A guerra entre a isenção e cedência a pressões políticas

OPINIÃO

Alexandre Chiure

TV Sucesso, o que dizer de ti neste teu oitavo aniversário? Que ainda és criança? Creio que não. Tenho dificuldades em fazer tal afirmação, porque, apesar da tua idade, tens a aparência de uma pessoa adulta. Cresceste muito rápido.

Vi-te nascer. Sou testemunha disso. Inicialmente, passavas despercebido de todo o mundo. Os políticos não se sentiam sequer incomodados com o que escrevias. Por isso, não havia pressão nenhuma sobre o teu trabalho, mas preocupação com a tua agressividade, ousadia e coragem, tendo, precocemente, marcado a diferença.

A forma peculiar com que abordas os assuntos e o facto de levares a televisão ao povo e este à televisão levaram a que conseguisses, paulatinamente, impor-te e mudar a forma de as pessoas olharem para ti. Começaste a ser visto com alguma atenção. Cedo ganhaste prestígio e consideração por parte dos telespectadores que serves e, acima de tudo, credibilidade e audiência que todos os meios de comunicação almejam.

Ninguém imaginava o que serias na vida, o que acontece com todos os que vêm ao mundo. Conquistaste o teu próprio espaço. Estás a fazer televisão à tua maneira e ao teu gosto, com algumas das iniciativas completamente originais. Hoje, tu próprio não acreditas naquilo que és. Vejo que estás assustado com o teu crescimento.

Sabes que, aos olhos das pessoas, não aparentas a idade que tens? Assemelhas-te a órgãos arreigados há muito mais tempo na praça. És uma criança, sim, mas por dentro, e um adulto por fora. TV Sucesso, eu gosto muito de ti. Sabes porquê? Muito simples. É que és, dos poucos canais de televisão moçambicanos, aberto a uma opinião isenta.

Os convidados aos diferentes programas falam à vontade do que pensam. E tens um programa criativo de que os seus concorrentes não dispõem. Um espaço onde os jornalistas e editores, os fazedores da opinião, se expressam sem censura. É um modelo original da casa, o “Quarto Poder”.

Sei que isso está a custar-te muito caro. Imagino que estejas a ser pressionado por alguns círculos de poder para que troques os analistas residentes por outros, alegadamente porque os actuais são muito agressivos ou não têm um discurso politicamente correcto ou ainda para alterares a linha editorial do programa em si, senão mesmo do canal.

Tais jornalistas dos quais faço parte resistem a elogiar comportamentos que não têm por onde se pegar. Não prestam vassalagem a figuras que não sabem sequer cuidar da sua própria imagem. Não têm a cultura de comunicar e, quando resolvem fazê-lo, criam ruídos na própria comunicação.

Não estamos contra quem quer que seja: Presidente da República, governo, parlamento, partidos políticos da oposição. Tudo o que fazemos é próprio de jornalistas que lidam somente com factos.

Tenho a ideia do quanto sofres no tocante a chantagens e ameaças de te retirarem a inserção de publicidade se não mudares da linha editorial. Já outros passaram por tal situação. Alguns teimam em resistir até ao momento. Infelizmente, há os que acabaram por ceder à pressão e hoje são o que são. Não te deixas capturar, não.

Imagino que alguns políticos de proa não entendam por que és assim tão agressivo, vezes sem conta com críticas veladas contra promessas não cumpridas por parte de alguns membros do governo, discursos desalinhados, ofensas verbais ao público se no topo tens um deputado da bancada da maioria. Sei disso. O segredo é que sabes separar as águas. Uma coisa é política e outra coisa é negócio.

A ti posso, à vontade, prestar uma homenagem pela tua capacidade de resistência a esses fenómenos externos. Às tentativas sistemáticas de interferir para suspender uma ou outra matéria. Ao profissionalismo com que lidas com estas situações. Mereces. Sei que, por vezes, tens de fazer das tripas coração, engolir sapos vivos, para que o stato quo se mantenha.

TV Sucesso, se de facto o teu sonho é continuar a ser uma televisão do povo, tens que resistir, e sempre. No dia em que cederes à pressão, acabou. Serás capturado pelos políticos, Vão mandar e desmandar na tua casa. Terás problemas com o povo, que te vai virar as costas. Os teus conteúdos vão confundir-se com os do canal de televisão de um partido político.

Aí perdes o negócio. A audiência cai e a fatia de publicidade, a seguir. As empresas colocam a sua imagem num canal com maior audiência. Tu sabes muito bem disso. Podes deixar de ser uma alternativa em termos informativos. É claro que os políticos podem ficar felizes com isso porque esse é que é o seu objectivo, mas não te esqueças de que lutarás sozinho para a garantia dos salários para o teu staff.

Eles não te vão dar nada, se não palmadinhas nas costas, como quem diz “agora, sim, está connosco. O canal está a servir os nossos interesses”. Vão-te chamar de bom camarada como se agora não o fosses.

A terminar a nossa conversa, deixo ficar um conselho no sentido de continuares a alimentar-te bem para seres cada vez mais forte e capaz de resistir a fenómenos externos para satisfação dos teus seguidores. É o que me diziam, também, os mais velhos, quando tinha a tua idade.

A receita para isso é investir nos recursos humanos e em programas com conteúdos locais com vista a manteres-te em consonância com as diferentes audiências. Tens, acima de tudo, de apostar na formação, quer no local de trabalho, usando a própria televisão como oficina, quer fora da empresa.

O mercado é agressivo em termos de concorrência. Tens de ter gente à altura para responder aos desafios de cada momento, oferecendo serviços com qualidade competitiva.

Cuidado com certas amizades e conselhos. Alguns têm como objectivo desviar-te do teu caminho para passares a servir os interesses de grupos ou alas políticas. Espero que daqui a 15 ou 20 anos continues com a mesma postura.

Para falar a verdade, o meu desejo é que sejas assim para sempre: Uma televisão que é um exemplo em termos de isenção e verticalidade, valores consagrados na Constituição da República, que os inimigos da democracia tentam, a todo o custo, ofuscar.

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