Ruídos no DDR e os perigos para um líder fragilizado

EDITORIAL OPINIÃO

O Presidente da República, Filipe Nyusi, que é também presidente da Frelimo, tem na manga muitos assuntos não resolvidos. E pela frente, apesar de a Covid-19 dar razões plausíveis para o seu adiamento, tem o Comité Central, que, mesmo estando minado com discursos de que as decisões deste órgão não reflectem a totalidade dos membros da Frelimo, é o principal e mais importante no período entre congressos. E a verdade é que Nyusi chega a essa magna reunião fragilizado e precisa de uma prova de liderança e a Junta Militar é a pedra no sapato, que rói o propalado Acordo de Paz e Reconciliação na Praça da Paz, assinado em 2019.

Depois do golpe que deu à Renamo, somado ao sucesso no diálogo com Ossufo Momade, assumiu o desafio de reintegrar no pacote do DDR, o seu grupo de dissidentes, a Junta Militar, somando mais pontos, quando a Renamo, incapaz e indiferente, mostrou-se muda na gestão dos seus problemas internos, confiando ao Governo a tarefa de gerir este grupo que continua a minar o processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) dos homens armados da Renamo.

Mas é a precipitação em mostrar o sucesso do DDR que trama Nyusi. E voltamos à velha discussão de mediatizar assuntos que não estão consolidados com o intuito de exibir resultados inexistentes.

A PRM começou por apresentar Paulo Nguirangue como chefe do Estado-Maior da Junta Militar, que, aliciado pelo DDR, abandonou Nyongo. Mas outra verdade indica que Nguirangue rendeu-se ao DDR, depois de despromovido para sargento, dissipando-se os equívocos de que a rendição deste seja um sinal de fragilidade de Nyongo.

E na semana passada, o Presidente da República apresentou André Matsangaisse como um outro braço direito de Nyongo a abandonar seu líder e juntar-se ao processo de DDR. Mas André, talvez por não compactuar com ruídos presidenciais, convocou conferência de imprensa para dissipar mais equívocos.

Deixou claro que estava à espera do DDR, mas foi perceber que não bastava ele ser desmobilizado enquanto têm outros homens nas matas. O jovem destaca ainda que não pretende voltar às matas, uma maturidade que devia ser imitada pelos seus comparsas em parte incerta, mas também cristaliza, que não vai se juntar ao DDR, preferindo colocar-se como negociador da Junta Militar, ao pedir aprovação da amnistia para os que estão nas matas, depois de apresentado como dissidente daquele grupo.

“Já não existe a Junta para andarem a fazer guerra e se defenderem. A Junta Militar quer agora um diálogo de modo a que todos saiam e se enquadrem no DDR”, afirmou André Matsangaisse durante a sua conferência na Terça-feira em Maputo. O jovem de sonhos nobres, mas também uma figura um tanto quanto controversa, afirma que “a minha decisão é voltar para acabar com os problemas e os conflitos na zona Centro, para que haja uma paz definitiva para trabalharmos”.

E para confusão de todos, Mariano Nyongo aparece, em reacção a estas declarações, a chamar o seu “antigo” aliado de traidor. Ele diz não aceitar amnistia proposta por Matsangaisse, enquanto não tiver a resposta da carta que enviou ao Governo, em Outubro do ano passado.

Sobre a referida carta, o PR sempre fez ouvidos de mercador e até hoje somente alguns poucos lobbistas ligados à propaganda do Governo e do partido no poder, quais insurgentes digitais, é que tiveram acesso à referida carta e publicaram alguns excertos nas redes sociais, mas nada oficial.

A par dessa incoerência discursiva, há que anotar os dados da PRM em Sofala, que só na semana passada, diz que 17 membros da Junta Militar se juntaram, esta Sexta-feira, ao DDR naquela província.

Enquanto os números indiciam abandono de Nyongo, outras narrativas indicam que este está a recrutar, o que nos coloca de novo distante da Paz Definitiva, um sinal vermelho à liderança que, assumindo papel de Estado, chamou para si a responsabilidade de resolver “pacificamente” o assunto, mas nos últimos meses tem intensificado a guerra das armas e da propaganda

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