Felisberto S. Botão
O nosso sistema de conhecimento, a nossa vida e a nossa troca com o universo, fluem num primeiro nível, através de defuntos, espíritos de origem, curandeiros e feiticeiros. É aí onde reside a grandeza do africano, a sua espiritualidade, que se manifesta através de diversas práticas tradicionais.
Os colonos, europeu e árabes, fazem tudo ao seu alcance para impedir esse fluxo através da manipulação da verdade e dos factos por vários meios, incluindo a vigilância permanente dos nossos pensadores e infiltração nos nossos movimentos sociais. Este comportamento dos colonos, embora subtil, desenvolve no africano um paradigma de auto-negação, que, no entanto, não elimina esta realidade, fazendo do africano um grupo a viver um permanente desencontro consigo mesmo.
Tornamo-nos um povo assustado, e atormentado. Desenvolvemos medo excessivo do desconhecido, talvez por causa da espiritualidade encoberta.
O branco percebendo isso, introduziu a versão do cristianismo cheio de elementos do medo, um deus branco, que ameaça, atormenta e vigia a sua vida a cada passo; que luta contra um demónio negro, e um céu que só tem direito aquele que se distanciar do demónio negro.
O árabe introduziu uma ideologia forte, através da religião islâmica, cheio de elementos de exclusão, onde o africano é um elemento inferior, tanto no continente assim como nas sociedades árabes, mas mesmo assim, pode dar a vida para defender o sistema, mesmo se colocando na periferia da prosperidade e dos privilégios.
Ambos os colonos usam a religião para manter-nos na subjugação subtil, e manter-se dentro da nossa sociedade com o pretexto de fazer o bem.
A nossa vida se tornou uma gincana, fugindo de excessos para não correr o risco de pecar, evitando questionar o status quo para não sofrer consequências, e por via disso perder o céu, um lugar tão santo, onde estaremos vestidos de branco. Não ir ao céu significa a morte eterna, e estar junto do demónio negro.
Como que para validar essa teoria, há muitos espiões entre nós, e assassinos profissionais tão bem treinados, que até furam a guarda presidencial, levando em conta as mortes por assassinato de presidentes africanos que temos assistido. Com este instrumento o branco faz o papel de Deus, decide quem vive e quem morre, recorrendo a assassinatos, sabotagens, intimidação e desestabilização, sempre que um africano não encaixa no padrão de comportamento por eles estabelecido.
Isso é possível porque construímos uma sociedade excessivamente permeável, o que permite estes espiões e assassinos conviverem entre nós mais do que deviam. Nós continuamos a cultivar a hospitalidade e lealdade ao estrangeiro, para não sermos vistos como racistas, o que está a matar os nossos líderes e o nosso povo. Não estamos a aprender nada com a história, tanto a passada, assim como a recente.
Esta luta para agradar o branco, e não parecermos racistas, faz-nos aceitar sugestões estranhas como, “não invista na defesa”, “não use o carvão mineral”, “não use combustíveis fósseis”, “não industrialize”, “não fale a sua língua materna”, “não subsidie a agricultura”, “não faça paz com o seu vizinho”, “não …”. Tudo ao contrário do que eles fazem, e nós vemos. Mas mesmo assim, aceitamos e obedecemos.
Este padrão de coisas, onde o africano investe em ser bom e correcto, e mesmo assim só recebe repreensão, religiosa e civil, fá-lo desenvolver medos generalizados.
Um bom projecto social de um líder africano, pode ser um comportamento fora do padrão para o conspirador europeu, que pode ser punido com a morte, assim como rejeitar uma dívida externa, desenvolver um negócio estruturante para o país, estruturar uma instituição de sociedade civil neutra, desenvolver a industrialização, e incentivar a banca de capitais nacionais.
Portanto, não é sem razão que o africano tem aversão ao risco, e tem um medo excessivo de morrer.
Mas o que podemos fazer? O medo do homem africano não é sem razão, ele é real, porque ambos colonos não vão largar a nossa terra de forma fácil, pelo contrário, estão cada vez mais a aprofundar os mecanismos de subjugação, encobertos em cooperação, investimentos, doações, oportunidades de bolsas de estudo e empregos no exterior, e em alguns casos com tendências explícitas, quase que a comparar-se com a época da colonização aberta e oficial.
África do Sul tomou uma atitude corajosa em lutar para impedir o papel de observador na União Africana ao Israel, mas o resto da África não teve coragem para retirar das nossas reuniões da União Africana, a frança, a inglaterra, os estados unidos, e eventualmente a união europeia. Estes são os agentes que não querem a efectivação da principal agenda da UA – a união dos povos de África.
Pergunte sempre “como posso ajudar a mudar os paradigmas do meu povo?” Faça algo de impacto, algo que possa mudar a vida de muitos de seus irmãos aonde estiver, ou numa escala maior, com base naquilo que você é, e naquilo que você sabe. Busque sempre o conhecimento e a verdade da sua história.
Corra riscos para um bem maior, pois que sem correr riscos não poderemos introduzir mudanças no nosso padrão de vida, e se não o fizermos, morremos na mesma nas mãos do sistema colonizador, só que de uma morte triste, humilhante e cobarde como tem estado a acontecer.
Identifique uma área de actuação (educação, religião, música, negócio, palestrante, jornalista, digital influencer, etc.), com inteligência e coragem, use os princípios do pan-africanismo e parte para acção, que você se sentirá muito bem, completo e útil ao seu povo.
Não espere o homem branco dizer-lhe que isso é necessário, ou trazer-lhe um fundo de desenvolvimento, para você começar a agir. Comece a acreditar em si, você é capaz de pensar e agir fora do padrão “branco”.
Lembre-se sempre que a fonte da riqueza real são os recursos naturais, que por sinal abundam em África, e nada mais.
O homem branco tem tentado criar riqueza fora dos recursos naturais, com base no actual sistema monetário internacional, com o seu comando central no “FED – reserve bank” dos estados unidos. O resultado é o que começamos a assistir, e vai agravar-se nos próximos anos, uma crise generalizada das economias ditas ricas, que não passavam de castelos de cartas, que começarão a ruir uma atrás da outra. Vamos assistir um aumento na corrida pelos recursos naturais, e por consequência, a corrida por África vai aumentar, pois é onde está a riqueza real.
É tempo de você começar a perceber que o recurso natural da sua terra é seu, e questionar porque é tão valioso, e como você pode transforma-lo em riqueza para si, sua família, e seus descendentes.
Não é fora de comum ver pessoas de outras raças saltarem para acusarem o africano de racista, sempre que este tenta discutir a verdade da dinâmica de raças, e as injustiças que colocam o africano em desvantagem. Naturalmente, que o africano teria o mesmo posicionamento se o status quo o beneficiasse.
Para manifestar a riqueza e ser agente de mudanças, coloque em acção a sabedoria adquirida, e mantenha um coração agradecido e sincero, capaz de discernir o certo do errado, e ofereça sacrifícios a seres espirituais em lugares sagrados, que pode ser um cantinho da sua casa, como manda a tradição africana, e a bíblia procura recrear na personagem do Rei Salomão.
O seu comentário e contribuição serão bem-vindos. Obrigado pelo seu suporte ao movimento SER ESPIRITUAL https://web.facebook.com/serespiritual.mz/

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