Houve tentativa de boicote da homenagem a Marcelino dos Santos por não ser do agrado do “Chefe”

DESTAQUE POLÍTICA
  • Disputa de protagonismo na Frelimo
  • Após tentativas de boicote, Nihia retrata-se e afirma que Frelimo “sou eu” e não pode estar contra o mesmo partido
  • É a segunda ausência de Nyusi numa cerimónia de um herói nacional
  • Armando Guebuza ovacionado e convidado a seguir exemplo de Lula da Silva

O que era para ser um evento de imortalização de Marcelino dos Santos acabou expondo as feridas que se negam a fechar no seio dos camaradas que se encontram divididos em grupos e em aparente perseguição. No último sábado, a Associação Marcelino dos Santos, presidida pelo general Eduardo Nihia, realizou a cerimónia de homenagem a “Kalungano” na Ilha de Moçambique, província de Nampula, que afinal não era do agrado do “Chefe”. De acordo com a denúncia de José Abudo, primeiro Provedor de Justiça e antigo ministro da Justiça, os empresários da província de Nampula e funcionários públicos foram “ordenados” a não apoiar o evento que teve como oradores Armando Guebuza e Graça Machel. Foi notória a ausência do Presidente da República.

 

Não se conhece o perfil do “Chefe” que deu ordens, mas desta vez foi a própria Frelimo a ser vítima de ordens superiores. São ordens que se fizeram sentir quando a associação Marcelino dos Santos estava no processo de angariação de fundos. Em resposta aos pedidos da associação, os empresários disseram que receberam ordens para não ajudar o evento.

É uma posição que sugere insegurança da ala no poder, que chega a se reduzir a um grupo intriguista, a ponto de combater qualquer um que ameaça ser “capim alto”. Nalgum momento, há oportunistas que se aproveitam desta postura de divisionismo e intrigas para impor a sua própria vontade, para depois afirmar que estão a agir em nome do próprio Presidente da República e da Frelimo. Ao Evidências, foram partilhados nomes de uma ministra e um ministro, que diziam agir em nome do Presidente da República, para instruir comerciantes locais a não comparticipar no evento.

Mas as marcas de divisionismo ficaram patentes bem antes do dia do evento. No dia do simpósio, onde foram feitas descrições da grandiosidade de Marcelino dos Santos, um dia antes da inauguração da praça que leva a sua estátua, na Ilha de Moçambique, sua terra natal, foi notória ausência da ala no poder. Na sala do simpósio, estavam camaradas, na sua maioria antigos combatentes, entre quadros relevantes do partido que se juntaram a homenagem.

É um divisionismo que, no fim, foi exposto com a denúncia de José Abudo. Em suas palavras, os contra homenagem “propalaram, maldosamente, a notícia de que o projeto (homenagem) em causa não era do agrado do Chefe’’. No entanto, não disseram quem é esse “Chefe” que deu ordem para que nenhum empresário ou funcionário da cidade de Nampula proporcionasse qualquer apoio para o seu desenvolvimento”.

Atrás dessa tentativa de sabotagem, estava o argumento de que “tudo acontecia sobre a bandeira de um partido criado por Nihia. Deveria (Nihia) se situar muito distante sob pena de ver seus negócios ou a sua posição totalmente embaraçados. Contudo, a mentira surtiu efeito, tirando uma empresa privada sediada na cidade de Nacala, uma empresa pública e uma instituição do ensino superior sediada na cidade de Nampula, nenhum outro empresário da cidade de Nampula apoiou esta empreitada, certamente por receio de ver os seus negócios totalmente embaraçados”, desabafou José Abudo, que se dirigia a uma moldura que esteve presente no acto da inauguração da estátua de Kalungano.

Frelimo “sou eu”, Nihia

A situação levou ao desabafo do general Nihia, um dos expoentes máximos do partido em Nampula e que hoje se vê vítima de assassinato de carácter por parte dos seus camaradas.

“Nós, mais uma vez, não temos nenhuma intenção contra Frelimo. Frelimo sou eu como já ouviram, acolheu-me Samora, acolheu-me Marcelino dos Santos, acolheram-me todos aqueles que estavam connosco”, disse o general Eduardo Silva Nihia, com aspecto de desagrado, enfatizando que “não é hoje que vou virar as costas para a Frelimo”.

