- Membros das FDS teriam tentado se apoderar de dinheiro
Membros de uma milícia local que actua em protecção das comunidades nalguns distritos da província de Cabo Delgado, vulgarmente conhecida por Namparamas, neutralizaram, recentemente, dois agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) que supostamente queriam assassinar um garimpeiro em Muaja, distrito de Ancuabe, para se apoderarem de dinheiro e minérios. Depois de frustrar os alegados planos dos agentes da lei e ordem, quatro Namparamas foram detidos e estão encarcerados no Posto administrativo de Namanhumbire, no distrito de Montepuez, onde foram localizados dias depois da ocorrência.
Adolfo Manuel – Pemba
Duas milícias locais, uma composta por antigos combatentes (força local) e outra por jovens aldeões que aliam dotes de manipulação de armas brancas e práticas magico-supersticiosas para uma suposta inviolabilidade do corpo (Namparamas), têm luz verde para auxiliar as Forças de Defesa e Segurança na luta contra os grupos armados que desde Outubro de 2017 semeiam luto e terror na província de Cabo Delgado.
No entanto, nem sempre a convivência entre estes grupos, sobretudo Namparamas, e as Forças de Defesa e Segurança tem sido pacífica. Actuando onde muitas vezes o Estado chega a conta-gotas, os Namparamas chamaram para si o direito de patrulhar e garantir a manutenção da ordem e tranquilidade nas comunidades.
Foi no âmbito da nobre missão que um grupo de Namparamas neutralizou dois agentes da Polícia da República de Moçambique que pretendiam supostamente assassinar um garimpeiro em Muaja, no distrito de Ancuabe. A suposta vítima é um destacado líder dos garimpeiros tido como um verdadeiro “manda-chuva”.
“Os polícias não estavam fardados, mas tinham duas pistolas e não nos esconderam que estavam de folga e que estavam à procura do ‘patrão’ Mogo, porque ouviram que ele tinha dinheiro e era para arrancar, e se resistisse era para matar”, explicou Longuinho Armindo, um dos Nampararamas que escapou da detenção.
De acordo com Armindo, os dois agentes da lei e ordem, um dos quais encontrava-se a ‘operar’ fora do seu distrito (saiu de Montepuez para Ancuabe), tentaram convencer os Namparamas para que fossem autorizados a cometer o crime de matar o garimpeiro para depois dividirem o dinheiro, mas a milícia que recorre a magico-obscurantistas para combater os insurgentes não aceitou os termos e condições apresentados, tendo os neutralizado, espancado e arrancado a motorizada em que se faziam transportar.
Volvidos alguns dias depois de ter boicotado a missão secreta dos agentes da Polícia da República de Moçambique, os Namparamas escalaram o distrito de Namuno com o objectivo de buscar medicamentos num curandeiro para curar algumas enfermidades nas comunidades e depararam com um dos agentes, que logo ordenou a sua detenção.
“Não soubemos exactamente o que está a acontecer para os nossos colegas estarem na cadeia, porque nós travamos um crime que estava para acontecer na nossa aldeia. Nós nos voluntariamos para defender a nossa população sem nenhuma remuneração, e hoje os nossos colegas estão nos calabouços, porquê?”, questionou.
A demais, os dois agentes da PRM estão afectos em distritos diferentes, nomeadamente Ancuabe e Montepuez, e estranhamente chegaram naquela comunidade limítrofe com os dois distritos para protagonizar assaltos na mina de ouro recentemente descoberta.
Aquela Força Local mostrou-se, por outro, preocupada pelo facto de ter sido vedada as visitas aos membros que estão a ver o sol aos quadradinhos.
Refira-se que a criação dos Namparamas trouxe benefícios para os populares na luta contra os insurgentes, mas há relatos de aumento dos índices de corrupção, na medida em que alguns se fazem passar por agentes reguladores de transito, fiscalizando meios circulantes exigindo valores monetários, alegadamente por não serem remunerados pelo trabalho de protecção que exercem nas suas comunidades.

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