Brigadeiro Josefo dá razão a Nyongo quase dois anos após a sua morte

DESTAQUE POLÍTICA
  • Generais da Renamo exigem demissão de Ossufo Momade
  • Afinal, Nyongo não mentiu. Josefo confirma agora que esteve detido numa base em 2019
  • O brigadeiro foi até dado como morto e reapareceu para desmentir a Junta Militar
  • Hoje junta-se aos militares que contestam Ossufo Momade e pedem sua demissão
  • Líder da perdiz é acusado de estar ao serviço da Frelimo e de assassinar opositores

Os generais e outros oficiais da Renamo, alguns dos quais co-fundadores do maior partido da oposição em Moçambique, e que num passado recente faziam parte do núcleo de homens de confiança de Afonso Dhlakama, exigem a demissão imediata do líder do partido, Ossufo Momade, alegando que o mesmo está ao serviço da Frelimo e que desvirtuou todos os princípios que nortearam as negociações deixadas pelo ex-presidente, no processo Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR). Entre os generais, destaca-se o sereno Josefo Mwera (na altura identificado por Josefa de Sousa), um alto oficial dos guerrilheiros da Renamo que, em 2019, esteve no centro de uma controversa quando o falecido líder da Junta Militar da Renamo denunciou que este estava detido numa base, onde estaria a ser torturado e chegou-se a cogitar a possibilidade de ter sido assassinado. No entanto, foi apresentado dias depois com uma versão pouco consistente que contradizia por completo a Junta Militar, mas hoje, assume que, sim, esteve detido e tal como ele muitos outros guerrilheiros estiveram detidos e torturados sob ordens do actual Presidente da Renamo, a quem acusa de marginalizar os membros, particularmente os guerrilheiros.

Jossias Sixpence – Beira

Reeditando o cíclico ritual de auto-vitimização, a Renamo acaba de inaugurar mais um episódio de tensão interna nas vésperas das eleições. Desta vez, os protagonistas são um grupo de generais e altos oficiais da guerrilha da Renamo que acusam Ossufo Momade de inoperância e dizem falar em nome de guerrilheiros desmobilizados que estão descontentes com o rumo actual do DDR.

Entre as principais inquietações consta o facto de passados dois anos não estarem a auferir suas pensões devido a não disponibilização de dinheiro por parte do Governo e parceiros, mas entendem que é Ossufo Momade que não está a defender os seus interesses e do partido devidamente.

Falando em representação dos mais de 5200 guerrilheiros da Renamo Josefo Mwera e Thimosse Maquinze acusaram Ossufo Momade de pontapear o artigo 6 no número dois dos estatutos do maior partido da oposição em Moçambique e exigem a sua demissão imediata.

“Os antigos guerrilheiros da Renamo, ora desmobilizados no âmbito do processo de DDR, recorrem, para sobreviver, a biscates e, em troca, recebem cinco quilos de milho ou um litro de óleo, para poderem alimentar as suas famílias. Grande parte deles residem nas cidades e com os filhos e esposas, alguns em casas arrendadas à espera de promessas de reintegração e nada acontece”, disse Thimosse Maquinze.

“O que mais preocupa a ala militar é que vários guerrilheiros foram raptados e mortos em circunstâncias pouco claras, por esquadrões de morte e Ossufo Momade sempre se manteve impávido e sereno, o que nos faz concluir que ele é cúmplice”, sublinhou Manquinze, antes de ser secundado por Josefo Mwera, que acusou Ossufo Momade de “não estar a levar a sério as preocupações dos ex-guerrilheiros e membros do partido”, desabafou.

O general que recupera-se após sofrer um AVC mostrou-se ainda preocupado com a apatia de Ossufo Momade diante dos avanços da Filipe Nyusi e seu Governo para rasgarem o compromisso assinado com Afonso Dhlakama.

“Constatamos que o presidente Ossufo não tem vontade de reagir quanto ao ‘apetite’ do Presidente da República de ‘rasgar a Constituição da República. Deixa a FRELIMO ao seu belo prazer e com os seus objectivos claros de anular o processo das eleições distritais – que é uma das grandes conquistas da luta da RENAMO – e de introduzir um terceiro mandato do candidato e presidente da FRELIMO”, criticam.

Apesar do descontentamento generais mostram-se comprometidos com DDR

Na ocasião, Thimosse Maquinze agradeceu o comprometimento das Nações Unidas para o alcance da paz efectiva em Moçambique, assegurando que indignação dos guerrilheiros em torno da liderança de Ossufo Momade deve ser entendida como uma reivindicação pacífica para alavancar a organização do partido.

“Agradecemos ao representante das Nações Unidas e o presidente do grupo de contacto, Mirko Manzoni, pelo trabalho que desempenhando. Apelamos que os projectos de sustentabilidade do DDR devem ser honrados para garantir e fazer com que os ex-guerrilheiros da Renamo contribuam para o desenvolvimento do país. Esperamos que a nossa indignação seja entendida como forma interna e pacifica encontrada para alavancar a organização do partido. Igualmente apelamos ao Governo e Presidente da República para se abster da nossa reivindicação interna e pacifica porque somos pela paz, reconciliação nacional e desenvolvimento do país”, sublinhou.

