Alexandre Chiure
Em jeito de rescaldo, o décimo segundo congresso da Frelimo, que se realizou há uma semana, na Matola, em Maputo, pode ser visto em vários ângulos, de acordo com as percepções de cada um. Há quem diga, por exemplo, que o evento foi um autêntico sucesso e que os resultados alcançados superaram as expectativas.
Outros são partidários da ideia de que o congresso produziu consensos a vários níveis de debate e na manutenção do presidente do partido, com 100 por cento de votos, e do secretário geral, ambos como candidatos únicos, num verdadeiro exercício democrático.
Outros ainda defendem que a Frelimo saiu deste congresso mais coeso, renovado e forte para os desafios que se colocam, nomeadamente as eleições autárquicas de 2023 e as presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais de 2024.
E eu, o que me ofereço a dizer a respeito deste congresso?
Primeiro, sublinhar que respeito esta forma de pensar dos meus concidadãos. Estas opiniões têm a sua lógica, pois baseiam-se naquilo que cada um deles tinha como expectativa em torno do congresso.
O seu nível de satisfação tem a ver com as metas que cada um dos defensores destas opiniões estabeleceu nas vésperas de realização do evento. Por isso, seria um erro desconstruir estes pontos de vista ou tentar desmenti-los.
O melhor ou o mais simpático é cingir a minha avaliação sobre o que foi o congresso naquilo que eu esperava dos congressistas do partido do governo em termos de debate de ideias em torno de assuntos candentes que interessam às massas das quais faço parte e, a partir daí, medir o meu nível de satisfação.
Verificar até que ponto é que com o debate havido na sala foram atingidos ou não os objectivos ou as metas que eu, como cidadão, com opiniões próprias, havia fixado para este congresso e esperar que os outros respeitem, também, as minhas opiniões.
A minha expectativa, por exemplo, era que o congresso tivesse tido um debate franco e aberto sobre o terrorismo. Ir a fundo da questão no sentido de analisar e trazer a lume o que está por detrás da adesão de jovens às fileiras terroristas no país.
Uma discussão com o propósito de identificar soluções para estancar esses recrutamentos que, segundo o Presidente da República, decorrem em Nampula e, agora, em Manica. Pelo menos nada de género vem reflectivo no comunicado final como conclusões e recomendações sobre esta matéria.
Ainda ligado ao terrorismo, era minha expectativa que os congressistas tivessem aprofundado o debate sobre fontes de financiamento, internas e externas, às actividades terroristas no país. Quer parecer-me que também não houve esse exercício.
Não ouvi nada do congresso relacionado com o grave problema humanitário causado pela guerra que se levanta em Cabo Delgado e nas províncias vizinhas como Nampula.
Não é novidade para ninguém que milhares de pessoas vivem, algures, em condições deploráveis porque as suas zonas de origem ainda não oferecem condições de segurança para o seu regresso.
Um canal de televisão reportou, há dias, o caso de desespero de um chefe de família que, em consequência da guerra, recebeu algumas pessoas em sua casa e tem hoje, sob sua responsabilidade, 40 membros, e sem recursos para alimentá-los.
O décimo segundo congresso não mexeu igualmente, para esclarecer de uma vez para sempre, no assunto em debate, nos círculos políticos internos e não só, sobre o eventual terceiro mandato de Filipe Nyusi como Presidente da República.
O tema, apesar de ter sido levantado por Castigo Langa, quadro sénior do partido, não foi debatido alegadamente porque não fazia parte da agenda. Ele foi hostilizado, isolado e silenciado por ter exposto o assunto. Houve, inclusive, uma tentativa de assassinar o seu carácter, discutindo a ele, como pessoa, e não o ponto que apresentava, que é, sem dúvida, de interesse público.
Assim, a dúvida prevalece e o assunto continua em aberto. Propositadamente ou não, o certo é que não houve um posicionamento claro do congresso acerca disso, o que nos remete à sessão extraordinária do Comité Central, a reunir-se no próximo ano para a eleição do candidato da Frelimo às presidenciais e legislativas de Outubro de 2024.
Olhando para aquilo que são os frutos do congresso, dá para entender que estes pontos não foram debatidos ou pelo menos na plenitude que se esperava. Não faltou espaço ou tempo para o efeito, pois o congresso tinha o de sobra preenchido por saudações, cantos e danças que nunca mais acabavam, com bajulações à mistura da figura de presidente do partido.
O que me parece ter sido muito bem feito neste congresso foi o legitimar do controlo dos órgãos do partido por parte da ala Nyusi, particularmente do Comité Central, que decide no intervalo de dois congressos, e da Comissão Política, que orienta o partido e o Estado, cumpridas que foram as instruções para afastar aqueles que estiveram ligados à ala guebuziana.
Com a política de candidatos únicos nas eleições internas, desde a base até ao topo, um estilo de democracia própria da Frelimo de Nyusi, a máquina partidária continua a mesma. Os níveis de confiança em relação à direcção máxima do partido mantém-se. Os secretários dos comités provinciais e da cidade são os mesmos. O secretário geral do partido é o mesmo e o presidente do partido é, também, o mesmo.
O resto é só esperarmos pela extraordinária do Comité Central do partido para vermos se o poder vai para o centro ou continua no planalto de Mueda. A casa, essa, está organizada no que for necessário.

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