Standard Bank responde em tribunal por maus tratos, despedimentos ilegais e exploração de mão-de-obra

DESTAQUE SOCIEDADE
  • Funcionária chegou a ser retida e torturada por três horas
  • Gestores acusados de favorecerem empresas de amigos na contratação de serviços
  • Alguns alegam terem sido coagidos a assinar acordos desfavoráveis antes de deixar o banco

Conhecido como o banco mais antigo do país, o Standard Bank Moçambique está neste momento a responder a vários processos movidos por colaboradores e ex-trabalhadores devido a uma suposta intimidação, exploração de mão-de-obra, agressões verbais, alegado abuso de poder e maus tratos protagonizados pelo actual Conselho de Administração, que vão desde intimidações a agressões verbais, exploração de mão-de-obra, chegando a resvalar em privação de tempo para os colaboradores passarem refeições, levando-os a desenvolver doenças como anemia, stress, ansiedade, entre outras. Nos vários processos, os ex-colaboradores exigem indemnizações justas e reparação de danos causados pelas situações acima descritas.

Reginaldo Tchambule

Numa exposição dirigida ao Banco de Moçambique, na qualidade de regulador, e a Inspecção Geral do Trabalho, os colaboradores dizem trabalhar sob um ambiente bastante hostil, o que resulta em stress e outras doenças ocupacionais, culminando muitas vezes com quebra da motivação e constantes baixas médicas devido a doenças ocupacionais.

“A gestão actual, o poder e as decisões são centralizadas em três pessoas, não mais do que isso, onde claramente demonstra-se um “neocolonialismo”, criando no seio dos colaboradores um clima de medo, falta de respeito, de agressões verbais, intimidação e de abuso de poder”, lê-se numa carta escrita pelos colaboradores, denunciando que o sindicato que devia defender os colaboradores está totalmente “engolido” pelo Conselho de Administração.

Segundo apurou o Evidências, neste momento correm mais de uma dezena de processos movidos individualmente por cerca de 30 antigos colaboradores desvinculados em circunstâncias ilegais, alguns dos quais alegam ter sido coagidos a assinar acordos sob ameaça, cujo teor desconheciam, antes de deixar o banco. Trata-se de situações partilhadas com o Ministério do Trabalho, através da Inspecção-Geral do Trabalho.

Um dos rostos do descontentamento em relação à liderança actual do banco é a antiga assistente de gestores (agora desvinculada), Luisa Dumangane, que relata ter desenvolvido anemia, por trabalhar horas a fio sem direito a tempo para refeições, e, como se tal não bastasse, saia tarde todos os dias por obrigação de sua antiga chefe no segmento de banca corporativa, de nome Xissamba Massamba, por sinal, filha do falecido general Bonifácio Gruveta Massamba.

E porque teve quatro recaídas, numa das quais quase sofreu um infarto, quando tentou solicitar a redução da sua carga de trabalho, o Standard Bank simplesmente a transferiu para um outro balcão como caixa. A partir daí diz ter passado a ser vítima de perseguição.

A colaboradora Luísa relata ter sido humilhada e moralmente abusada de forma constante por parte dos seus superiores hierárquicos no banco, uma situação que conheceu seu auge no dia em que submeteu uma carta de rescisão do contrato, para salvaguardar a sua vida, após ter quase sofrido um ataque cardíaco.

Segundo relata, foi mantida em cárcere por três horas, enquanto era humilhada e chamada de “ladra” ou “zé ninguém” a frente dos colegas do trabalho e clientes que estavam no balcão. O acto, segundo relata, teria sido protagonizado por Nálcira Cassimo (Head do Private e Executive), Rita Nhantumbo (Head do Executive) e Esbela Talate (Coordenadora de Segurança da G4S afecta ao “Standard Bank”), sendo que a agressão só terminou quando o advogado da vítima ameaçou chamar a imprensa.

O referido trio responde agora a um processo separado, agora em fase avançada de instrução preparatória, movido por Lídia Dumangane, que na semana passada foi ouvida pela 4.ª Secção da Procuradoria do Distrito Municipal Kampfumo.

A referida funcionária diz que por causa do stress causado pela situação humilhante a que foi submetida caiu imediatamente doente e deu entrada na Clínica, contudo, descobriu que o banco, numa atitude maquiavélica, mandou cancelar imediatamente o seu seguro de saúde, como forma de privá-la de assistência adequada, numa altura em que a rescisão não tinha ainda produzido efeitos e ignorando que ela caiu de cama em decorrência do stress causado pelo incidente acima relatado.

Ademais, a vítima, que é um dos rostos mais visíveis de um grupo de cerca de 30 ex-colaboradores que hoje tentam reaver os seus direitos na justiça, conta que quando submeteu a carta de pedido de rescisão foi dita que devia aguardar os 7 dias de notificação da carta. Contudo, estranhamente, a sua antiga chefe, num aparente acto de vingança, arrancou-lhe o computador, despejou os seus pertences numa sacola plástica e exigiu que lhe entregasse de forma imediata o celular que lhe foi alocada pela empresa para o trabalho.