Mostrando total compromisso com o DDR, Manquinze prosseguiu dizendo que “Queremos manifestar o interesse de ver encerrada o processo do DDRpara permitir que os nossos colegas que ainda se encontram nas matas de Gorongosa estejam no convívio familiar e integrados no processo da construção e desenvolvimento do país”.

Afinal, Nhongo tinha mesmo razão!

Tomando a palavra, o general Josefo Mwera, que em 2019 foi dado como desaparecido por Mariano Nhongo, referiu que, desde meados de 2022, que os guerrilheiros da Renamo tentam manter contactos com Ossufo Momade através de uma conferência nacional de desmobilizados, mas o líder pautou pelo desprezo, uma vez que não se pronunciou sobre o pedido o que, segundo Mwera, “é uma demonstração clara de que os combatentes não têm nenhum valor na organização”.

Josefa Mwera não tem dúvidas de que Ossufo Momade é o principal responsável pelo mau ambiente instalado no seio do partido. Aliás, denuncia a existência de esquadrões da morte no seio do partido para silenciar os membros que não concordam com a forma como Ossufo Momade está dirigir os destinos do partido.

Aliás, aproveitou a ocasião para confirmar as suspeitas que durante muito tempo foram levantadas por Mariano Nhongo e que ele também ajudou a desmentir, em 2019, quando reapareceu depois de ter sido dado detido em condições deploráveis.

“(Ossufo Momade) depois da sua eleição expulsou os oficiais do Estado-Maior General em Gorongosa, foram detidos e colocados em várias unidades como se fossem inimigos, numa demonstração clara de que pretendia introduzir uma Renamo diferente daquela que Afonso Dhlakama dirigia”, acusou Josefo, confirmando o que Nhongo denunciou na altura.

Recorde-se que em Junho de 2019, um pouco antes da criação da Junta Militar, Mariano Nhongo e um grupo de guerrilheiros denunciou que Ossufo Momade estava a perseguir os oficiais superiores e insinuou que Josefo Mwera podia ter sido executado sob ordens de Ossufo Momade.

“Não temos informação de Josefa, Tayo e Mponha. Foram mortos. Se eles estão vivos porquê está a esconder? Apresente para nós militares vermos os nossos oficiais. Eles trabalharam connosco e sofreram connosco. Se Ossufo diz que não matou, então que apresente, pois, a família quer falar com eles e nós queremos saudar”, sentenciou.

Na altura, Josefo viria a ser apresentado à imprensa dias depois, tendo explicado que não estava morto, mas sim em cumprimento de uma missão do partido, por isso que estava incomunicável com a família e seus camaradas de trincheira, o que terá originado o “mal entendido”, que ele hoje ele próprio desmonta.

Guerrilheiros querem Congresso extraordinário para destituição de OM

Na óptica dos guerrilheiros, o trabalho político da Renamo é um fracasso, segundo acrescentou Mwera, indicando que a Renamo fica na “sombra” dos acontecimentos que minam a evolução da democracia no país e referiu que as bases políticas do partido estão moribundas.

A terminar, Josefo Mwera apelou ao Conselho Nacional da Renamo para convocar um encontro com a finalidade de decidir a permanência ou não de Ossufo Momade na liderança.

“Por tudo que foi arrolado, nós, os combatentes da Renamo, liderados pelo General Thimosse Maquinze, exigimos que o presidente Ossufo Momade se demita e sendo o Conselho Nacional da Renamo, o segundo órgão deliberativo, exigimos que o mesmo convoque, com urgência, um Congresso extraordinário, de modo que, de uma forma pacífica, a Renamo encontre a sua liderança que corresponde aos anseios dos membros do partido e da sociedade moçambicana em geral”, referiu.

No entanto, questionado sobre a possível recusa do Ossufo Momade de abandonar o poder, es que disse, “Nos vamos pedir ajuda a comunidade internacional, para o aconselhar a deixar o poder, porque nos não somos pela guerra, mas sim pela Paz”.

Por outro lado denunciou que “a nível das delegações, Ossufo Momade mandou cortar os subsídios de muitos membros funcionários do partido a tempo inteiro. Notamos falta de consideração ao General Maquinze, na assistência médica, dado o seu estado de saúde actual”.

Liderança da Renamo nega tudo

Reagindo à zanga dos generais, através do seu membro da comissão de contacto para assuntos de desmobilizados, Domingos Gundana, a Renamo desvalorizou as alegações dos guerrilheiros, considerando-as de falsas.

“Isso é normal sempre que se aproximam eleições. Há membros que procuram desestabilizar o partido”, afirmou Gundana, para depois enfatizar que desestabilizar o partido em vésperas de eleições é um precedente muito prejudicial para a imagem do partido e do seu presidente.

“É em janeiro de 2024 que termina o actual mandato do Presidente Ossufo Momade. Expulsar Ossufo Momade do lugar que ocupa, não resolverá o problema. Os grevistas devem aproximar os órgãos do partido indicados, como a Comissão Política, Conselho Nacional e Conselho Jurisdicional, para expor as suas inquietações e sugestões para que de forma democrática possa-se ultrapassar os problemas”, sentenciou.

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