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Alexandre Chiure
Desde que deixou este mundo cruel e injusto, escreveu-se e falou-se tanto sobre a Rosita Mabuiango, a menina que ficou na história por ter nascido em cima de uma árvore, a 1 de Março, em plenas cheias de 2000, em Chibuto, Província de Gaza.
Contaram-se muitas histórias relacionadas com a sua vida. Algumas com passagens conhecidas. Outras que tocam o seu íntimo. A sua vida privada. Outras, ainda, simplesmente pejorativas que a descrevem como uma rapariga com uma mão cheia de oportunidades desperdiçadas, irresponsável e sem foco.
Alguns dos detalhes do que se disse e do que se publicou nos jornais e canais de televisão levantaram um aceso debate nas redes sociais e em círculos de opinião. Rosita tinha o estatuto de embaixadora em assuntos de desastres naturais. Era tratada, carinhosamente, como uma heroína, mas morreu no meio de muita pobreza como uma pessoa qualquer que não tinha a protecção do Estado.
É verdade que Rosita Mabuiango já não é notícia. Passou para a história, mas não deixa de ser uma figura incontornável quando o assunto são as calamidades naturais. As atenções estão viradas, agora, para as vítimas das cheias deste ano que não têm o que comer. Pessoas que perderam tudo e têm que começar a vida a partir do zero.
Vítimas que reclamam porque os donativos chegaram e não são distribuídos mesmo diante de semblantes pálidos a anunciar a fome. Ajudas que, segundo populares, estão a ser desviadas na calada da noite por indivíduos que gerem os centros de acomodação. Caixas de frangos circulam nos acampamentos, mas o que se serve, na hora da refeição, às vítimas é papinha, arroz e farinha com feijão.
Escreveu-se que o governo cumpriu o seu papel depois que a menina veio ao mundo. Construiu a casa para ela e os seus país, na sua aldeia. Empregou os seus progenitores no governo distrital, no caso do pai, e no município, no que se refere à mãe. Esta parte da história é de domínio público.
Publicou-se que o executivo deu uma bolsa de estudo para a Alemanha e outro país europeu, oportunidades desperdiçadas porque alegadamente recusou-se a sair do país. Foi inscrita para estudar na Unitiva. Abandonou as aulas.
Se é verdade que o governo fez tudo isto, por que razão está a ser crucificado? Por que tantas críticas do público quanto à forma como o Estado lidou com o processo da Rosita?
Um dos problemas que se levanta, o de sempre, é a falta de transparência. O presidente Joaquim Chissano é destacado como quem liderou o movimento de solidariedade a favor da Rosita. Ela própria girou pelo mundo, no colo da sua mãe.
Nessa digressão, a rapariga e a mãe chegaram a pisar o Senado norte-americano. Esteve na Alemanha, Reino Unido. Visitou os Países Baixos e outros países do continente europeu. Em todos estes países recebeu ofertas em dinheiro e em bens materiais, incluindo roupa.
Não me recordo de um dia em que alguém do governo veio a público quantificar os apoios angariados e dizer o que foi feito dessas ajudas e do dinheiro que se conseguiu juntar. Nada. Será que a casa que o governo entregou aos progenitores da Rosita, de dois quartos e sala, foi construída com esse dinheiro ou com fundos de Estado?
São perguntas que não têm respostas. A falta de informação empurra as pessoas para o campo de especulações onde não faltam nomes de pessoas que se tenham apoderado dos apoios.
A segunda questão preocupante é que o governo fez o que fez para o bem da Rosita, mas, ao que parece, em algum momento, abandonou a menina como quem diz ”fizemos a nossa parte e pronto”.
Depois de entregar a casa, empregar os pais e oferecer bolsas de estudo para dentro e fora do país, houve um vazio na relação entre as duas partes. O laço entre o governo e a guerreira de Chibuto rompeu-se quando ainda era necessário fazer algo mais.
Pelo menos não há o registo de algo que tenha sido feito depois destas obras como quem diz ”daqui para a frente, cuida-se por si próprio”. Talvez não fosse necessário construir mais nada, mas garantir que houvesse um acompanhamento do seu dia-a-dia. É que ficou doente e ninguém esteve por perto para ajudá-la, não me parece que o Estado se tenha preocupado com o assunto. Se tivesse levado isso a peito, teria mandado a menina para uma clínica e poder beneficiar-se de melhor assistência médica. Será que se recusou, também, a ir à clínica?
Durante os seus tratamentos no Hospital Rural de Chibuto, a menina precisou de sangue e o pai disse a um canal de televisão que a família teve que pagar 20 mil meticais para ter o precioso líquido. Mais uma vez o executivo esteve ausente num momento crucial da vida da heroína, como o presidente Nyusi a apelidou.
A falta de acompanhamento e, acima de tudo, de aconselhamento, afinal só tinha 24 anos de idade, fez com que ela se perdesse e cometesse sucessivos erros. Recusou-se a estudar na Alemanha alegando que não queira sair fora do país. Abandonou a faculdade na Unitiva e deixou-se engravidar por um mineiro.
Uma sucessão de falhas normais para alguém da sua idade, com pais analfabetos e sem um guia ou orientação que devia vir do Estado e não veio. Isso é que está a ser objecto de debate e crítica. Ninguém diz que o governo não apoiou a Rosita Mabuiango. Não. Mas há, também, que aceitar que, em algum momento, o Estado abandonou a menina, deixou-lhe à sua sorte e pronto. Mais não disse.



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