- Zambézia votou sob ameaça de dissolução do Secretariado do Comité Provincial
- CP viu sua autoridade beliscada e ameaçou o Secretariado Provincial
- O secretariado foi dissolvido e agendou-se próxima semana para nova eleição
- Hélder Injojo foi director da campanha que deu vitória a Pio Matos, mas…
- Em Gaza, o processo não foi repetido, mas cabeça-de-lista teve 38 votos nulos
A Comissão Política decidiu, semana passada, anular as eleições internas da Frelimo na Zambézia, e desta vez com ameaça de que caso não passasse Pio Matos, o candidato único que não conseguiu mais de 25% votos para ser cabeça-de-lista na eleição anterior, o Secretariado Provincial, encabeçado por Paulino Lenço, seria dissolvido. Mas para surpresa de todos, a ameaça efectivou-se e um novo secretariado será indicado na próxima semana (18). Todo o processo da eleição dos membros da Frelimo para Assembleia da República, Assembleia Provincial, foi repetido com objectivo único de resgatar Pio Matos, que ocupa actualmente o cargo de governador da província, num exercício ornado de escândalos que indiciam uma gestão danosa e nepotismo. Para a eleição que decorreu no sábado passado, o Secretariado Provincial foi substituído por uma comissão que integra, para além de Aires Ali, chefe da Brigada Central, Éneas Comiche, Alcinda de Abreu e Francisco Mucanheia. O mandato desta comissão terminará com eleição do novo secretariado, após a destituição do secretariado de Paulino Lenço, punido por não ter contido a desobediência dos camaradas na primeira eleição não votaram em Pio Matos.
Na primeira semana do mês em curso houve sessões um pouco por todo país para a eleição dos cabeças-de-lista, candidatos a membros da Assembleia Provincial e a deputados da Assembleia da República. Na Zambézia, em clara desobediência da decisão da Comissão Política que decidiu impor Pio Matos como candidato único, os camaradas decidiram sabotar o processo não o elegendo, por ter somente amealhado 23.6% dos votos.
Inconformada, a Comissão Política decidiu fazer ouvidos moucos aos relatos de irregularidades na Cidade de Maputo, Gaza e outros cantos do país e mandou somente repetir o pleito na Zambézia, onde o seu maior interesse era, certamente, salvar a sua honra e mostrar quem é que manda.
Naquilo que foi a manifestação mais evidente da ditadura da liderança do Partido, a Comissão Política, presidida pelo Presidente da Frelimo, orientou que as eleições internas do partido fossem repetidas. A repetição foi no último sábado, e diferentemente dos resultados da eleição anterior, onde o único candidato à cabeça-da-lista da Frelimo naquela província não conseguiu mais de 25% dos votos, nesta eleição de votação “coerciva”, Pio Matos foi eleito com 118 votos a favor e dois nulos, de um total de 120 membros votantes.
A sessão para a eleição dos membros da assembleia provincial e deputados da assembleia da república, que decorreu no sábado passado (01.06) em Quelimane, foi anulada pela comissão política com argumento de que houve irregularidades e desobediência a ordens superiores que indicavam Pio Matos como candidato único.
Dentro do partido há uma percepção de que as eleições visavam resgatar não apenas o homem que constitua a escolha a dedo da CP, que teria imposto que os governadores das províncias fossem os únicos candidatos a cabeça-de-lista, decisão que ao que tudo indica não foi comprida na Zambézia, onde as ordens de cima viram-se desafiadas, mas a própria autoridade da CP, que viu sua escolha não ter acolhimento no seio dos membros.
Num acto de vingança e chantagem, a CP constituiu uma Comissão Interina, constituída pelo Chefe da Brigada Central e Éneas Comiche, Alcinda de Abreu e Francisco Mucanheia. Hélder Injojo foi indicado director da campanha que elegeu Pio Matos.
Zambézia não foi a excepção naquilo que foi visto como um acto de desobediência às ordens de cima. A candidata única a cabeça-de-lista em Gaza, Margarida Mapanzene Chongo, por sinal actual governadora, teve 38 votos em brancos e dois nulos, numa clara ilustração do descontentamento pela repressão da democracia interna, imposta ao mais alto nível da administração do partido.
Das chantagens à destituição de Lenço
Os membros do secretariado foram às eleições para votar contra a própria vontade, e com ameaça expressa de que seriam destituídos caso continuassem com “obstrução, desobediência e afronta as ordens centrais do partido”. Não era uma ameaça vazia, o facto é que independente dos resultados, o secretariado comandado por Paulino Lenço viria ser destituído, estando agendado para dia 18 do mês a eleição de um novo.
