Guerra no Médio Oriente pode atrair grandes investimentos para o sector de gás no País – defendem economistas

DESTAQUE ECONOMIA POLÍTICA
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  • Apesar de pressionar a economia nacional
  • Preços mais altos podem beneficiar Coral Sul FLNG e Sasol

A escalada da guerra no Médio Oriente, que se originou logo após os Estados Unidos e o Israel atacarem o Irão, está a provocar ondas de choque na economia global e pode ter reflexos directos em África e em Moçambique, em particular. Para um país fortemente dependente da importação de combustíveis e fertilizantes vitais para a agricultura, o aumento dos preços internacionais de energia e insumos ameaça a segurança alimentar e energética, pois pode traduzir-se em pressão cambial, inflação e aumento do custo de vida dos moçambicanos. Ainda assim, economistas defendem que o mesmo contexto internacional pode abrir uma janela de oportunidade para o sector do gás natural no País. Com a instabilidade a afectar rotas energéticas e a aumentar a procura por fornecedores alternativos, Moçambique poderá tornar-se um destino mais atractivo para investimentos na indústria de gás natural liquefeito.

Elísio Nuvunga

A Geografia e a geopolítica do mundo moderno mudou desde 28 de Fevereiro de 2026, data em que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irão. Numa acção militar sem precedentes recentes, Washington e Telavive atingiram alvos considerados estratégicos no território iraniano, numa operação que rapidamente desencadeou uma forte retaliação de Teerão.

O Irão respondeu com ataques contra território israelita e contra bases e activos militares norte-americanos espalhados por vários países do Médio Oriente, ampliando o risco de um conflito regional de grandes proporções.

A escalada militar gerou uma onda de instabilidade em toda a região, afectando rotas estratégicas de comércio e energia e aumentando a tensão geopolítica global. Analistas alertam que o agravamento do conflito poderá ter repercussões significativas na segurança internacional, nos mercados energéticos e no equilíbrio do sistema internacional.

Embora, por ora, os impactos directos deste conflito ainda não se façam sentir em Moçambique, devido ao facto de o país dispor de reservas estratégicas de combustíveis suficientes para cerca de três meses, analistas alertam que os efeitos poderão surgir a curto e médio prazo, sobretudo se a guerra se prolongar para além desse período.

Uma das principais preocupações está ligada ao eventual encerramento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás. A passagem, localizada entre o Irão e o Omã, é responsável pelo escoamento de uma parte significativa do petróleo consumido globalmente.

Caso a instabilidade militar comprometa a circulação de navios petroleiros nesta via estratégica, os preços internacionais da energia poderão subir de forma acentuada. Para Moçambique, que depende fortemente da importação de combustíveis refinados, este cenário poderá traduzir-se em aumento do custo de transporte, pressão inflacionista e eventual desvalorização cambial. O encarecimento do combustível tende a repercutir-se em cadeia sobre os preços de bens essenciais, elevando os custos de produção e logística e pressionando o custo de vida das famílias.

O Governo, através do secretário de Estado do Tesouro e Orçamento, Amílcar Tivane, anunciou, nesta terça-feira, minutos após o término da 7ª sessão ordinária do Conselho de Ministros, que os preços dos combustíveis poderão se manter até finais de Abril. O País dispõe até ao momento de pouco mais de 85 mil toneladas de combustíveis armazenadas nos terminais oceânicos, volumes considerados suficientes para abastecer o mercado interno

“Neste momento o stock de combustíveis existentes permitem assegurar o funcionamento da economia até princípios de Maio. No entanto, estão a ser desencadeadas acções no sentido de assegurar que, na eventualidade de se registar uma perturbação total no fluxo de produtos petrolíferos pelo Estreito de Ormuz, accionar-se a entrega de encomendas por rotas alternativas”, afirmou Tivane, alertando que somente depois de Abril, se o conflito se prolongar, é que os moçambicanos poderão pagar preços mais altos.

Entretanto, nem tudo são más notícias. Segundo analistas, a incerteza no fornecimento de energia proveniente do Médio Oriente poderá levar mercados consumidores, sobretudo na Europa e na Ásia, a diversificar as suas fontes de abastecimento. Nesse cenário, projectos de gás na bacia do Rovuma ganham maior relevância estratégica no mapa energético global.

“Sensível” para quem já enfrenta forte pressão cambial

O economista e pesquisador Rui Mate explica que conflitos como o que deflagrou no Médio Oriente raramente ficam limitados à região. Segundo o especialista, todas as regiões do mundo irão se ressentir e o impacto para Moçambique pode ocorrer por diferentes canais, sendo o primeiro deles o comércio externo.

“Se os preços internacionais do petróleo subirem, o País terá de gastar mais divisas para garantir o abastecimento de combustíveis”, explica Rui Mate, acrescentando que esse aumento da factura de importação pode agravar as “pressões sobre as reservas internacionais e sobre a taxa de câmbio, num momento em que vários sectores da economia já relatam dificuldades no acesso à moeda estrangeira”.

