Terror à espreita: Terrorismo avança e pirataria renascida atinge navio Russo

DESTAQUE POLÍTICA
Share this
  • Operadores turísticos confirmam 10 mortes, que incluim soldados e fiscais
  • 22 postos de fiscalização estão inoperacionais, e campos de turismo e caça foram abandonados

  A insegurança no norte de Moçambique voltou a escalar de forma preocupante, com uma série de ataques em terra reivindicados pelos insurgentes e um incidente inédito em alto-mar envolvendo o navio russo, Atlantida K-1704. Enquanto os jihadistas ligados ao Estado Islâmico continuam a reivindicar ataques contra as Forças de Defesa e Segurança (FDS) em zonas remotas de Cabo Delgado e Niassa, fontes próximas à embaixada da Rússia em Maputo descartam o envolvimento de terroristas no ataque ao navio russo ocorrido no dia 10 de maio, atribuindo o acto a piratas somalis. O episódio lança um cenário tenebroso de uma possível ameaça paralela e menos visível: o regresso da pirataria no Canal de Moçambique, que pode estar a abrir uma nova frente de instabilidade na região. A margem deste retrato, o terrorismo também está a somar os seus efeitos. Um comunicado dos Operadores Turísticos da Reserva Especial do Niassa, datado de 13 de maio, destaca que a violência desde 19 de abril causou 10 mortes confirmadas, incluindo soldados, dois fiscais de caça e dois carpinteiros, além de dois fiscais desaparecidos.

 Nelson Mucandze

O impacto desses ataques é visível. De acordo com comunicado dos Operadores Turísticos da Reserva Especial do Niassa, datado de 13 de maio, a violência desde 19 de abril já causou 10 mortes confirmadas, incluindo soldados, dois fiscais de caça e dois carpinteiros, além de dois fiscais desaparecidos. As atividades de conservação foram paralisadas, 22 postos de fiscalização estão inoperacionais, e campos de turismo e caça foram abandonados. A crise humanitária cresce com aldeias como Mbamba e Macalange a verem os seus campos agrícolas deixados para trás, agravando a insegurança alimentar.

No entanto, o episódio que mais chamou a atenção internacional foi o ataque ocorrido no dia 10 de maio, pelas 15h20, ao navio cargueiro Atlantida K-1704, de bandeira russa, em alto-mar, em águas internacionais a leste da costa de Cabo Delgado. A ocorrência gerou forte repercussão, especialmente devido ao contexto de intensificação do terrorismo na região norte de Moçambique.

Contudo, de acordo com fontes confiáveis ligadas à embaixada russa, o ataque não foi perpetrado por grupos jihadistas. A explicação oficial recebida aponta para piratas somalis como responsáveis pelo incidente. Essa versão pode ser sustentada por três argumentos principais.

A começar pela inviabilidade operacional. É que no mesmo dia e quase no mesmo horário do ataque marítimo, os terroristas realizaram um ataque terrestre na aldeia 1 de maio, no distrito de Muidumbe, o que torna logisticamente improvável a realização de duas operações tão distintas e distantes.

Outro factor tem a ver com falta de meios náuticos para uma operação daquelas. Não há indícios de que os insurgentes em Moçambique possuam embarcações capazes de operar em mar aberto, o que seria necessário para uma incursão como a que atingiu o navio russo.

Último detalhe foi o padrão de reivindicação. O grupo extremista reivindicou o ataque em Muidumbe, mas não se pronunciou sobre o navio, um silêncio incomum, considerando o seu histórico de explorar acções violentas para fins de propaganda.

O incidente, portanto, não pode ser associado ao conflito jihadista em curso no País, mas alerta para um risco regional crescente, relacionado ao avanço da pirataria somali para sul, pondo em causa a segurança marítima no Canal de Moçambique e afectando interesses estrangeiros com presença estratégica na região.

