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- Segundo estruturas locais e voluntários de saúde
- Há uma morte, alguns partos e relatos de doenças
Milhares de pessoas continuam deslocadas e vivem em condições precárias no Centro de Acolhimento da Escola Básica 19 de Outubro, no bairro Estevel, distrito de Boane, província de Maputo. O local já registou um óbito, confirmado pelo representante adjunto do centro, Inácio Balate, que garante que, apesar da morte, a situação de saúde está relativamente controlada, mas o maior desafio neste momento é a ruptura do estoque de medicamentos. No espaço improvisado, crianças brincam nas salas de aula, enquanto adultos enfrentam doenças crónicas e agudas, incluindo malária, diarréia, cólera, problemas respiratórios, diabetes, hipertensão, epilepsia e depressão. Segundo psicólogos, algumas dessas doenças desenvolvem-se no próprio centro devido às condições extremas causadas pelas inundações, que obrigaram famílias a abandonar as suas casas, muitas vezes acumulando traumas de crises anteriores. Muitos chegam debilitados, mal alimentados, sem sono adequado e emocionalmente abalados, o que agrava os riscos à saúde.
Elísio Nuvunga
O centro está em funcionamento desde 17 de Janeiro e iniciou com cerca de 500 pessoas. Com o tempo, o número de deslocados oscilou, com alguns regressando temporariamente às suas zonas de origem, mas ao chegar pura e simplesmente encontravam as suas casas destruídas pela fúria das águas.
Dois anos depois (2023), Boane volta a enfrentar o mesmo cenário de destruição, adaptação forçada e luta pela sobrevivência, com os deslocados a sobreviver com o mínimo necessário, mas ainda carentes de materiais essenciais e apoio consistente. Para além da intransitabilidade, milhares de pessoas abandonaram as suas residências em busca de abrigo. Perto de mais de 1.500 casas estão alagadas nos bairros 2, 4 e 5, 25 de Setembro, Tedeko, Djimo, Gueguegue e arredores.

Actualmente, o centro alberga milhares de deslocados, distribuídos por salas de aula e pavilhões improvisados. Inácio Balate, chefe adjunto do centro, explica que o espaço enfrenta desafios diários que têm a ver com a questão de acomodação, alimentação e assistência sanitária.
“Há um pouco de tudo, mas não suficiente. Há também brigadas de saúde para fazer face às patologias como malária, diarréia, doenças respiratórias e outras. Apesar dos esforços envidados, infelizmente o centro registou um óbito que padecia de diabetes. Temos um posto de saúde aqui e temos registado doenças como malária. Infelizmente, tivemos um óbito. Era um jovem que padecia de diabetes. Apesar disso, a situação de saúde está relativamente controlada”, afirma Balate.
No local, as famílias encontram-se em grupos: crianças brincando, jogando futebol, mulheres e homens entre lamentações e murmúrios com o pensamento no futuro. Por outro lado, algumas comem à sua maneira. Não há muitas opções. Outras comem frutas silvestres, outras tomam chá para enganar o estômago em meio ao calor intenso e outras com prato de chima, por vezes sem caril.
Entre as necessidades mais urgentes estão medicamentos básicos, produtos alimentares, materiais de higiene e de construção, essenciais para que os deslocados possam regressar às suas casas ou a novos assentamentos.
“Temos falta de caril. Derivados e cereais temos, mas estamos aqui. Temos outras coisas, mas para aguentar precisamos de caril”, revelou Balate.

Balate contou, ainda, que para aliviar o sofrimento das famílias vítimas das inundações, a autarquia dispõe de 480 terrenos para reassentar famílias, mas a falta de materiais de construção impede o progresso do reassentamento. Enquanto isso, centenas de pessoas continuam a viver em salas de aula transformadas em dormitórios.
“O município (de Boane), neste momento, carece de material de construção para albergar as pessoas que vão sair daqui quando tudo melhorar. Temos neste exacto momento 480 terrenos para albergar as pessoas. Ainda não temos previsão, mas os talhões foram garantidos para as pessoas saírem, não sei quando”, disse.
Partos e maternidade

No centro, a maternidade é marcada por histórias de resiliência. Maria Jonas, deslocada do bairro Djimo, deu à luz uma menina no próprio centro. Sentada sobre uma esteira, amamenta a filha recém-nascida enquanto espera pelo marido, que foi verificar a situação da casa alagada.
“Estou aqui com o meu marido e esta criança que estão a ver. O meu marido saiu para visitar lá na nossa casa. Na verdade, é para ver se a água ainda existe ou não”, disse, estando no centro há sensivelmente duas semanas.
Emocionada, conta como foi a primeira experiência de maternidade:
“Foi um parto normal. É uma menina. Graças a Deus, recebi roupas, leite e fraldas através de doações”, disse empolgada.
No mesmo cenário, encontramos Anabela, de 25 anos, que também deu à luz no centro e vive ali com a sua família alargada de cerca de 15 membros. Ambas aguardam reassentamento para poderem retornar à normalidade.
“Queremos voltar à normalidade. Estamos à espera de terrenos. Em casa ainda tem muita água. Todos saímos por causa disso”, partilhou Anabela.
Doenças físicas e traumas psicológicos