Falando no simpósio, o antigo Presidente da República, Armando Guebuza, lembrou que Marcelino dos Santos saiu de casa e foi para Lourenço Marques (Maputo), de Lourenço Marques foi para Portugal e depois Paris (França) à procura de formas de como libertar o seu País.

“O facto de ter trabalhado no movimento de libertação antes da formação da Frelimo, pelo facto de ter tido a consciência de como vencer o colonialismo português ajudou a criar uma Frelimo sólida e com objetivo claro”, disse o antigo estadista.

Armando Guebuza ovacionado e convidado na seguir exemplo de Lula da Silva

Para Guebuza, a memória de Marcelino dos Santos é inesquecível. Tchembene, como também é conhecido o antigo estadista, foi ovacionado e alguns intervenientes que se seguiram depois da sua intervenção fugiam da pauta do evento e sugeriram que, se houvesse espaço, esteve devia seguir exemplo de Lula da Silva, presidente do Brasil.

Na cerimónia, o Presidente da República e da Frelimo, Filipe Nyusi, fez-se representar em Nampula pela ministra de Cultura e Turismo, Eldevina Materula. No seu discurso de ocasião, lembrou que foi “em 2015, pelas mãos de sua excelência Filipe Jacinto Nyusi, (Marcelino dos Santos) foi agraciado com o título de herói da República de Moçambique ainda em vida, acto este pouco comum, mas naturalmente e como podemos todos aqui concordar, naturalmente bem merecido’’.

Nyusi, que no dia de homenagem de um herói nacional se encontrava na festa da bancada da Frelimo, endereçou uma mensagem à família de Marcelino dos Santos, onde destacava que Marcelino dos Santos foi o personagem central no processo da formação de uma consciência nacionalista, não só moçambicana, mas de uma negritude que então se sentia oprimida pela colonização global.

“Desde os primórdios dos movimentos nacionalistas africanos e não só, o seu inconformismo esteve presente em quase todas as frentes de luta, com destaque para a frente diplomática, onde o seu nome granjeou respeito em várias capitais do mundo”, lembrou o Chefe do Estado.

Adiante, Nyusi lembra que não “será a morte que vai nos limitar de dar a devida homenagem ao fio condutor que conecta todas as fases da história recente de Moçambique, cujo esplendor da sua passagem por ela faz brilhar a necessidade do patriotismo, sacrifício, foco e determinação para atingir objectivos supremos para o bem do povo. Hoje te celebramos Kalungano, porque nos abriste espaço para esta celebração através do teu sacrifício altruísta e desinteressado”.

Lumbo exibe estátua de Kalungano

Marcelino dos Santos tem, desde último sábado (20), uma estátua e uma praça em seu nome na terra onde nasceu, no posto administrativo de Lumbo, no distrito da Ilha de Moçambique. A inauguração foi feita no dia que completaria 94 anos se estivesse vivo. A estátua de 2 metros de altura, feita de bronze, pesa meia tonelada.

Um dia antes da inauguração da estátua, erguida a 16 de Abril do ano em curso, foi realizado um simpósio sobre a vida e obra de Marcelino dos Santos, evento que decorreu igualmente na Ilha de Moçambique e teve como um dos oradores o antigo Presidente da República, Armando Guebuza e Graça Machel, que interveio remotamente.

É a primeira vez que se realiza um movimento deste género, desde que Dos Santos morreu a 11 de Fevereiro de 2020. Marcelino dos Santos fez parte do grupo de pan-africanistas que, a partir de Portugal, se juntaram para desenhar as ideias das lutas pela descolonização dos países africanos colonizados por Portugal.

Foi por conta desse seu empenho que teve que fugir de Portugal para França e de lá para África onde, em Argel, praticamente encontra o campo fértil para o treinamento de homens que viriam a pegar nas armas durante 10 anos da luta armada de libertação nacional.

Socialista de corpo e alma, morreu defendendo ideais de uma sociedade de oportunidades para todos, com um discurso muito avesso à guerra, por isso nunca reconheceu que a Renamo lutava pela democracia, mas sim considerou até à morte que a Renamo era uma criação do colonialismo para destruiu às “conquistas da revolução”.

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