Terroristas reivindicam morte de pelo menos de 16 militares

Enquanto o incidente marítimo seguia em investigação, o conflito terrestre continuava a produzir vítimas. Só entre os dias 8 e 16 de maio, insurgentes realizaram pelo menos quatro ataques distintos, resultando em mais de 16 militares mortos e vários feridos, segundo reivindicações feitas pelo grupo Estado Islâmico.

No dia 8 de maio, os insurgentes atacaram uma posição das FADM em Miangalewa, no posto administrativo de Xitaxi, distrito de Muidumbe. O número de baixas não foi divulgado, mas o ataque foi reivindicado pelo grupo.

Enquanto no dia 10 de maio, no mesmo dia do ataque ao navio russo, terroristas atacaram a aldeia 1 de Maio, também em Muidumbe. A acção foi igualmente reivindicada, o que reforça a tese de que o ataque marítimo tenha outra autoria.

Já no dia 12 de maio, o mesmo grupo de terroristas ligados ao Estado Islâmico anunciou a morte de três soldados das FDS e ferimentos em outros, durante um ataque em Macalange, no interior da Reserva Nacional do Niassa.

Já no dia 16 de maio, ou seja, na última sexta-feira, uma nova publicação extremista alegou a morte de mais três membros das FDS em confronto ocorrido na província do Niassa. A localização exata não foi especificada, mas o ataque teria ocorrido dentro da Reserva Especial do Niassa.

No total, os insurgentes reivindicam a morte de pelo 14 membros das FDS e ferimentos em diversos outros, apenas no intervalo de uma semana. Embora nem todas as informações possam ser confirmadas de forma independente, o padrão indica uma tendência clara de intensificação da violência.

Além de mortes, há um aparente deslocamento geográfico, com os insurgentes, anteriormente concentrados em distritos como Mocímboa da Praia e Palma, aestarem agora a operar com maior frequência em zonas remotas do interior, como a Reserva Especial do Niassa, uma área menos vigiada e de difícil acesso devido.

Terrorismo paralisa conservação e deixa rastro de prejuízos em Niassa, enquanto Governo mantém silêncio

Ataques terroristas na Reserva Especial de Niassa provocaram a paralisação total das actividades de conservação e turismo em pelo menos oito concessões privadas, com 10 mortos confirmados, incluindo soldados, escuteiros de fiscalização e trabalhadores civis. As ofensivas, iniciadas a 19 de abril, resultaram ainda no desaparecimento de dois escuteiros e na evacuação de nove acampamentos turísticos, com um deles completamente destruído.

Segundo comunicado das concessões da Reserva, os ataques comprometeram um dos maiores investimentos privados em conservação de Moçambique, com mais de 65 milhões de dólares aplicados nos últimos 20 anos. Pelo menos 453 trabalhadores permanentes e 647 sazonais correm risco de perder o emprego, com impacto directo em milhares de famílias rurais. Além disso, “179 escuteiros anti-caça furtiva deixaram de operar, expondo a reserva ao aumento de abate ilegal, tráfico de fauna bravia e desflorestamento”, lê-se no documento na posse do Evidências.

A insegurança também obrigou ao abandono de campos agrícolas em comunidades como Mbamba e Macalange, agravando a insegurança alimentar. Escolas, centros de saúde e programas sociais estão suspensos, afectando directamente mais de 14 mil habitantes da zona.

Apesar da gravidade da situação e da ameaça à estabilidade regional, o Governo permanece em silêncio, sem acções públicas visíveis para restaurar a segurança ou apoiar as operações interrompidas. A omissão preocupa os operadores da reserva, que alertam para o risco de colapso total das actividades de conservação e desenvolvimento comunitário.

Com a imagem internacional de Moçambique já manchada por alertas de viagem de países como Estados Unidos e Reino Unido, cresce o apelo por uma resposta urgente, estratégica e articulada para salvar o que ainda resta da maior reserva natural do País.

Promo������o
Share this

Facebook Comments