O que significam as reprovações em massa na 9ª classe?

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

O sector da educação está, nestes dias, na boca do cidadão. Ocupa espaço de destaque nos noticiários. É tema de debate em diferentes canais de televisão por maus motivos. É que depois do barulho que se gerou à volta dos exames vazados da nona classe, levando à sua repetição, agora são os próprios resultados considerados escandalosos.

O ponto é que as escolas acordaram com pautas a vermelho nas vitrinas, um sinal de que a maior parte dos alunos reprovou. Por incrível que pareça, a percentagem dos que passaram de classe é inferior a 40 por cento, o que é muito grave. Não é assunto de um ou outro estabelecimento de ensino, de uma ou outra província. É do país inteiro.

Agora está-se num jogo de empurra-empurra. Ninguém quer assumir a responsabilidade pela situação. O Ministério da Educação e Cultura, na pessoa do seu porta-voz, diz que a culpa é dos professores que prepararam mal os alunos. A Associação Nacional dos Professores defende que é que tem que responder pelas reprovações em massa.

A ANAPRO apresenta como argumentos para sustentar a sua tese e convencer à opinião pública de que o principal culpado é o executivo pela carência de professores bem treinados, falta de ensino de qualidade, currículos inadequados e políticas educacionais deficientes.

É verdade que estes problemas existem e são de domínio público. É, também, um facto que influem, directa ou indirectamente, no aproveitamento escolar das crianças. Acrescentaria outros: As escolas funcionam sem orçamento. Os professores leccionam sem as mínimas condições de trabalho e com turmas de cerca de 100 alunos. Há um atraso sistemático na distribuição do livro escolar.

Será que foram estes problemas que levaram às crianças a reprovarem em massa na 9ª classe? Talvez. Ora vejamos: Por altura do final do ano, há muita pressão para que as metas, em termos de aprovações, sejam cumpridas com rigor para satisfazer interesses políticos.

Num efeito em cadeia, o Ministério da Educação e Cultura pressiona as direcções provinciais. Estas caem em cima das distritais que, por sua vez, exercem pressão sobre as direcções das escolas. Tudo desagua no professor, esse que recebe instruções da sua direcção pedagógica ou para ditar as respostas aos alunos nas salas de exame ou para autorizar os examinandos a abrirem os cadernos. O esquema sempre funcionou assim e por via do mesmo foram sendo produzidas estatísticas com índices de aprovação de 70 a 75 por cento. Os números não reflectem a realidade vivida nas salas de aulas, mas servem para o sector dar a entender que estamos bem na educação. Tudo fictício.

Com este jogo esquisito, a educação engana-se a si mesma porque sabe, muito bem, que os números não correspondem ao que as escolas produziram ao longo do ano. Enganam os pais e encarregados de educação das crianças e a sociedade em geral, que ficam a pensar que está tudo bem com os seus educandos, a julgar pelos números gordos de notas, quando, na verdade, estes escondem sujeiras.

Em última análise, a educação, no lugar de formar o homem novo, está a comprometer o futuro das crianças e do próprio País ao deixar passar alunos que não sabem ler, nem escrever só para cumprirem as metas estabelecidas, superiormente, por ano. Aliás, um amigo meu professor disse-me, em conversa, que algumas crianças não sabem sequer copiar, mesmo com o seu caderno aberto.

A pergunta que se pode fazer é: sendo que existe, nas escolas, um esquema de facilitação das coisas nas salas de exame, o que inclui o relaxamento do controlo para permitir que os alunos se comuniquem, o que é que, desta vez, aconteceu? Simples. A cadeia de valores não ficou completa.

A pressão, como sempre, foi exercida aos quatro níveis, mas tudo ficou comprometido porque o actor principal, o professor, não cedeu. Este não só se recusou a ditar as respostas aos alunos, como houve um controlo rigoroso nas salas de exame para evitar cábulas. As crianças que já estavam habituadas a ter uma ajuda ficaram desamparadas. Os resultados estão à vista: reprovações em massa.

O professor aproveitou a ocasião para vingar-se. É aqui onde entra o seu descontentamento pelo não pagamento de horas extraordinárias por parte do governo que condicionou a realização de exames em algumas escolas, não valorização da profissão de professor, falta de condições de trabalho e outros problemas que apoquentam a classe. Para dizer que o sector da educação não tem por que se admirar com o escândalo das reprovações, em grande escala, de crianças da 9ª classe porque sabe qual é a realidade. É preciso assumir as responsabilidades pela situação e mudar a forma de ser e estar do sector.

A educação não deve continuar a privilegiar as estatísticas em detrimento da qualidade de ensino, como tem acontecido de alguns anos a esta parte. Para as direcções distritais e provinciais da Educação e Cultura e para o próprio Ministério do pelouro, não importa se as crianças estão ou não em condições de passar de classe. Ao que tudo indica, o que interessa são as metas. Como as escolas chegam a essas estatísticas, o problema é delas. Se, num ano, a meta é de 70 ou 75 por cento de aprovações, tem que ser cumprida custe o que custar.

Que o diga o director pedagógico do curso nocturno da Escola Secundária de Muelé, em Inhambane, Emílio Raimundo Cumbane. Ele foi julgado e condenado, em 2024, a dois anos de prisão efectiva por fornecer respostas do exame de Matemática a 30 anos alunos da 12ª classe, durante os exames. O objectivo era claro: cumprir as metas. É assim como anda a nossa educação, as nossas escolas públicas frequentadas pelos filhos de operários e camponeses, da mamana do mercado ou da esquina, do sapateiro do bairro, do chapeiro ou do vendedor ambulante. Os filhos de figuras de nomenclatura política, esses, estudam nos melhores colégios dentro e fora do país, com acesso a computador, internet, biblioteca e em turmas de 20 alunos cada.

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