentou-se como uma alternativa política aos partidos tradicionais.
Desde o seu nascimento, o partido apontou para reformas estruturais significativas no sistema político, incluindo revisão constitucional e modernização das regras eleitorais, tentando enfatizar transparência e participação popular. Em pouco tempo, começou a granjear a simpatia dos moçambicanos que começaram a inscrever-se em massa, enquanto consolidava e se gabava de ter estruturas em todos os distritos e grande parte das localidades do País.
Com grande azáfama, foram sendo inauguradas, durante estes primeiros quatro meses do ano algumas sedes e o movimento parecia estar coeso e pronto a cilindrar, mas a realização das primeiras eleições internas no ANAMOLA tem sido uma das principais fontes de controvérsia.
Membros e coordenadores locais denunciam imposição de candidatos, destituições arbitrárias de dirigentes sem justificativa clara e a violação de procedimentos acordados nos estatutos, o que levou a episódios de contestação pública e espancamentos.
Segundo relatos internos, expectativas não correspondidas, a falta de comunicação transparente sobre a lista de candidatos e critérios eleitorais para os órgãos dirigentes gerou um sentimento crescente de desilusão entre quadros do partido, especialmente em províncias-chave como Nampula e Cabo Delgado.
A crise atingiu um novo patamar com a onda de renúncias simultâneas de membros e dirigentes provinciais, notadamente na Província de Cabo Delgado, onde pelo menos sete dirigentes abandonaram o partido em Novembro de 2025, citando a “não valorização dos quadros” como principal razão para a sua saída. Entre estes figuram coordenadores distritais nas zonas de Pemba, Chiure, Montepuez e Metuge, uma ruptura que enfraquece a presença local do partido e revela fissuras profundas entre as lideranças provinciais e a estrutura central. Muitos dos desertores imediatamente filiaram-se à Nova Democracia e juraram leadade a Salomão Muchanga.
Acusações, ataques e descredibilização de membros

