Renamo e Ossufo Momade à beira de suicídio

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

A crise interna que se faz sentir na Renamo e que se seguiu às eleições gerais de Outubro de 2024 em que registou no pior resultado eleitoral, ao cair de 60 assentos no parlamento para apenas 28, está longe de chegar ao fim porque, ao que tudo indica, o líder da Renamo ou perdeu o foco ou pura e simplesmente é um brincalhão.

A onda de contestação desencadeada por um grupo de ex-guerrilheiros, que conta, agora, com a adesão de figuras emblemáticas e influentes do partido, a exemplo do ex-deputado António Muchanga, do professor Alfredo Magumisse e de tantos outros que apoiam o movimento, mas não dão cara por temer represálias da parte do seu chefe, não parece suficiente para Ossufo Momade entender que a situação é grave.

No lugar de convocar uma reunião, quer seja do Conselho Nacional, quer o esperado congresso extraordinário para debater a vida interna da Renamo, a culminar com a eleição do seu novo presidente e a reestruturação do partido de Afonso Dhlakama; o líder da Renamo está a perder tempo a perseguir aqueles que o criticam pela sua continuidade na direcção da Renamo, apesar de ter perdido, faz tempo, a legitimidade para o efeito.

Suspendeu, há dias, António Muchanga, quadro sénior e figura influente dentro e fora da Renamo, com o risco de, a qualquer momento, expulsá-lo do partido por esse (Muchanga) o criticar em programas de debate em alguns canais de televisão.

Entre outras coisas, Muchanga tem estado a atacar o seu chefe por fechar as portas ao diálogo com os ex-guerrilheiros da “perdiz” que exigem mudanças dentro do partido. E, mais do que isso, por adoptar, ultimamente, métodos antidemocráticos ao indicar a dedo quadros para exercerem funções partidárias no lugar de serem eleitos.

Na semana passada, numa das suas poucas aparições públicas desde que começou a crise interna, Ossufo Momade (OM) fez ameaças veladas contra a ala que não se identifica com a sua permanência no poder, a partir da província de Maputo, círculo eleitoral de António Muchanga.

Momade falhou o alvo quando entende que a crise por que passa actualmente a Renamo tem como os culpados os pronunciamentos de António Muchanga, expondo publicamente os problemas internos do partido.

Engana-se ao achar que os ex-guerrilheiros são os responsáveis principais pela crise, este que  correm, igualmente, o risco de serem suspensos e ou expulsos da organização, não só por reivindicarem a destituição do seu chefe da presidência da Renamo, mas porque ocupam seis delegações provinciais como uma medida de pressão para a convocação urgente do congresso extraordinário.

Para a minha surpresa, nos seus recentes pronunciamentos públicos, Ossufo Momade não só ameaçou tomar medidas contra os seus detractores dentro do seu próprio partido, como diz que a crise interna na Renamo tem “mão externa”.

É que, desta vez, os ex-guerrilheiros da Renamo resolveram mudar de estratégia na sua luta pelo afastamento de OM da liderança. Estão a seguir aquilo que os estatutos dizem como condição para obrigar o Conselho Nacional a convocar o congresso extraordinário.

Entre antigos generais, os ex-guerrilheiros da Renamo, desmobilizados no âmbito de DDR, estão em jornadas de recolha de assinaturas entre os membros do partido. A meta é atingir dez mil, o suficiente para alcançarem o objectivo pretendido. Mais uma vez, o líder da Renamo faz uma má leitura. Diz que a campanha tem a mão do partido no poder que o quer fora da presidência daquela formação política.

Será que, até hoje, não percebeu que o problema da Renamo é ele próprio? Está claro que se há alguém que deve ser responsabilizado pela crise interna, é Ossufo Momade. A resistência à pressão para abandonar o poder, exercida por ex-guerrilheiros, e o prolongamento da situação por muito tempo está a  desgastar a imagem e a desacreditar o partido perante o público.

Para começar, a Frelimo não precisa de mexer uma palha para se beneficiar do que está a acontecer na Renamo. Só como as coisas estão, tira muitas vantagens. A desorganização interna, a crise de liderança e a degradação acentuada da imagem da “perdiz” é tudo o que o partido de batuque e maçaroca quer.

Não interessa à Frelimo chegar às eleições autárquicas de 2028 e as legislativas e presidenciais de 2029 com a Renamo recomposta e bem organizada. Partido com uma forte base de apoio adormecida e estrutura para chegar longe, sendo que o Anamola, de Venâncio Mondlane, já é um problema.

Imaginem o VM7 não ganhar eleições, mas conseguir conquistar, num jogo limpo, 100 lugares no parlamento e a Renamo, por hipótese, sair dos 28 para 50 ou, mesmo, 40 assentos, o MDM, com 8 ou 10 deputados e tantos outros para o Podemos. Estaríamos a falar de uma maioria absoluta nas mãos da oposição. A balança fica completamente desequilibrada e isso não interessa à Frelimo.

Dizer que o partido no poder está por detrás do abaixo-assinado para a destituição de Ossufo Momade, é, simplesmente, falso. O que a Frelimo quer é que a crise interna na Renamo se prolongue até às vésperas das eleições porque, a ser assim, não conseguiria manter os actuais 28 assentos.

Se a Renamo não lograr tirar OM da liderança, o que irá acontecer é que ele se manterá até ao fim do mandato, em 2029, e a Renamo não teria tempo suficiente para reorganizar-se e projectar a imagem do novo presidente ao ponto de poder concorrer em pé de igualdade com o candidato da Frelimo e de outros partidos nas presidenciais.

Além disso, não há garantias de que, na verdade, Ossufo Momade não se irá recandidatar à presidência da Renamo e da República. Apesar de já ter dito que iria abandonar o poder no próximo congresso ordinário, nada obsta que ele mude de opinião, manipule os congressistas e mantenha-se no poder.

Ao que parece, o homem não se conformou com a perda do estatuto de líder da oposição a favor de Albino Forquilha, presidente do Podemos. Não lhe falta a vontade de lutar pela reconquista do posto e reaver todas as regalias perdidas. A possível recondução de Ossufo Momade em 2029 pode vir a ser o fim da Renamo. Estou curioso para saber se OM irá preferir o suicídio do seu partido ou o abandono do poder para dar lugar à revitalização do partido. Os membros e simpatizantes da “perdiz” querem mudanças. A ver vamos.

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