Share this
- Entre a luta pela sobrevivência, a utilidade e os desafios da segurança
- Onde o chapa não chega: moto-taxistas enfrentam riscos para garantir mobilidade
- Jovens encontraram no moto-táxi a fuga do desemprego e o sustento de suas famílias
Em Maputo, quando os chapas deixam de circular, quando as estradas se tornam estreitas ou inacessíveis e quando a urgência fala mais alto, há sempre um moto-taxista disponível. Jovens que, sobre duas rodas, garantem o transporte de pessoas, bens e esperança. A actividade cresce em resposta ao desemprego e às falhas do transporte público, mas expõe estes trabalhadores a acidentes e criminalidade. Com vários casos de assassinatos de operadores já reportados, em todo o País, a principal queixa é a ausência de apoio institucional consistente, enquanto a Polícia da República de Moçambique (PRM) reconhece a insegurança que acompanha o dia-a-dia da actividade e a incapacidade de estancar as ocorrências pela dispensão territorial, mas reforça apelos à prudência, legalização e uso de equipamentos de protecção.
John Kanumbo
No País, de um tempo a esta parte, jovens moto-taxistas desafiam diariamente o sol escadante, a chuva, a insegurança pessoal para garantirem mobilidade e esperança para milhares de pessoas, transportando passageiros, bens e urgências onde outros meios não chegam.
Entre a luta pela sobrevivência, a utilidade social que vem ganhando cada vez mais terreno e os constantes desafios de segurança, estes trabalhadores enfrentam estradas degradadas, criminalidade e a falta de apoio institucional, mantendo vivo um País sobre duas rodas.
Em muitas realidades geográficas do País e cada vez mais a popularizar entre as principais cidades, incluindo Maputo e Matola, os moto-taxistas transportam trabalhadores, estudantes, idosos, doentes e bens diversos, muitas vezes em condições extremas. Para milhares de famílias moçambicanas, o táxi-mota não é apenas um meio de transporte: é sobrevivência.
A actividade cresce como resposta directa ao desemprego juvenil e às limitações do transporte público formal. No entanto, essa expansão ocorre num contexto marcado pela ausência de políticas públicas eficazes, fraca infra-estrutura rodoviária e exposição constante ao perigo.
Esta reportagem acompanha o quotidiano de jovens moto-taxistas em Maputo, revelando histórias de coragem, resiliência e sacrifício, num permanente equilíbrio entre o risco e a necessidade de pôr comida na mesa.
Heróis anónimos da estrada: moto-taxistas entre a utilidade social e o perigo
Calisto, conhecido na “praça” pelo nome de Cota Curula, trabalha na vila de Marracuene, um dos principais pontos de encontro de moto-taxistas. Sem emprego formal, encontrou na moto uma forma de sustentar os cinco filhos. Começou em Maio de 2023, após perder o emprego.
“A mota é o meu ganha-pão. Não tenho outro emprego. É daqui que tiro tudo”, afirma. Para ele, a escolha não foi por sonho, mas por necessidade: sustentar a família.
Na praça, os moto-taxistas organizam-se, trocam informações e apoiam-se mutuamente. Trabalham com sol, chuva ou à noite, levando passageiros até destinos onde outros transportes não entram. Mas cada corrida representa risco.
“A maior dificuldade é a estrada. Está cheia de areia e buracos. Se você não pratica bem a mota, há tendência de cair com o cliente, de aleijar o cliente ou até ser atropelado por um carro”, conta Calisto, que já sofreu três acidentes.
Calisto conta que apesar de por vezes parecerem ignorados pela sociedade, sobretudo automobilistas, com particular destaque para os “chapeiros”, o reconhecimento da sociedade existe, mas falta o apoio do Estado.
“Fomos capacitados para não conduzir sem capacete, colete, licença, ou em estado de embriaguez. Quem segue sobrevive melhor, mas pedimos estradas melhores e mais atenção das autoridades. Não é só para nós, é para todos”, desabafa.
