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O académico moçambicano Celestino Joanguete prepara o lançamento da obra “Inteligência Artificial – Mudanças Paradigmáticas nos Sistemas Mediáticos”, um trabalho que propõe uma leitura crítica sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) na comunicação social, num momento em que os media enfrentam transformações estruturais profundas.
Elísio Nuvunga
Com lançamento previsto para Junho de 2026, no Brasil, durante um seminário académico dedicado à IA aplicada à comunicação, o livro terá uma segunda apresentação em Maputo, no final de Outubro, na Universidade Eduardo Mondlane. A obra resulta de pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Santa Maria, onde o autor tem analisado as relações entre tecnologia, media e sociedade.
Segundo Joanguete, a crescente centralidade da IA nos sistemas mediáticos exige uma reflexão que vá além do entusiasmo tecnológico. O autor defende que esta tecnologia deve ser compreendida como um novo regime de produção de conhecimento, capaz de reconfigurar conceitos como verdade, autoria e mediação.
“Tornou-se imprescindível produzir uma reflexão crítica que vá além do entusiasmo tecnológico, problematizando as implicações epistemológicas, sociais e políticas desta transformação”, afirma.
Nos media, a automação, a velocidade e a personalização de conteúdos já estão a alterar rotinas jornalísticas, critérios editoriais e a própria noção de autoria. A tradicional figura do jornalista enquanto “gatekeeper” perde espaço num ecossistema dominado por algoritmos e plataformas digitais.
Ainda assim, a IA apresenta uma natureza ambivalente. Por um lado, oferece ferramentas inovadoras para análise de dados, verificação de factos e produção de conteúdos. Por outro, levanta riscos significativos, como a desinformação, a manipulação de conteúdos, incluindo deepfakes, a erosão da autoria e a precarização do trabalho jornalístico.
O autor alerta igualmente para os desafios éticos e de responsabilização, questionando quem deve responder por danos causados por conteúdos gerados por sistemas automatizados. A crescente dificuldade em distinguir o verdadeiro do falso coloca em causa a credibilidade da informação e exige maior transparência nos processos tecnológicos.
No contexto moçambicano, Joanguete considera que o debate sobre IA ainda é incipiente e excessivamente técnico. Entre os principais desafios, destaca a ausência de políticas claras, a desactualização dos códigos deontológicos e a fraca capacitação dos profissionais. A estes somam-se limitações estruturais, como desigualdades no acesso digital e dependência tecnológica externa.
Perante este cenário, o académico defende a necessidade de reformas na formação em jornalismo, com inclusão de competências em literacia da IA, ética e análise de dados. Para Joanguete, mais do que investir em tecnologia, é fundamental desenvolver uma abordagem crítica que permita adaptar a IA ao contexto local.
A obra surge, assim, como um contributo relevante para o debate sobre o futuro dos media, num tempo em que a Inteligência Artificial redefine não apenas a forma como a informação é produzida e consumida, mas também os próprios fundamentos do jornalismo.



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