- Sobre o Relatório da ENIF (2020) do BM
Por: Teodósio Camilo
Da Génese da Educação Financeira
Existem diversas percepções sobre Educação Financeira. Determinadas correntes defendem que somente um indivíduo financeiramente educado é que está capacitado para realizar investimentos. Porém, esta percepção não sempre constitui a verdade. Um sujeito pode ser financeiramente educado, sem necessariamente ser um investidor.
Numa visão microscópica, pode-se discernir fronteiras e correlações entre a Educação Financeira e Investimentos. A Educação Financeira, tal como diversos teóricos da área defendem, é uma área das Ciências Humanas, intrínseca ao comportamento humano face às finanças, actua na psicologia monetária que procura compreender o impacto das crenças, avareza, atitudes do sujeito face a uma determinada quantia financeira.
A Educação Financeira operacionaliza-se através de acções pró-mudança do conhecimento, das atitudes e dos comportamentos dos indivíduos em relação às suas finanças. Estas acções podem ocorrer nas escolas, comunidades e ambientes de trabalho e em diferentes grupos populacionais, de forma a inculcar novas formas de pensar sobre finanças. Em termos gerais, a Educação Financeira visa melhorar as finanças pessoais, orçamento, planificação e o desenvolvimento do espírito de poupança para a reforma ou com objectivo de adquirir activos que poderão gerar renda (Fox et al., 2005).
Entretanto, embora o conhecimento financeiro seja o ponto de partida, um indivíduo pode responsabilizar especialistas em investimentos, tornar-se o gestor dos seus fundos na aquisição de activos, investir em bolsas de valor e o proprietário não estar directamente ligado à gestão financeira do património, tanto que os investimentos fazem parte de uma área específica no campo financeiro. Os investimentos são feitos mediante uma prévia pesquisa do mercado das oportunidades e riscos que caracterizam determinado negócio. Assim, não é suficiente ser financeiramente educado, requer-se uma assessoria de consultores em investimentos para aderir a um negócio sustentável.
Loke et al (2015) contextualizam a Educação Financeira e trazem o conceito de auto-eficácia. Os teóricos consideram que Educação Financeira permite apurar a relação, o impacto do conhecimento financeiro e comportamentos face à poupança e apresentam a correlação entre a auto-eficácia financeira e o conhecimento financeiro. Todavia, a maioria das intervenções da Educação Financeira direccionam-se à aquisição do conhecimento financeiro e ignora a auto-eficácia.
Nesta concepção, indivíduos financeiramente educados assumem responsabilidade pessoal cada vez maior por suas finanças, criam condições de se prevenir das oscilações financeiros que o mercado pode proporcionar. Para que as comunidades tenham melhor qualidade de vida devem entender a razão do seu actual estágio financeiro e possibilidade de ascensão, no sentido de suprir as suas necessidades pessoais bem como as dos seus dependentes.
Existem inúmeras vertentes em que todos os cidadãos estão sujeitos e inevitáveis, não se pode pertencer a comunidade sem compartilhar os tais fenómenos financeiros. Por exemplo: as taxas de juros, os riscos, a inflação, entre outros. Pessoas financeiramente educadas contribuem para o bem-estar da economia social e ainda mantêm sua saúde financeira que directamente está associada à saúde física e psicológica do indivíduo.
Ninguém tem respostas imediatas nem fórmula mágica que possa satisfazer a melhoria da vida das comunidades rurais, além da gestão correcta das finanças, através da Educação Financeira e melhoria do acesso aos produtos e serviços financeiros. A mudança de atitudes e acções é um processo a ser executada dia-a-dia, insere-se na cultura das comunidades e torna-se estilo da vida (Barcelos & Rocha, 206).
A Educação Financeira vai além da escolaridade, das habilidades práticas de leitura, escrita e matemática, pois estes elementos não reflectem as atitudes e comportamento financeiro do indivíduo. É preciso compreender os conceitos e produtos financeiros através da busca de informação e orientação, que, depois de processados, desenvolvem os valores e as competências necessárias à formação do conhecimento sobre finanças, aproveitar as oportunidades, avaliar riscos, fazer escolhas bem informadas e financeiramente conscientes (Berverly & Burkhalter, 2005).
Elementos-chave da Educação Financeira
Existem diversas abordagens, programas e manuais de Educação Financeira que utilizam metodologias distintas, porém, o que as pessoas precisam entender são os termos-chave e operacionalização dos cálculos diários que aplicam na sua vida financeira. Os referidos conceitos e cálculos resumem-se em: income (receitas, recebimentos); expenses (despesas), assets (activos) e liabilities (passivos). O esforço titânico que se deve envidar é o desenvolvimento de um equilíbrio entre as receitas, despesas, activo e passivo. Entretanto, não se trata de um exercício simples, razão pela qual a Educação Financeira requer aplicação de diversas iniciativas e áreas de saber relacionadas com a psicologia, atitudes, crenças entre outros elementos inseridos na cultura, tanto que o exercício de poupança, consumo regrado devem fazer parte da vida do cidadão.
Shiyou (2016) apresenta uma abordagem histórico-evolutiva sobre finanças, refere que ao longo da evolução humana percebeu-se a influência do dinheiro na vida quotidiana, houve necessidade de se assimilar cada vez mais o conhecimento financeiro de forma a produzir lucro sobre aqueles que não apresentassem interesse ou domínio e gerou-se a sociedade de assimetrias financeiras de pessoas maioritariamente sem educação financeira e que não sabiam lidar com seu próprio dinheiro.
A falta de Educação Financeira abre espaço ao enriquecimento desregrado dos que apresentam o domínio de aspectos financeiros e empobrecimento dos que mostram fragilidades sobre esta matéria. As pessoas financeiramente menos educadas apresentam níveis exorbitantes de inadimplência, contraem dívidas insustentáveis, têm dificuldades na planificação do seu futuro e desenvolvem habilidades em usar a sua ignorância na gestão de finanças pessoais (Vieira, 2011).

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