Rafael Elias Masicane, moto-taxista há dois anos, encontrou na actividade não só um emprego, mas um propósito de vida. Durante períodos de crise e escassez de transporte público, tornaram-se essenciais. Rafael melhorou de vida, depois comprou outra mota e sustenta a família. No entanto, queixa-se de estradas degradadas e risco de criminalidade à noite.
“As estradas não estão boas, os carros não cedem espaço e quando fugimos para a areia, acabamos por cair com o passageiro”, desabafa, mas mostrando a mesma firmeza que o motivou. Conta que por dia consegue fazer 2 500 meticais. Antes de se fazer a estrada pessoalmente tinha confiado a sua motorizada a um colaborador que só conseguia juntar o mesmo valor em uma semana.
Sidinei Moisés, de 22 anos, é também um aventureiro de duas rodas. Encontrou no táxi-mota a única alternativa para sobreviver.
“Este é o meu emprego. Se não trabalho, não como”, resume. O rendimento é instável e os riscos são diários, mas mantém o sonho de voltar a estudar.
Quando o sol se põe, sobe o manto de insegurança nas ruas e incerteza se instala
Nos úlimos anos tem sido cada mais frequentes casos de mototaxistas assassinados ou violentados no exercício das suas funções. Muitas vezes o crime é motivado por procura.
“Trabalhar à noite é ainda mais arriscado, aumentando o risco de assaltos e ataques. O momento mais perigoso é à noite. Não conhecemos quem estamos a levar, às vezes são ladrões ou bandidos. Mas temos que trabalhar”, afirma Cota Curula.
Rafael fala com preocupação sobre os roubos e a insegurança que sofrem com frequência os moto-taxistas.
“Estamos a sofrer muitos roubos, principalmente à noite. A pessoa aparece como cliente, mas tem segundas intenções. Já tivemos colegas que foram arrancados motas. Foram atraídos para um local e chegados lá foram golpeados com pedra ou um pau na cabeça. Fazemos este trabalho sabendo que é arriscado, tanto pela estrada como pelos bandidos”, desabafa.
Abraão dos Santos David, natural da Zambézia, vive em Mumemo há um ano e sustenta a família com disciplina e trabalho honesto. Pai de duas filhas, enfrenta vias precárias e assaltos simulados à noite. Desiludido, aponta dedo acusador à polícia.
“Quando vamos às autoridades, muitas vezes não há resposta. Somos nós que ficamos na estrada à meia-noite para recuperar motas”, afirma.
Papel da Polícia da República de Moçambique
A Polícia da República de Moçambique (PRM) reconhece que os moto-taxistas fazem parte do quotidiano urbano e estão entre os utentes mais expostos aos riscos da estrada. Leonel Muchina, porta-voz da corporação, reconhece a incapacidade da corporação para garantir segurança aos moto-taxistas devido à natureza localizada dos actos.
Diante da incapacidade, diante da insegurança da actividade, que muitas vezes resulta em emboscadas, a PRM apela à responsabilidade individual dos condutores, sobretudo em zonas consideradas perigosas.
“Cabe ao moto-taxista avaliar por onde anda. Aconselhamos que priorize sempre a sua segurança e a dos passageiros. A imprudência pode custar vidas. Apelamos ao respeito pelas regras de trânsito, à não sobrelotação e ao uso obrigatório de capacete, tanto pelo condutor como pelo passageiro”, recomenda Muchina.
Segundo a PRM, infracções frequentes incluem o transporte excessivo de passageiros, que aumenta o risco de acidentes. A polícia orienta sobre regras básicas, uso obrigatório de capacete, colete reflectivo e matrícula.
“O apelo é para que respeitem as regras, evitem sobrelotação e mantenham as motorizadas matriculadas. Continuamos a apelar ao rigor no cumprimento das regras de trânsito, sobretudo o uso de capacetes. Mobilizamos constantemente os moto-taxistas para obedecer aos sinais de trânsito e evitar acidentes”, refere.
A regulação da actividade não é competência directa da PRM, mas a polícia garante, segundo Muchina, fiscalização, presença constante e formação em coordenação com as autarquias, sobretudo através da Polícia de Trânsito.
“Capacitamos os moto-taxistas para que tenham as respectivas licenças e conduzam de forma segura”, explicou Muchina.



Facebook Comments