Dos excessos de Xerife ao despesismo político: Sabotagem ou governo de continuidade?

EDITORIAL

Há falta de clareza nas políticas do Governo para atenuar o custo de vida, além de falta, quase intacta, de coerência da sua política de austeridade. Há um mês, apesar de ter-se ignorado as gorduras na estrutura de combustíveis, o Governo anunciou uma redução nos preços, excepto do gás de cozinha, com o argumento de que a medida seria para atenuar o custo de vida, afinal, os combustíveis (principalmente o diesel) são importantes dinamizadores da economia e, esperava-se um efeito de amenização dos outros produtos que usam o combustível como insumo de produção ou mesmo para efeitos da logística.

Para a surpresa de todos, essa, como as demais medidas, inserem-se num esforço sem complementaridade dos demais órgãos do Estado, indispensáveis para a execução das Políticas do Executivo, actuando como se o poder político, que se diz revigorado e rejuvenescido estivesse acorrentado no mesmo círculo do consulado anterior.

É disso exemplo o Banco de Moçambique, que decidiu apostar em manter escassa as divisas no mercado para garantir que o País tenha pelo menos reservas para três meses, enquanto sucumbe para ter o pão de cada dia, uma medida que vai concorrer para a escassez de importações.

O primeiro passo para asfixiar a economia foi dado aquando do aumento de reservas obrigatórias, de forma bruta e insensível, de 10,5% para 28% em moeda nacional e de 11,5% para 28,5% em moeda estrangeira. Foi um golpe que nos levou para a escassez de divisas. Os bancos comerciais correram para as suas reservas, mas passaram o fardo para os clientes e passaram a ter dificuldades para dar garantias bancárias, levando-nos à dificuldade de acesso ao crédito e comprometeu a regularidade do abastecimento de combustíveis em quase todo País, mas com elevado destaque para Pemba (Cabo Delgado) e Beira (Sofala), onde já se registaram falhas pontuais no fornecimento, levando à especulação de preços.

É mesmo um paradoxo, quando o Governo toma medidas favoráveis à Economia, e aparece o Banco de Moçambique com medidas não conducentes a amenizar a economia, tornando escasso um produto que, para o Executivo, devia ser acessível. Ignorando o facto de que quando esse mesmo produto escasseia faz com que prevaleçam os preços do mercado e não aquelas indicados pelas entidades reguladoras, afinal, assim determinam as regras de oferta e demanda: quanto maior a escassez, maior é a demanda. E os custos obedecem a essa máxima e não à boa vontade do Executivo.

Mas não é só no Banco de Moçambique onde encontramos exemplos de instituições muito à margem do discurso do Executivo, que retrata um ambiente de uma assumida crise e uma pronta resposta disponibilidade em adoptar políticas que amenizam a Economia e aposta na austeridade, tanto que já foi manifesta a ideia de reduzir algumas gorduras dos chefes na próxima revisão da Tabela Salarial Única (TSU), à porta de voltar ao parlamento.

São exemplos disso as recentes denúncias que o jornal tem feito de gestores que agem à margem de um País em crise, auferindo salários assustadores, adquirindo casas com fundos do Estado, para além daquelas situações de titulares e membros de órgãos públicos que não abdicam das suas velhas conquistas, mesmo que para tal seja necessário ferir a lei.

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