A funcionária diz que foi mantida sob cárcere, alegadamente, porque devia entregar um celular que alega que naquele instante estava em sua casa. Aliás, refere que chegou a solicitar que fosse acompanhada por uma equipa de seguranças para que pudessem levar o equipamento em sua casa. No entanto, em vez disso, foi submetida a uma tortura psicológica e humilhada em frente de todos.

Benefícios adquiridos a mais de 20 anos cortados

A nova direcção do Standard Bank é ainda acusada de ter cortado benefícios adquiridos dos colaboradores que haviam sido adquiridos há mais de 20 anos, incluindo facilidade de acesso ao financiamento.

Segundo relatos dos funcionários, a nova direcção justifica o corte de benefícios com a necessidade de introduzir reformas com vista a reduzir a despesa. No entanto, tal justificação não convence, pois o que eles tiram aos trabalhadores com uma mão, aparentemente recebem eles próprios com a outra.

“Quando chegaram ao SB, a primeira medida que tomaram foi cortar alguns benefícios dos colaboradores, que já tinham a mais de 20 anos, onde isto afectou directamente a todos colaboradores, deixando os mesmos em stress financeiro, criaram medidas e mecanismos para dificultar ainda mais o pedido de financiamento dos colaboradores”, denunciam.

Prosseguindo, revelam que “o curioso é que alegam redução de custos, mas na prática não é verdade, porque temos visto adjudicação de várias obras milionárias a empresas dos amigos, começando da reabilitação da casa do administrador delegado, que os valores lá adjudicados são assustadores, reabilitação da Sede do SB que é uma autêntica vergonha (…) Empobrecem os colaboradores e enriquecem seus bolsos. Ademais, estes gestores de dois a dois meses têm efectuado viagens pelo mundo afora, a gastar rios de dinheiro. Que custo é esse que, no final, os colaboradores devem pagar?”, protestam.

Fraudes e quedas do sistema

Na exposição ao Banco de Moçambique e outras entidades, os colaboradores relatam um alegado aumento do índice de fraudes no Standard Bank, resultantes do ambiente instalado neste momento no banco.

Consta ainda que as constantes e regulares falhas do sistema do Standard Bank têm a ver com a inexperiência e mal qualificação de alguns técnicos admitidos na empresa por via de nepotismo (amigos e familiares) de gestores.

“O SB é campeão com o maior índice de nepotismo, nunca vimos nos últimos 15 anos uma gestão igual, com 90% dos colaboradores desmotivados, e os restantes 10% são espiões e lambe-botas. ⁠O SB é campeão em falhas de sistemas, por terem alocado familiares, sobrinhos, amigos, mal qualificados, razão do índice elevado de reclamações de clientes que são mal geridos e levam um século para responder”, referem os colaboradores, que aguardam alguma resposta ou inspeção por parte o Banco de Moçambique.

O Evidências tentou ouvir o Banco de Moçambique e o sindicato dos trabalhadores do Standard Bank, mas não obteve respostas. Ambos órgãos optaram por ignorar as nossas solicitações de informação.

Standard Bank responde de forma robótica e furta-se de prestar qualquer esclarecimento

Evidências procurou ouvir a versão do Standard Bank sobre as acusações que pesam sobre si. Através da sua assessoria de imprensa, fomos instruídos a submeter um questionário com as perguntas que gostávamos de ver esclarecidas.

Como tal, enviamos um questionário com 16 perguntas baseadas na denúncia dos colaboradores, depoimentos colhidos e documentos internos consultados, no entanto, para a nossa surpresa, o banco se furtou de prestar qualquer esclarecimento, pois nenhuma das questões foi respondida. O banco optou por uma resposta genérica e bastante robótica.

Ignorando completamente as perguntas feitas pelo jornal, o Standard Bank diz ter tomado conhecimento através de uma carta anónima nas redes sociais e declarações feitas publicamente por alguns ex-colaboradores do Standard Bank, do que considera serem um conjunto de alegações falsas, com o objectivo único de difamar o bom nome da instituição, dos seus gestores e demais colaboradores, pelo que o Standard Bank gostaria de esclarecer o seguinte:

“Os colaboradores do Standard Bank têm várias formas de partilhar as suas opiniões e preocupações de forma transparente e segura, nomeadamente: (i) Directamente com a equipa de gestão do Banco; (ii) com o Conselho de Administração; (iii) com Comité Sindical do Banco; (iv) através das equipas de gestão de Relações Laborais no País ou no Grupo Standard Bank; (v) para além de uma linha anónima (telefone e e-mail) de denúncia, gerida por uma entidade independente ao Banco, de forma a proteger os colaboradores. Os colaboradores têm também entidades externas como os tribunais e centros de arbitragem laboral para garantir que os seus direitos sejam protegidos. Quaisquer preocupações partilhadas por estas vias são investigadas e analisadas por entidades independents”, refere o banco.

Acrescenta ainda que o sistema de governação do Standard Bank obedece aos princípios de governação do Grupo e às melhores práticas internacionais, nomeadamente a Estrutura de Governação do Grupo Standard Bank e os princípios de King IV, de forma a garantir a independência do Conselho de Administração e o cumprimento com as leis e regulamentos aplicáveis.

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