De acordo com o pesquisador, o segundo canal de impacto está ligado à inflação, pois combustíveis mais caros tendem a repercutir-se rapidamente em toda a economia, uma vez que influenciam directamente os custos de transporte de mercadorias, produção agrícola e distribuição de bens essenciais. Na prática, isso significa que pode aumentar o preço dos alimentos e de outros produtos básicos, elevando o custo de vida das famílias.

Para o economista Luís Magaço, o problema torna-se ainda mais sensível porque o país já enfrenta forte pressão cambial devido ao agravamento da balança comercial.

“Somos importadores de combustíveis e seus derivados. Como todos os países na mesma situação, seremos severamente afectados por aumentos bruscos do preço do combustível”, observa.

Magaço alerta que um aumento significativo dos preços pode comprometer os esforços do Banco de Moçambique para manter a estabilidade cambial.

“O nosso problema é que já vivemos uma grande pressão cambial por causa do agravamento da nossa balança comercial. Estes aumentos do preço de combustíveis podem desfazer todos os esforços que o Banco de Moçambique empreende para manter a taxa de câmbio inalterada. Qualquer mexida na taxa de câmbios tem impacto no preço de combustível. Ao mesmo tempo, o Estado não tem elasticidade fiscal para manter o preço dos combustíveis com subsídios. Um aumento do preço dos combustíveis pode desencadear novas convulsões sociais”, afirma.

Janela de oportunidade: gás do Rovuma pode compensar perdas

Apesar dos riscos, o contexto internacional também pode abrir uma janela de oportunidade para Moçambique. O País é igualmente exportador de gás natural, um recurso cujo valor tende a aumentar em períodos de instabilidade energética.

Para Mate, a produção do projecto Coral Sul FLNG (Plataforma Flutuante de Gás Liquefeito) e o gás proveniente dos campos de Pande-Temane Gas Fields podem beneficiar indirectamente de preços internacionais mais elevados.

Em teoria, isso significa que o país pode obter receitas adicionais através das exportações e da cobrança de impostos ou mecanismos de partilha de produção. No entanto, Rui Mate ressalva que o impacto positivo tende a ser moderado no curto prazo: “Esse efeito não é necessariamente grande, porque parte da produção está em contratos de longo prazo e porque o país também paga mais pela energia que importa”, explica.

Ademais, grande parte do gás moçambicano é comercializado através de contratos de longo prazo, o que limita a capacidade de aproveitar imediatamente picos de preços no mercado internacional. Além disso, o volume actual de exportação ainda é relativamente reduzido quando comparado com os grandes produtores globais.

Ainda assim, Luís Magaço considera que a subida generalizada dos preços da energia pode criar um equilíbrio entre perdas e ganhos.

“O aumento do combustível é extensivo aos hidrocarbonetos, nomeadamente o gás. Podemos compensar as perdas no combustível com ganhos substanciais no gás”, afirma. Segundo ele, caberá ao governo, particularmente ao Ministério das Finanças, encontrar um equilíbrio que evite abalos na economia.

Interesse global pode voltar-se para o gás moçambicano

Para além dos efeitos imediatos, especialistas apontam um impacto estratégico mais amplo. Crises energéticas tendem a aumentar o interesse internacional por novas fontes de abastecimento fora das regiões tradicionalmente instáveis.

Nesse contexto, as reservas de gás existentes em Moçambique podem tornar-se ainda mais relevantes para a segurança energética global.

“Existe ainda um efeito estratégico mais amplo. Conflitos energéticos aumentam o interesse internacional por novas fontes de abastecimento fora das zonas tradicionais de risco geopolítico. O potencial existe, mas depende de factores internos, sobretudo segurança em Cabo Delgado e decisão de investimento das grandes empresas. Nesse contexto, reservas de gás em regiões alternativas, incluindo África, podem tornar-se mais relevantes para a segurança energética global. Para Moçambique, isso pode reforçar o interesse em projectos de gás actualmente em desenvolvimento, desde que existam condições internas de estabilidade e confiança para os investidores”

Se esses factores forem favoráveis, o aumento da procura global por fontes alternativas pode acelerar investimentos em projectos de exploração e liquefacção de gás.

Financiamento internacional pode ficar mais difícil

Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente importante: o financeiro. Em períodos de elevada incerteza geopolítica, investidores internacionais tendem a retirar capital de mercados considerados mais arriscados e a transferi-lo para activos mais seguros.

“Esse movimento pode tornar o financiamento internacional mais caro e mais escasso para economias emergentes, incluindo Moçambique. Isso pode afectar o financiamento de grandes projectos de energia e infra-estrutura”.

Importa salientar que, Moçambique detém enormes reservas de gás natural, que representam potenciais estimados em cerca de 100 milhões de dólares e poderão colocar Moçambique como um dos 10 maiores  produtores mundiais, responsável por produção de 20% no continente até 2040.

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