Viúvo escreve para o Presidente da República a desabafar drama da perda de sua esposa e “filho”

DESTAQUE SAÚDE
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  • Negligência médica continua a somar vítimas nas maternidades em todo País
  • Expõe o cenário de desumanidade vivido na maternidade do Hospital Provincial de Chimoio

A dor de Saulo Dima, um pai e viúvo de 38 anos, transformou-se num grito público de socorro endereçado directamente ao Presidente da República, Daniel Chapo. Através de uma carta aberta carregada de angústia e revolta, Saulo expõe o cenário de desumanidade vivido na maternidade do Hospital Provincial de Chimoio, onde a sua esposa e o seu bebé perderam a vida após o que descreve como um caso flagrante de negligência médica e violência obstétrica. O relato, que detalha a recusa de assistência básica, descreve o momento em que a sogra da vítima implorou por uma cesariana ao perceber que a parturiente já não tinha forças para o parto natural. A resposta do médico de serviço, segundo a denúncia, foi a de que a paciente tinha apenas mimos, uma expressão que se tornou a sentença de morte para a mãe e para o recém-nascido horas mais tarde.

Evidências

Este episódio de desrespeito a dignidade humana não é um facto isolado, mas sim o reflexo de um problema estrutural que assola as unidades sanitárias do País. A violência obstétrica em Moçambique manifesta-se através de abusos verbais, negação de tratamento e procedimentos realizados sem consentimento ou necessidade clínica.

Dados de organizaçoes de defesa dos direitos humanos e saúde em Moçambique indicam que uma parte significativa das mortes maternas no país está relacionada não apenas com a falta de recursos técnicos, mas com o atendimento desumanizado.

Moçambique continua a registar taxas de mortalidade materna e neonatal preocupantes, situando-se entre as mais altas da região da África Austral. Embora o Governo tenha feito esforços para aumentar o número de partos institucionais, a qualidade do atendimento permanece um desafio crítico.

Estudos sobre a experiência de mulheres em maternidades moçambicanas revelam que o medo do abuso por parte dos profissionais de saúde afasta muitas grávidas dos hospitais. A prática de humilhar pacientes durante o trabalho de parto, muitas vezes sob a justificação de que a dor é algo que a mulher deve suportar silenciosamente, é uma violação dos protocolos de saúde pública e dos direitos humanos fundamentais.

A violência obstétrica é frequentemente invisibilizada por ser normalizada dentro de uma cultura hospitalar autoritária. Em muitas maternidades do País, as mulheres são forçadas a dar à luz sozinhas, sem acompanhantes, e são submetidas a exames de toque repetitivos e dolorosos por múltiplos estudantes sem qualquer privacidade. A negação de métodos de alívio da dor e a prática da manobra de Kristeller, a pressão forte sobre a barriga da grávida para apressar a saída do bebé, proibida pela Organização Mundial da Saúde, ainda são relatadas com frequência. Esta realidade cria um ciclo de trauma que afecta não apenas a mulher, mas toda a estrutura familiar.

A tragédia de Saulo Dima deixa agora três orfãos, incluindo duas crianças de cinco e dez anos, que crescerão sem o amparo materno devido a uma falha sistémica de quem jurou proteger a vida. Indignado, o viúvo exige uma inspecção rigorosa à maternidade do Hospital Provincial de Chimoio e a responsabilização criminal e disciplinar dos envolvidos. O clamor por justiça de Saulo é também um apelo para que o sistema nacional de saúde abandone a cultura de impunidade e adopte medidas concretas para travar a violência obstétrica.

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