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- Reforma do ensino técnico gera percepções erradas sobre instituições históricas
- Houve extinção do ensino básico e redimensionamento dos institutos para médio
A alegada extinção do Instituto Industrial Primeiro de Maio, na cidade de Maputo, para dar lugar à Escola Superior de Jornalismo (ESJ), tem vindo a gerar polémica nas redes sociais e em alguns círculos de opinião. No entanto, a narrativa não corresponde à realidade. A instituição, apesar de redimensionada, que extinguiu o nível básico, continua em funcionamento, mesmo após a extinção do modelo clássico do ensino básico técnico-profissional em Moçambique. Informações apuradas pelo Jornal Evidências indicam que as duas instituições públicas coexistem no mesmo espaço, ao abrigo de um memorando de entendimento, sem que tenha havido venda ou encerramento da escola técnica.
Elísio Nuvunga
A confusão terá sido gerada, em parte, pela colocação de um letreiro da Escola Superior de Jornalismo na fachada norte das instalações, levando à interpretação errada de que a instituição técnica teria sido desactivada ou vendida. O assunto alimentou debates nas redes sociais, seminário e programas de radiodifusão. Até académicos reconhecidos entraram na discussão.
A percepção é ainda reforçada pelas mudanças estruturais no sistema de ensino técnico-profissional em Moçambique, que abandonou os cursos clássicos e passou a adoptar o modelo de qualificações, levando à descontinuação de formações tradicionais.
Cursos como Mecânica Geral, Construção de Edifícios e Química Industrial deixaram de existir nos moldes anteriores, sendo substituídos por novas qualificações alinhadas aos novos qualificadores aprovados no quadro da reforma do sistema nacional de formação profissional.
Em entrevista ao nosso Jornal, o director do Instituto Industrial Primeiro de Maio, Jacinto Sumbane, esclareceu que a instituição nunca foi extinta e continua a formar jovens, embora tenha enfrentado interrupções de actividades em anos anteriores.
Sumbane, foi categórico ao desmentir informações de que a escola teria vendido parte do seu património ou sido desactivada. Segundo explicou, a presença da ESJ resulta de um acordo formal entre duas entidades públicas, que permite a partilha de infra-estruturas que estavam subutilizadas.
“Houve negociações. A Escola Superior de Jornalismo fez uma manifestação de interesse de aproveitar as salas que já existiam, mas estava no Zimpeto e lá não tinha condições para ter todas as suas turmas a funcionar. Então, vendo salas que não estavam a ser aproveitadas, na altura, a Escola Superior de Jornalismo entrou e formalizou o pedido. Então, foi um entendimento que houve entre as duas instituições, daí que não pode ter havido venda”, esclareceu.
A ESJ, que anteriormente operava no Zimpeto em condições consideradas insuficientes, manifestou interesse em utilizar salas disponíveis no instituto. Na altura, parte das infra-estruturas não estava a ser utilizada, o que abriu espaço para o acordo. Actualmente, a ESJ ocupa entre 14 e 18 salas, incluindo espaços adaptados às suas necessidades pedagógicas.
Retoma de actividades após paralisação
Entre 2017 e 2020, a instituição enfrentou uma paralisação de matrículas devido à degradação das infra-estruturas e à escassez de equipamentos. Apesar disso, garantiu a continuidade das turmas existentes até à conclusão dos respectivos ciclos formativos.
Neste momento a instituição está em processo de normalização das suas actividades formativas, contando com cerca de 190 formandos nas áreas de Electricidade Industrial e Refrigeração e Climatização.
“A motivação principal para o novo ingresso é a necessidade de reabilitação e apetrechamento das instalações. Isso depende dos fundos do Orçamento Geral do Estado, na parte de infra-estrutura, na parte de equipamento”, destaca.
Face às limitações, o instituto tem recorrido a parcerias para manter a actividade. A Electricidade de Moçambique (EDM) disponibilizou equipamentos para o curso de electricidade, enquanto o Governo italiano apoiou a área de refrigeração e climatização.
Mesmo assim, persistem desafios significativos, sobretudo na componente prática, essencial no ensino técnico-profissional. Em alguns casos, os formandos recorrem ao Instituto Industrial de Maputo para completar módulos que exigem equipamentos indisponíveis nas suas instalações.
“Como sabe, a formação técnico-profissional não pode ser feita apenas em palavras. Nós trabalhamos no saber fazer. Então, é necessário que o formando tenha onde fazer, onde adquirir este conhecimento, onde adquirir as habilidades e onde ter esta atitude. Então, se não temos equipamento para uma dada área, não podemos dar essa qualificação. Mesmo as qualificações que temos neste momento, há equipamento que não temos. Por exemplo, para a electricidade industrial, nós estamos a recorrer, para alguns módulos, ao Instituto industrial de Maputo. Então, fizemos um memorando de entendimento, de forma que estes módulos, nos equipamentos que nós não temos aqui, os formandos tenham a componente prática. O equipamento didáctico não é barato”, disse.
Futuro depende de reabilitação e financiamento
O Instituto Industrial Primeiro de Maio reconhece a necessidade urgente de reabilitação das suas infra-estruturas para retomar plenamente as formações. Há planos para ampliar as instalações e introduzir novas qualificações, mas tudo depende da disponibilidade de fundos do Orçamento Geral do Estado.
“O único entrave que podemos encontrar é a parte mais importante: os fundos. Porque o plano indicava que está previsto fazer-se a reabilitação ainda este ano. Nós estamos já em Abril e o País parece que está a enfrentar mais dificuldades do que as que tínhamos em anos anteriores”, conclui Sumbane.



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