A destituição de destituir o Secretariado foi tomada depois de ter circulado pelas redes sociais uma carta da Organização da Mulher Moçambicana na Zambézia, dirigida ao Presidente do partido, Filipe Nyusi, e ao secretário geral interino, Daniel Chapo, exigindo anulação do processo de eleições naquele ponto do país por causa de irregularidades de vária ordem e indícios de fraude que já vinham a ser denunciados por outras vozes, a Comissão Política do partido dos camaradas decidiu mandar repetir as eleições.
Segundo a denúncia da OMM, que fez transbordar o copo, um grupo liderado pelo primeiro secretário provincial, Paulino Lenço, pelo deputado da AR e influente membro Sábado Alamo e pelo secretário de mobilização, Manuel Franco, esteve por detrás de toda a operação que culminou com a eleição de amigos, familiares e até “namoradas” dos chefes.
“Nós as Mulheres da Zambézia solicitamos a reposição dos nossos acentos por direito, que foram entregues aos jovens empresários por terem pagos valores avultados e as namoradas dos chefes do partido. Solicitamos a anulação dos resultados e exigimos a realização de segunda via de votação. A Zambézia é firmemente assegurada pelas mulheres, por isso cabe-nos questionar quando chega a hora dos benefícios a mulher não tem direito de usufruir sendo que foi devidamente regulamentado? A pergunta que se faz é, podemos sentar nas nossas casas? Afinal já não existe humanismo dentro do partido?”, questionaram as mulheres.
Sábado Alamo, Basílio Monteiro e as “meninas dos chefes” em lugares pouco confortáveis
Em termos de resultados para membros da Assembleia da República, consta que continuam em destaque as mulheres, Ilca Vanessa Gaspar Braga Soares, a secretária provincial para a Área de Administração e Finanças, proposta pela OJM na Zambézia, que esteve no centro da polémica. Foi eleita com 56 votos.
Por outro, está Aissa Assubgy, também no centro da polémica, concorreu na lista de outros quadros onde concorriam vários empresários da Zambézia, mas não conseguiu se eleger.
Por outro lado, o deputado Sábado Alamo, tido como braço direito de Paulino Lenço, não conseguiu repetir a proeza da primeira eleição em que estava numa posição confortável. Na repetição conseguiu apenas 53 votos, dos 120 possíveis, estando na lista como número 33. A Zambézia elege 42 deputados e, regra geral, divide os mandatos quase a meio com a oposição, tal como se viu no mandato passado, em que teve 24 deputados, o que significa que as chances de passar são remotas.
Quem também está em posição desconfortável é Basílio Monteiro, que de número um da província na legislatura passada passou para a posição 29, com fortes chances de se tornar somente suplente.
Quem simplesmente não conseguiu é Caifadine Manasse, que desta vez estando na sala de sessão conseguiu melhorar o seu registo anterior de 11 votos, tendo conseguido desta vez 37 votos, mas não o suficiente para renovar o mandato.
“Havia reclamações graves” – Verónica Macamo
Além da Zambézia, as polémicas em volta deste processo foram ainda verificadas um pouco por todo o país, onde o processo teve que ser repetido, como se viu em Nampula e Maputo, onde houve recontagem.
Verónica Macamo, membro da Comissão Política, que foi interpelada pela imprensa sobre esse processo, explicou que a repetição do processo deve-se à verificação das diversas irregularidades graves.
“Bom, eu não sou representante do partido Frelimo, não sou porta-voz do partido Frelimo, mas, em relação à eleição, quando há descontinuidade e há, efectivamente, reclamações, e as reclamações são avaliadas, são analisadas e toma-se uma posição, manter-se o que foi feito ou, efectivamente, decidir-se pela repetição, e foi o que aconteceu”, referiu.
Macamo acrescentou que “vale dizer que, em todas as províncias, na minha província por exemplo, na Província de Maputo, tivemos de fazer a recontagem. O que nós queremos é que todos os membros saiam com a convicção de que aqueles votos que foram dados pelos membros são aqueles mesmos. Achou-se, efectivamente, face às reclamações, que não foi uma só – e havia reclamações graves – que era necessário repetir e repetiu-se, e nós temos os resultados da repetição. Portanto valeu a pena repoetir”.
Verónica Macamo falava na sua qualidade de mandatária da Frelimo, pouco depois de submeter a inscrição do seu partido às eleições dos deputados.

Facebook Comments