Um dos casos mais emblemáticos da crise interna envolve Celso Carlos Chambeze, antigo coordenador-geral do ANAMOLA na República da África do Sul. Chambeze, considerado um dos grandes dinamizadores da agenda do partido junto à diáspora, colocou o seu cargo à disposição devido a tensões com a liderança nacional.
Após a sua renúncia formal, passou a ser alvo de acusações dentro do partido, incluindo alegações de que teria arrecadado fundos (estimados em cerca de 30 000 rands) sem os remeter aos cofres partidários, num expediente para desacreditar o seu prestígio político.
A campanha de desacreditação e assassinato de carácter é liderada por um conhecido jurista e conta com um exército de contas falsas criadas por gente bem identificada adstrita ao gabinete de propaganda do partido que destilam conteúdo jocoso não só contra os desertores, como também para os críticos do partido.
O grupo chegou a alegar que Chambeze recebeu dinheiro da Frelimo e uma casa na COOP para poder abandonar o partido. Mas, na sua carta de pedido de renúncia, Chambeze invocou a necessidade de salvaguardar a sua reputação pessoal e familiar e denunciando a ausência de resposta da direcção a comunicações que classificou como graves.
O agora ex-coordenador revela que, ao longo dos últimos seis meses, endereçou diversas comunicações formais à Direcção do Partido, alertando para situações que, na sua avaliação, comprometem seriamente a organização. Entre os pontos levantados constam alegadas infiltrações de elementos alheios aos valores e princípios fundacionais do partido, a existência de uma falta manifesta de disciplina interna, com violações sistemáticas de estatutos e códigos de conduta, e a ausência de qualquer resposta institucional às preocupações apresentadas.
De acordo com Chambeze, a inércia e o silêncio da direcção perante essas denúncias fundamentadas criaram um ambiente institucional incompatível com padrões mínimos de transparência, responsabilidade e ética, tornando inviável o exercício regular e digno das suas funções.
Críticos respondidos com rótulos
Relatos internos indicam também que críticos da direcção ou quadros que manifestam preocupações institucionais estão a ser rotulados como “infiltrados” ou “elementos hostis”, numa tentativa de deslegitimar as suas posições e silenciar vozes dissonantes.
Este tipo de retórica tem sido citado por membros como algo que contribui para um clima de medo, acusações mútuas e confrontação política dentro do próprio partido.
Em Sofala, também surgiram conflitos semelhantes: membros criticam a liderança provincial por agir de forma autoritária, com destituições que consideram sem motivo claro e uma falta de diálogo com os quadros locais. Delegados em Dondo e Mafambisse foram removidos de funções, alimentando mais ressentimentos e um sentimento de exclusão entre militantes.
No Distrito de Dondo, um vídeo posto a circular nas redes sociais mostra um grupo de membros que tem como fundo a bandeira do partido a contestarem a destituição de um coordenador identificado por Lucas, que tinha a intenção de concorrer, mas viu essa pretensão gorada. Em reacção, foi acusado de ter contratado “marginais” para boicotar as eleições internas.
No Norte do País, especificamente Nampula, a crise interna tornou‑se pública em confrontos verbais e físicos fortes entre dirigentes provinciais e distritais. O Coordenador Provincial, Castro Niquina, recriminou Raúl Novinte e os seus aliados por, segundo ele, “agitar candidatos derrotados para criar confusão” nas estruturas partidárias de vários distritos, incluindo Mecuburi, Memba e Nacala.
Em declarações de áudio reproduzidas em grupos internos, Niquina chegou a afirmar que Novinte estaria a agir em benefício de interesses de forças políticas rivais, numa acusação grave que expõe a fragmentação interna e a perda de foco estratégico entre as principais lideranças provinciais.
Em Nampula, episódios de agressões e confrontos físicos entre membros em encontros e atividades internas, incluindo um incidente no dia 10 de Dezembro em Nacala, em que quase houve confrontos generalizados.
VM diz que aparecimento precoce de problemas é uma dádiva
O presidente interino do partido ANAMOLA, Venâncio Mondlane, esteve, este fim-de-semana, na África do Sul, um importante pólo logístico e de mobilização do partido e comentou a crise política que o partido atravessa.
Mondlane considera o aparecimento precoce de problemas como uma dádiva que vai permitir afinar a máquina a tempo dos próximos pleitos eleitorais.
“(…) vamos falar a vontade, somos irmãos, o que aocnteceu aconteceu, precisamos de identificar o problema e o fim último é formarmos uma única família e andarmos. Eu estava a conversar com a minha esposa ontem e eu disse: ‘olha, para dizer a verdade tenho que agradecer muito a Deus por estes problemas estarem a acontecer agora, pois nós temos tempo para corrigir, sarar as feridas, tirar o gesso, porque há batalhas grandes pela frente”, sublinhou.
“O ANAMOLA não foi cauteloso e há muita gente que provavelmente não pertence ao partido” – observam analistas
As sucessivas deserções e renúncias de membros do partido ANAMOLA, registadas em várias províncias do País e até no estrangeiro, estão a ser associadas por analistas políticos à falta de cautela na admissão de militantes e à presença de pessoas que provavelmente não pertencem ao partido ANAMOLA, num momento crítico de consolidação da jovem formação política.
O politólogo e analista político Simango Samuel considera que as deserções reflectem falhas no processo de crescimento acelerado do ANAMOLA. Para Simango, o partido surgiu como um movimento de massas fortemente centrado na figura de Venâncio Mondlane, o que atraiu uma adesão rápida e pouco filtrada.
“O ANAMOLA não foi cauteloso. Quis ter muita gente e não teve capacidade suficiente de filtrar os membros que entravam para a militância”, aponta.
Na sua análise, essa abertura excessiva criou fragilidades que terão sido exploradas por adversários políticos, incluindo alegadas infiltrações com o objectivo de provocar instabilidade interna.
“Essas deserções não são inocentes. São planificadas e fazem parte de um esquema bem elaborado. Muitos dos que hoje saem nunca anunciaram publicamente a sua entrada, mas produzem cartas carimbadas quando abandonam o partido, muitas vezes exibidas primeiro por opositores do ANAMOLA”, sustenta.
Simango compara o momento vivido pelo ANAMOLA ao que aconteceu com outros partidos emergentes no passado, como o MDM, que também enfrentaram deserções num contexto de forte pressão política antes da sua consolidação interna.
Apesar do cenário de instabilidade, o analista considera que o futuro do ANAMOLA não está comprometido, defendendo que a “espinha dorsal” do partido permanece intacta.
“O partido continua a ter apoio nas redes sociais e apresentou propostas concretas no âmbito do diálogo nacional, algo que outros partidos ainda não fizeram. Isso mostra que os seus principais quadros continuam firmes”, afirma.
Sobre a liderança, Simango destaca o papel central de Venâncio Mondlane, considerando-o “a estrela do momento” no espaço político nacional.
“Mondlane só deixará de ser uma esperança se deixar de apresentar propostas e de mobilizar. Neste momento, ele representa uma alternativa para muita gente”, conclui.
“Saídas colocam em causa a capacidade organizacional da liderança” – Macamo

Para o analista político e sociólogo Elísio Macamo, as saídas não devem ser encaradas como algo dramático. Na sua leitura, trata-se de um processo relativamente normal em partidos recém-criados, sobretudo quando estes se constituem a partir de uma convergência de pessoas com percursos, interesses e visões distintas.
“É natural que um partido novo como o ANAMOLA tenha este tipo de problemas. Ele constituiu-se como uma coligação de pessoas com percursos diferentes e interesses diversos. O estranho seria se isto não estivesse a acontecer”, observa.
Macamo considera que, nesta fase, é prematuro associar as deserções a fragilidades estruturais profundas, defendendo que o tempo dirá se o fenómeno representa apenas uma “separação do joio do trigo”. Ainda assim, admite que as saídas colocam à prova a capacidade organizacional da liderança.
Segundo o sociólogo, as renúncias funcionam como um teste em dois planos: o da organização interna e o da coerência ideológica.
“Um partido é uma burocracia e, como tal, ele está sujeito ao que em sociologia se chama de rotinização, isto é a transformação do poder carismático em regras institucionais. Vamos ver se a liderança consegue fazer isto. O segundo sentido diz respeito à própria coerência ideológica do partido. Neste momento, há muita gente lá que provavelmente não pertence. Está lá pelo momento ou também porque tem um inimigo comum, no caso, o ´regime´, como eles falam. Isso a longo prazo não consolida uma organização e até pode criar instabilidade. Portanto, a liderança vai ter que definir que partido é e quem pode lá estar”, afirmou.
Na mesma linha, Macamo sublinha que o partido ainda demonstra mais vocação para movimento do que para estrutura partidária estável, alertando que a espectacularização da política, embora mobilizadora, é incompatível com a estabilidade a longo prazo.



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