Afonso Almeida Brandão
(para o Jornalista Alexandre Chiúre, com um abraço Fraterno)
A Alma é uma coisa estranha. Concluí que é intermitente, estilo semáforo no cor-de-laranja. Há alturas em que nos abandona completamente e não a conseguimos encontrar. Às vezes, só por umas horas, outras por mais tempo. Procuramos, procuramos, mas não aparece. Nem quando a chamamos aos berros, nem quando lhe falamos docemente. Evapora-se. Por fora, continuamos completamente iguais, embora tenhamos uma vontade irreprimível de comprar uns óculos escuros. Pressentimos que, se nos olharem bem nos olhos, talvez consigam descobrir que ela não está lá (a Alma, evidentemente!). Mas, à parte esse pormenor, falamos da mesma maneira, rimo-nos da mesma maneira e ninguém dá por nada. Só que quando ela se vai assim embora, ou se esconde, sei lá, não sentimos as coisas. Vêmo-las como num filme, emitimos juízos sobre elas, damos opinião, mas não nos provocam “aquele calor cá dentro, nem sequer o frio”, que habitualmente os acontecimentos muitos bons ou muito maus, nos causam.
Ia dizer que ficamos apáticos, mas acho que não é bem isso. Continuamos a responder aos acontecimentos na proporção dos estímulos, ou seja, reagimos com maior intensidade a uma doença de um Amigo, do que a uma esfoladela no joelho, a uma carta de parabéns do que a uma Notificação para irmos pagar Impostos às Finanças, mas atrevo-me a dizer que o fazemos por já termos “decorado” que é assim que nos devemos comportar naquelas situações. Aliás, o nosso dircurso é perfeitamente lúcido, racional, e até nos provoca alguma admiração.
Provavelmente, canalizamos para os neurónios a energia que normalmente gastamos com as sensações e, temos de confessar, que em termos práticos se compreende a utilidade desta troca de agulhas. Suponho que deve ser uma daquelas estratégias muito primitivas, estilo ficar paralisado quando se tem Medo, ou dar um salto para trás quando nos assustam, que fomos desenvolvendo ao longo dos séculos para nos ajudar a enfrentar e superar algum tipo de problemas.
A verdade é que temos problemas urgentes a resolver — seja um projecto profissional muito importante a entregar no dia seguinte, seja a necessidade de reestruturar a Equipa com a qual se trabalha, seja a urgência de mudar de Vida — então mais vale que o nosso cérebro trabalhe a todo o vapor e não se deixe atrapalhar por lágrimas inúteis ou choradinhos que não nos levam a lado nenhum. Arrumamos a Alma onde ela não atrapalhe, e atiremo-nos para a frente com o instinto de auto-defesa muito aguçado. Só assim conseguimos, sem deixar que a pena, o sofirmento dos outros nos atrapalham, fazer as coisas difíceis que temos para fazer, desde dizer umas verdades ao colega que constantemente nos atira com trabalho para cima, ao Chefe, aos Jornalistas, aos Políticos e Governantes oportunos e irresponsáveis, aos Professores “de trazer por casa”, aos Pintores, aos Músicos, aos Poetas, aos “Escritores de Aviário” que nos cercam, à mulher/marido, à prima que mais uma vez se nos quer “atrelar” para as férias. Eu sei lá que mais…
Estranhamente, também pode ser pelas razões inversas, quando temos de enfrentar realidades que nos fazem sofrer mais do que julgamos possível, como por exemplo, quando perdemos o Emprego — o que acontece com muita regularidade em Moçambique —, enfrentámos uma crise familiar ou, ainda muito mais dramático — o pleonasmo vem a propósito! — quando morre alguém de quem gostamos imenso. Ou o Divórcio bate-nos à porta… Então, podemos “isolar os Afectos”, como descobrir que chamam a este fenómeno os Psiquiatras, exactamente para não reagirmos tão emotivamente às agressões de que somos alvo, evitando assim saltar de um precipício ou cortar a cabeça a quem nos ataca. Queremos, a todo o custo, manter-nos juntos, equilibrados, sem perdermos o controlo do que dizemos ou fazemos, e então aí, para não sermos engolidos pelas emoções que sentiríamos se não estivéssemos anestesiados, entramos em piloto automático. Pelo menos, até julgamos que é seguro voltar a sentir.
Simultaneamente, parece que as Memórias também se perderam. Não conseguimos ir lá buscá-las, com facilidade, como se o arquivo estivesse repentinamente fechado a sete chaves. Surgem, de vez em quando fragmentos, imagens, mas desfocadas e em mau estado, um pouco como se o que estivesse disponível fossem apenas aquelas fotografias piores, que guardamos numa caixa porque não são suficientemente boas para irem para o álbum de Família.
Às vezes irrita. E mete Medo. Apetece que nos “belisquem cá dentro” para termos a certeza que ainda somos capazes de sentir com força, mesmo que seja Dor. Temos momentos de pânico em que julgamos que perdemos a Alma de vez, mas depois, de repente, dá-nos um flash de Optimismo e temos certeza. Não, ela volta, porque não pode viver muito tempo sem nós! Acredita, Meu Caro e Querido Colega Alexandre Chiúre e acreditem também os nossos Leitores, quer queiram, quer não.

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