O relatório que confirma o caminho e lança um apelo tanto ao Governo como ao Banco Mundial

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“Os países que conseguiram transformar-se não foram aqueles que discutiram classificações. Foram aqueles que compreenderam os seus limites e construíram, com consistência, um projecto económico assente no trabalho, na produção e na responsabilização das instituições. A impregnação de princípios objectivos na governação, como “não deixar ninguém para trás”, e medir o desempenho dos ministros, responsabilizando os que não estiverem ao nível do desejado, conforme anunciou em finais de 2025 o Presidente Chapo, é um bom ponto de partida”.

O dado incomoda e não sem razão. Moçambique surge entre os países mais pobres do mundo num relatório recente do Banco Mundial. A reacção imediata repete um padrão conhecido. Discute-se a posição, questiona-se a metodologia, relativiza-se o ano dos dados. Nega-se o óbvio. Tenta-se contornar uma verdade insofismável. Segundo, quinto, oitavo. Como se a diferença entre esses lugares tivesse o poder de alterar a realidade material do país. Não tem. Porque, no essencial, o relatório não introduz uma novidade, introduz uma confirmação. Confirma que os desafios estruturais de Moçambique são profundos.

Igualmente, o relatório confirma que a transformação económica não aconteceu com a velocidade e consistência necessárias e confirma, acima de tudo, que não existem atalhos. Lança, pois, um apelo ao Governo, para que este trabalhe em prol das transformações em prol do desenvolvimento inclusivo e sustentável e sem que ninguém seja deixado para trás, bem como ao seu próprio autor, o Banco Mundial, que veio a Moçambique há décadas supostamente para acabar com o que agora reconhece que ainda persiste (pobreza).

Chapo e a aposta em melhorar a vida da população

Durante anos, o país viveu entre ciclos de crescimento e expectativas de mudança que raramente se traduziram de forma plena na vida da maioria. Os números macroeconómicos, por vezes robustos, não foram suficientes para alterar o quotidiano de forma estrutural.

Esta dissociação não é um mero detalhe técnico, é o centro do problema. É aqui que o debate deve ser colocado. Não na disputa estéril sobre rankings, mas na clareza sobre o caminho. A linha que tem vindo a ser defendida ao mais alto nível, centrada em renovar Moçambique, na independência económica, no reforço da produção interna, na disciplina institucional e no combate à corrupção, não surge como reacção ao relatório, surge como resposta à realidade que o relatório apenas expõe. Negar essa realidade seria o verdadeiro erro. Assumi-la, pelo contrário, é um acto de maturidade política.

O discurso de investidura do Presidente Daniel Francisco Chapo é, aliás, sintomático desse reconhecimento claro do lugar crítico em que o país se encontra. Mais do que isso, apresentou com lucidez o caminho que deve ser seguido, com uma visão estruturada e objectiva do percurso necessário para transformar o potencial em resultados concretos.

É também aqui que a liderança ganha densidade histórica. Daniel Francisco Chapo, com a visão que tem vindo a afirmar, carrega a responsabilidade de criar as condições para o verdadeiro arranque económico do país. Não como promessa retórica, mas como trajectória concreta. Esse take-off, porém, não se fará sozinho. Exige alinhamento institucional, exige execução consistente e exige responsabilidade partilhada. Exige governantes capazes de transformar orientação política em resultados verificáveis. Exige uma FRELIMO que, no seu todo, se coloque ao serviço de uma agenda de transformação real, indo além do discurso e assumindo plenamente o peso das decisões que moldam o Estado.

Ou a FRELIMO lidera de forma disruptiva ou a crise se perpectua

O verdadeiro ponto de viragem está na capacidade da FRELIMO, partido com vocação governamental, de se regenerar e liderar a mudança disruptiva que todo o país aguarda. Mas essa responsabilidade histórica traz também uma métrica clara de sucesso. Moçambique registou, na última década, taxas médias de crescimento do PIB entre 4% e 7% ao ano, com picos superiores em períodos de investimento extractivo, mas esse crescimento ainda não se traduziu de forma proporcional em rendimento per capita, que permanece abaixo de 700 dólares anuais segundo estimativas internacionais recentes. É precisamente aqui que se coloca o desafio do presente ciclo, com Daniel Chapo à cabeça.

Transformar crescimento em prosperidade mensurável deve ser o epicentro de todas as acções. Fazer com que o PIB não apenas cresça, mas que se reflicta no rendimento das famílias, no acesso a serviços e na qualidade de vida. A ambição que se coloca à liderança é, por isso, concreta e verificável. Partir de um nível baixo de rendimento e duplicar, de forma sustentada, o produto interno e o rendimento per capita ao longo de um ciclo de governação. Retirar o país do grupo dos mais pobres e colocá-lo entre as economias africanas com crescimento consistente e impacto social visível.

Essa é a verdadeira medida de liderança. Não o discurso, mas a capacidade de alterar indicadores e, com eles, a vida concreta das pessoas.

Não deixar ninguém para trás

Os países que conseguiram transformar-se não foram aqueles que discutiram classificações. Foram aqueles que compreenderam os seus limites e construíram, com consistência, um projecto económico assente no trabalho, na produção e na responsabilização das instituições. A impregnação de princípios objectivos na governação, como “não deixar ninguém para trás”, e medir o desempenho dos ministros, responsabilizando os que não estiverem ao nível do desejado, conforme anunciou em finais de 2025 o Presidente Chapo, é um bom ponto de partida.

Moçambique não é um país sem recursos nem sem capacidade, mas é um país que ainda precisa de converter potencial em resultado e isso exige mais do que intenções. Exige um Estado funcional, capaz de executar políticas com rigor. Exige um ambiente económico onde produzir seja mais vantajoso do que intermediar. Exige que os recursos públicos deixem de ser drenados por práticas que comprometem o desenvolvimento. O Presidente Chapo, que tem demonstrado compromisso em acabar com o “nhonguismo”, em combater a corrupção, em tornar transparentes e seguras as contas públicas, tem a responsabilidade de fazer mesmo diferente para que sejam obtidos resultados diferentes. Isto é possível. Mas exige, sobretudo, uma cultura de responsabilidade que vá além do discurso.

Neste contexto, o relatório deve ser lido com frieza. Não como um ataque externo, mas como um ponto de referência, tal como o é o nosso Inquérito sobre o Orçamento Familiar (IOF). Um indicador de onde estamos. E, implicitamente, do que ainda falta fazer. A questão central nunca foi o lugar ocupado. A questão central é a trajectória. E é nessa trajectória que se joga o futuro do país. Se o diagnóstico incomoda, é porque o trabalho ainda não terminou e talvez seja precisamente esse incómodo que torna evidente a urgência de continuar. É tempo de abandonar narrativas de conspiração e vitimização que apenas distraem. Assumir que somos pobres deve incomodar-nos — mas, acima de tudo, deve mobilizar-nos para trabalhar, com seriedade e compromisso, na transformação efectiva dessa realidade.

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