- Junta Militar com o novo líder?
O Ministério da Defesa anunciou, semana passada, que teve informação de que a Junta Militar da Renamo elegeu, nas matas da serra da Gorongosa, província de Sofala, um novo líder, em substituição de Mariano Nhongo. A informação, nunca reivindicada pelo referido grupo, foi partilhada pelo director das operações, Brigadeiro Chongo Vidigal, sem trazer detalhes. A Renamo, na pessoa do seu secretário-geral, diz que a informação que tem é de que todos elementos da Junta Militar já aderiram o processo do Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), por isso desconfia que seja uma invenção da Frelimo, que curiosamente, antes mesmo de se confirmar, já organizou manifestações de condenação da Junta Militar. A versão da Renamo converge com o anúncio das Nações Unidas, na pessoa de Mazoni, que anunciou, em Dezembro passado, os últimos membros da Junta Militar que aderirem ao DDR. Pelo meio há suspeitas de uma agenda de inventar um inimigo com fins políticos, incluindo uma possível perpetuação no poder do actual governo.
Nelson Mucandze
“Na zona Centro está tudo calmo, mas temos informações de que foram eleitos recentemente novos dirigentes da Junta Militar, nas matas de Gorongosa, facto que prova que este grupo ainda está activo, e é por isso que nós ainda não desactivamos os nossos efectivos estacionados naquela região, tendo feito apenas alguma alteração em relação à realidade actual. A eleição do novo líder da Junta Militar preocupa-nos e redobramos a nossa vigilância, na base de acções operativas diárias, para podermos inverter qualquer acção de instabilidade”, são palavras de Vidigal à imprensa em Sofala.
Perante as questões dos jornalistas, Vidigal prosseguiu que não tem informações suficientes para entrar em detalhes em relação ao perfil do suposto eleito novo líder, “mas a verdade é que a Junta Militar da Renamo elegeu novos quadros para liderança”, garantiu.
Disse não ter igualmente informações sobre os supostos elementos da Junta Militar, grupo originalmente composto por descontentes da Renamo de Ossufo Momade, que tem se mostrado pressionado para acelerar o processo do DDR, que tem se revelado estagnado.
“O que posso garantir em relação ao processo de DDR é que ele está bem encaminhado, está a ter o progresso, as partes têm estado a cumprir as promessas. É verdade que, nalgum momento, tem havido falhas, nomeadamente o cumprimento dos calendários, mas o processo está a decorrer e auguramos que chegue a bom porto para que a paz na zona Centro e em todo o país seja estabelecida de forma definitiva”, assegurou Vidigal.
Chongo Vidigal falava à imprensa à margem da cerimónia de abertura do Ano Operacional Militar, que decorreu no último sábado, na cidade da Beira, orientada pelo ministro da Defesa Nacional.
ONU declarou o fim e a Renamo diz que não existe Junta Militar
Mas em Dezembro, o enviado pessoal do secretário-geral da ONU em Moçambique e presidente do grupo de contacto para negociações de paz em Moçambique, Mirko Manzoni, anunciou que os últimos integrantes da Junta Militar integraram o DDR.
“Hoje, temos o prazer de informar que os últimos membros da Junta Militar da RENAMO foram desmobilizados em Murrupula, na província de Nampula. Este último grupo de 24 membros da Junta Militar concluiu a desmobilização e juntou-se agora aos demais participantes das actividades de desarmamento, desmobilização e reintegração em curso a nível nacional em Moçambique”, referiu na altura, sugerindo o fim da Junta Militar, informação que hoje contrasta com as informações do Ministério de Defesa.
Esta recomposição do grupo acontece seis meses depois da morte de Mariano Nhongo, que fundou e liderou o grupo desde 2019, contestando a liderança do partido RENAMO.
Em setembro passado, após a morte de Mariano Nhongo, em combate com as forças governamentais, houve vozes que defendiam que a morte do mesmo não significava o fim do grupo.
O Secretário Geral da Renamo, André Magibire, disse à STV que a Junta Militar não existe, e que se existir só pode ser invenção da Frelimo. Questionou o facto de o Ministério da Defesa partilhar informações incompletas, como é o caso, por exemplo, de não trazer a identidade do suposto líder ora eleito.
Num outro desenvolvimento, Mangibire dá garantias de que nenhum desmobilizado da Renamo e da Junta Militar tenha voltado às matas, apesar de ainda não terem recebido as pensões, desde o início do DDR, em Junho de 2020.
“Os nossos combatentes, quero garantir, são disciplinados e não se vão juntar àquele processo, tanto que eles já estão a constituir as suas vidas nas suas comunidades, nós não acreditamos que eles possam se juntar a essa Junta Militar, entre aspas, pois, como disse, nós acreditamos que essa é uma criação da Frelimo”, afirmou.
Estranhamente, bastaram poucas horas após o anúncio para a Frelimo, em Sofala, sair à rua em repúdio da suposta eleição do novo líder da Junta Militar, o que reforça a suspeição da Renamo, numa altura em que há correntes que acreditam que há um plano para usar a Junta Militar para fins políticos.

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