O centro não lida somente com doenças físicas. Psicólogos voluntários relatam traumas emocionais intensos, sobretudo entre mulheres, idosos e crianças. Francisca Sanduane, psicóloga clínica, explica que muitas pessoas chegaram em estado de vulnerabilidade extrema.
“As mulheres não dormiam, choravam o dia todo. As idosas apresentavam tensão arterial elevada. Muitas pessoas não conseguiam comer nem descansar”, relata Sanduane.
Com a introdução de actividades psico-sociais, como dinâmicas de grupo, rodas de conversa e brincadeiras para crianças, a tensão diminuiu e a convivência entre famílias melhorou.
“Nós criamos rodas de conversa onde conversamos sobre a ansiedade, sobre a depressão. Conversamos sobre o que são as cheias, por que elas ocorrem, porque tem pessoas que não entendem. Questionam porque estamos nessa situação, o que fizemos de errado”, disse, acrescentando que uma conversa não é totalmente adulta, ou seja, fala-se de tudo e de nada para evitar outras situações.
“Nós temos tido aqui aulas também de educação cívica, para saberem conviver umas com as outras. Explicamos absolutamente tudo, até mesmo sobre saúde sexual e reprodutiva. Aqui temos mulheres, então também explicamos sobre a gestão menstrual. Todas essas coisas. Mesmo com os adultos, temos tido sessões grupais e até mesmo individuais”.
Segundo a psicóloga clínica, para as crianças, o trauma é muitas vezes expresso através de desenhos. Algumas ilustraram casas cercadas por água, nuvens carregadas e chuva intensa, demonstrando que o impacto das cheias ainda persiste na mente dos mais novos.
“Esses desenhos dizem muito. Mostram que a situação ainda está presente na mente da criança e pode evoluir para um trauma. É através dos desenhos que as crianças expressam os seus pensamentos, os seus sentimentos. Uma das dinâmicas que fizemos com as crianças hoje foi de desenho. Duas delas mostraram casas cercadas de água e chuva. Isso já diz alguma coisa”, alertou.
Resistência, estigma e crenças tradicionais

Outro desafio identificado é a resistência de algumas famílias a aderir aos serviços médicos e aos medicamentos. O receio de estigmatização social e a crença de que certas doenças só podem ser tratadas de forma tradicional dificultam a assistência.
Inês Elias, membro da Associação dos Psicólogos de Moçambique e chefe do grupo de voluntários, explica que “há pessoas que têm medo de ser julgadas. Outras acreditam apenas na cura tradicional”, afirmou, sublinhando que a sua equipa tem trabalhado “para criar um espaço seguro, sem estigmas, onde todos se sintam à vontade para procurar ajuda”.
O jornal Evidências apurou que há falta de medicamentos básicos no centro. Uma brigada de saúde humanitária revelou que o posto atende mais de 100 pessoas diariamente, incluindo deslocados que não estão oficialmente reassentados na comunidade Estevel. A elevada procura, combinada com limitações logísticas, complica a capacidade de resposta adequada, segundo uma fonte da brigada.
“O principal desafio tem a ver com a ausência de medicamentos, porque o número de pessoas é maior. Quando viemos para o centro, estávamos preparados em termos de medicamentos. Mas há pessoas que não estão reassentadas e vêm aqui para cuidar do estado de saúde, e nós ajudamos. Outro problema tem a ver com as distâncias, principalmente nesses dias que estamos a enfrentar”, sublinhou.
Moza Banco minimiza impacto com bens essenciais

Para responder às inundações, a solidariedade tem chegado de várias instituições, sobretudo do Moza Banco. A instituição, através do Clube Moza e parceiros como JAT e Loma Viana, tem fornecido produtos alimentares, roupas e bens de higiene.
“Temos arroz, feijão, açúcar, farinha, produtos alimentares básicos e de higiene. Temos também roupas. Trouxemos um pouco de tudo o que achamos necessário para apoiar neste momento. E a nossa acção não para por aí, continuamos a apoiar a população em geral”, disse Marta Manhique, presidente da Comissão dos Voluntariados do Moza Banco.
Para Manuel Soares, PCA do Moza Banco, “já não é só alimentação. É preciso pensar em material de construção para que as pessoas possam regressar a zonas seguras”. Os voluntários do banco actuam também em outros distritos afetados pelas inundações em Gaza:
“Nós, como Moza Banco, já demos apoio ao Governo Provincial de Gaza, aos Governos distritais de Mapai, Chicualacuala e Guijá, e também a nível local”, disse Soares, afiançando que depois de Boane, nos próximos dias, será prestada assistência humanitária a outros pontos afectados na província de Maputo.
Refira-se que mais de 723.500 pessoas foram afectadas pelas cheias desde Janeiro, segundo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Além disso, desde 7 de Janeiro, foram registados 145 feridos, nove desaparecidos, 3.555 casas parcialmente destruídas, 832 totalmente destruídas e 165.946 inundadas, agravando os números anteriores.



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