Através de pequenos grupos de poupança e negócios : Governo e parceiros ajudam vítimas de violência e discriminação a se reerguem

SOCIEDADE

Moçambique é desde o ano 2000 signatário dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e, através do Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA), definiu os objectivos dirigidos à igualdade de género. Com efeito, de forma a não deixar ninguém para trás, fazer com que as mulheres participem activamente nos processos do desenvolvimento, o governo e parceiros têm vindo a adoptar iniciativas que visam fortalecer a participação económica e social da mulher e da rapariga, que fazem parte do grupo vulnerável, devido a práticas nocivas, discriminação e demais factores. Em Gaza, o Evidências conversou com beneficiárias da iniciativa Empoderamento Económico de Mulheres e Raparigas que destacam a importância de um projecto que peca por existir apenas em quatro províncias.

Neila Sitoe

Trata-se de um projecto do governo, com financiamento da União Europeia e das Agências das Nações Unidas, implementado nas províncias de Gaza, Manica, Nampula e, actualmente, na província de Cabo Delgado devido ao conflito armado que deixou várias pessoas em situação de vulnerabilidade.

Lídia Mudabe, de 15 anos de idade, órfã, residente em Chicualacuala, faz parte das 1500 beneficiárias do projecto. Perdeu os pais vítimas de doença logo após ao seu nascimento, e ficou à guarda da avó paterna, que, depois de um tempo, perdeu a visão e Lídia é quem cuida dela. Durante muito tempo, ambas dependiam da magra pensão do sistema formal de ProteçãoSocial, gerido pelo Instituto Nacional de Acção Social (INAS).

“Há dias que passávamos fome, porque a pensão não era suficiente e dependíamos também da ajuda dos vizinhos que nem sempre estavam dispostos a ajudar. Tínhamos falta de quase tudo, incluindo roupa e calçado”, desabafou.

Por conhecer a vulnerabilidade e desafios que muitas famílias enfrentam, o projecto de Empoderamento Económico de Mulheres e Raparigas incluiu como um dos critérios de selecção de beneficiárias, menores que chefiam famílias. Foi por via dessa oportunidade que Lídia beneficiou da formação e um kit para iniciar um negócio. Igualmente, participou da criação do grupo de poupança TLOGOMELANE, no qual, diariamente, aprende a lidar com a sua situação socioeconómica.

Com o seu pequeno negócio, a rapariga consegue canalizar parte dos seus rendimentos à uma poupança no referido grupo de crédito rotativo que varia de 10 a 500 meticais de acordo com as possibilidades de cada participante.

Trata-se de valores que são depositados semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente, para serem levantados posteriormente. O fundo é usado para apoiar os membros em caso de imprevistos (morte, acidentes, doenças, entre outros) durante o ciclo, mas funciona também como um banco, onde os beneficiários podem fazer empréstimos para poderem desenvolver negócios e depois devolverem.

Ultrapassar as barreiras e conquistar independência financeira

Lúcia Zimba, de 22 anos de idade, residente no bairro 06, Patrice Lumumba, na cidade de Xai-Xai, é mãe solteira de uma menor de três anos, cujo pai não quis assumir a paternidade. Mesmo com as dificuldades, não desistiu e hoje consegue poupar parte do que ganha como diarista.

Filha de uma mãe camponesa e mais velha de quatro irmãos, teve necessidade de ainda cedo trabalhar como diarista em quintais da vizinhança para ajudar nas despesas da casa. Quando engravidou e o namorado recusou-se a assumir a sua vida, mudou por completo e passou a ser discriminada na comunidade, contudo não se deixou abater e procurou formas para poder ter algum rendimento.

“Fui seleccionada no bairro para participar da formação e depois passei a fazer parte do grupo de poupança, onde vi uma oportunidade de conseguir dinheiro sem muito esforço físico, iniciei a minha poupança. Quando vi que já tinha poupado uma quantia suficiente, decidi iniciar um pequeno negócio de venda de produtos de primeira necessidade e aos poucos começou a crescer. Lembro-me que tirávamos água na casa de uma vizinha, visto que na minha casa haviam cortado por falta de pagamentos, mas consegui liquidar todas as dívidas e religaram”, detalhou, enaltecendo a iniciativa de Kuvumbana.

Mónica Macuvel, de 22 anos de idade, é outra beneficiária que teve uma infância sofrida depois de ter perdido os pais ainda criança. Vive com o seu irmão mais velho, casado com uma mulher que não se conforma com o facto de compartilhar o mesmo espaço com ela.

Mónica pertence ao grupo de poupança Mintiro (que significa trabalho), criado pela Kuvumbana em parceria com a ONU Mulheres, no âmbito da Iniciativa Spotlight para Empoderamento Economico das Mulheres jovens e raparigas no distrito de Chicualacuala.

“Somos várias mulheres que passamos diferentes tipos de violência aqui no distrito. Mas a minha vida mudou para o melhor desde que me integrei no grupo poupança Mintiro. Com o valor do grupo de poupança, comecei a investir no negócio de uvas, primeiro por encomenda e actualmente tenho minha própria banca. Para além de uvas, vendo maçãs e outras frutas, e graças à mentoria que recebo, o negócio está a prosperar”, declarou.

Mónica, Lídia e Lúcia dizem que continuam poupando e não pensam em parar, porque agora são economicamente independentes, conseguem ajudar as suas famílias e, de vez em quando, satisfazer seus caprichos. Mas esta não é a meta, almejam se formar, continuar a empreender e, quiçá, serem proprietárias e gestoras de grandes empresas.

Já foram abrangidos 1500 mulheres e raparigas em Gaza

De acordo com Farcelina Tamele, coordenadora da Kuvumbana, uma associação sócio humanitária, o governo, em parceria com a União Europeia e as Nações Unidas, no âmbito da Iniciativa Spotligth, está a empoderar economicamente mulheres dos 18-24 anos de idade, vítimas de violência sexual baseada no género, discriminação e de práticas nocivas.

“A Kuvumbana como parceira de implementação, no âmbito do empoderamento económico, forma e dá mentoria a grupos de poupança, distribui kits iniciais de negócios e constrói centros comunitários de desenvolvimento de competências nos distritos de Xai-Xai, Chongoene e Chicualacuala, tendo até então abrangido um total de 1500 mulheres e raparigas dos três distritos da província de Gaza, onde o projecto está a ser implementado”, afirmou.

Os kits iniciais de negócio são compostos por roupas, peças de capulanas, calçados e produtos de primeira necessidade. Igualmente, a iniciativa inclui formação vocacional em avicultura, horticultura e corte e costura.

O empoderamento consiste na formação e mentoria de grupos de poupança, que, para além de impulsionar pequenos negócios, são fóruns para a capacitação e maximização dos recursos, plataformas para a socialização das mulheres e raparigas, onde discutem e reflectem sobre os seus sonhos, direitos, deveres e projecções futuras.