O contínuo processo de racionalização rácica

OPINIÃO

Dionildo Tamele 

Antes de mais nada, permitam-me, estimados leitores deste magnificado seminário, apresentar as minhas humildes desculpas, por causa do equívoco que aconteceu na pretérita edição, no artigo assinado por mim, com o título “Que significado político Eduardo Mondlane tem para os moçambicanos? Além de ser um equívoco, prefiro chamar de um erro crasso, que nunca podia ter sido cometido no processo da escrita, se partirmos da lógica de depois de escrever o artigo devemos o ler ou darmos a uma pessoa muito próxima para dar uma vista no mesmo.

No século XX, os americanos começaram a cogitar a possibilidade de si ter o primeiro presidente negro, no entanto, é preciso não esquecer o que caracteriza a sociedade norte-americana, é um excesso de racismo institucionalizado, não obstante a mesma ser uma sociedade patriarcal, o que não só impede os negros de ascender ao poder bem como as mulheres.

Todavia, é preciso compreender que esta mera possibilidade, de se ter um presidente afro-americano, não constitui novidade com o romance de Irving Wallace, sendo que a mesma possibilidade sempre esteve presente naquela minoria rácica vezes sem conta discriminada, não só pela falta de oportunidade de ocupar alguns cargos políticos, na administração daquele país e em algumas instituições do ensino, desde primários até ao superior, como Allan Bloom, no seu livro a Cultura a Inculta, destaca o facto do ensino superior nos Estados Unidos não produzir uma educação libertadora em termos rácicos, mas reproduzir as elites brancas, com discriminação estupida a outras raças, por causa da falta da interpelação da crítica no seio universitário, que influencia o funcionamento do tecido social.

A necessidade dos negros americanos, de um dia governar naquele país, sempre foi o tema de debate na perspectiva do romance Wallace, mas sempre foi levada no âmbito de um desprezo total pelos negros como sendo um povo sem cultura, parafraseando, Roberto Michels defende que as massas sempre tem a necessidade de um comando, e no romance Wallace é notório que as massas são os negros que são incapazes de pensar em si só.

Contudo, esta minoria, diante de um processo meramente histórico, foi desprezível como sendo não parte integrante do progresso, não esquecendo Hegel, um dos cultores desta ignorância desprezível, com os negros desde os africanos e os que estão sediados na disporá.

Outrossim, é preciso ter em conta que a história dos negros americanos ao longo desse tempo tem provado o contrário do que tem sido dito, com exemplo de figuras negras que contribuíram para evolução da ciência, literatura, tecnologia, cinema e teatro, nomes como de Frederick Douglas, BookerWassington, Mathew Henson, Paul Laurence, Lionel Hampton, para depois desembocar na luta de emancipação, protagonizada por Martin Luther King Junior, entre tantos outros.

Os historiadores e conhecedores da história deste povo sabe de antemão da epopéia do sonho americano, muito aclamado, que passa, necessariamente, em alcançe do espaço social, com destaque na sociedade americana, na arena política, que constitui um lugar privilegiado para a compreensão da dinâmica e da influência do xadrez do campo da polis no mundo.

O presente ensaio procura mostrar que os empecilhos aos quais os negros americanos sempre foram colocados para impossibilitar que os mesmos governem aquele país, tendo como argumento central a ideia da incapacidade que os mesmos possam ter, tal como as outras raças, para levarem a cabo esta empreitada no seio daquele país, que é Estados Unidos da America, é preciso não esquecer que os negros desde a pré-história foram e continuam sendo (mas agora contam com sua cumplicidade) vítimas da descriminação racional, o que denota a incapacidade racional na qual a raça escura sempre foi marcada.

Vários estudiosos discutiram a possibilidade de os Estados Unidos virem um dia a ter um presidente do sexo feminino e na pior das hipóteses um presidente negro, tendo em conta o racismo institucional montado neste país, não esquecendo também os sistema patriarcal existente, sendo que no século em curso uma mulher branca teria concorrido as eleições com a pretensão de chegar ao poder, mesmo sabendo que podia não chegar por causa do sistema vigente no seio daquela sociedade onde, aparentemente, os direitos iguais existem entre os seres humanos, sem a distinção da raça, sexo, religião, enquanto que no plano prático esta pretensão é apenas teórica.

O livro Irving Wallace procura descrever com destreza e pericia de saber esta situação, que temos vindo abordar no presente ensaio, cujo título é O HOMEM, primeiro mostra de forma muito lacunosa como seria a conquista do poder de um presidente negro, tendo em conta que Obama chega ao poder no século XXI, diante de um processo eleitoral, onde ele ganha as eleições através do seu poder da oratória e da retórica, mas no século anterior os negros teriam se candidatado e perdido as eleições.

O romance escrito no período da guerra fria, onde existia no mundo uma luta ideológica clara entre as duas realidades discrepantes, na interpretação da vida política, se por um lado, o romance descreve a forma como o presidente negro chega ao poder nos Estados Unidos, mostrando de certa maneira uma repulsa da incapacidade competitiva dos negros chegarem ao poder a luz da competência, a não ser na perspectiva da sorte.

Repare que Irving Wallace no seu romance tem o mérito de ser um profeta, no sentido de que ao menos ele já havia cogitado esta possibilidade de um negro governar a maior potência mundial.

O romance descreve que a única forma do presidente negro chegar ou não ao poder era apenas da nomeação, contrariando aquilo que aconteceu com a chegada do poder, na medida em que a sua raça já o inibia de chegar ao governativo. E de uma forma inusitada diz após a morte inesperada do presidente dos Estados Unidos da América, sucede que uma das personagens descrita no romance, que responde pelo nome de Douglas Dilman, é um negro que sucede o presidente branco que teria morrido com o seu vice-presidente numa viagem presidencial para Alemanha. Sendo que Douglas Dilman era, na altura dos acontecimentos, presidente do senado norte-americano.

É preciso compreender, para todos os que tem a pretensão de estudar a ciência política ou as dinâmicas do poder na totalidade, reparando a lógica segundo a qual a política não é discutida em termos de dever ser, mas como as coisas funcionam vai depreender que este romance na época foi debatido, e até hoje continua a merecer muita atenção de todos os cultores da ciências sociais, e não esquecendo os da comunicação.

Com a publicação do romance Wallace, no século passado, fez com que a crítica literária caísse em cima dela, primeiro pela qualidade da obra, não esquecendo que nunca antes tinha se cogitado esta ideia. E a década sessenta arrastou vários leitores ao centro de um furacão político, em que Dilman tem de o fazer face às três realidades conflituosas: a do seu cargo, a da sua raça e da sua vida privada. Desde a primeira página, O HOMEM, é um livro profundamente emocionante.

Este romance aproxima-se vertiginosamente do clímax quando, pela primeira vez na história norte-americana, o Senado se reúne para destruir o Presidente.

Em termos comparativos, podemos dizer sempre que o dever muitas das vezes tem falhado muito, no sentido em que com a eleição de Obama para a presidência dos Estados Unidos da América, a recepção do mesmo, foi muito discrepante a aquilo que é descrito no romance, se por um lado Douglas provocou uma onda de descrença, desde a sua capacidade intelectual mesmo para influenciar a dinâmica da vida política, ao nível doméstico e doravante ao nível internacional.

Wallace nos propõem um debate de capital importância que hoje pode ser reativado com a perspectiva política rácica, não só norte-americana.