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- Números desmentem “mentira” do arrogante Xerife Zandamela
Há mais de um ano, que o sector privado e não só, vem se queixando dos efeitos nefastos do aumento do Coeficiente de Reservas Obrigatórias que sugou a liquidez no mercado, gerando uma crise de divisas sem precedentes, com impactos sobre vários sectores de actividade. Seguindo a mesma abordagem de sempre, semana finda, o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, desdramatizou e recorreu a vários subterfúgios para negar a falta de divisas no mercado e num tom arrogante chegou a dizer que muitos reclamam a falta de dólares enquanto não têm nem sequer dinheiro em meticais. E porque os números não mentem, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) expôs a mentira do “Xerife”, ao divulgar que no mundo todo, Moçambique detém a maior dívida acumulada em termos receitas de companhias aéreas estrangeiras que não conseguem repatriá-los porque o País não tem divisas para o efeito. São mais de 200 milhões de dólares bloqueados e que podem fazer com que Moçambique volte a entrar na lista negra da IATA.
Evidências
Moçambique passou a liderar o grupo de países com maiores volumes de receitas de companhias aéreas internacionais bloqueadas, segundo dados actualizados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), referentes ao período até Abril de 2025.
São cerca de 205 milhões de dólares norte-americanos em passagens aéreas emitidas a partir de Moçambique que as companhias aéreas que voam para o País não conseguem repatriar para os respectivos países, o que tem resultado em enormes prejuízos operacionais, havendo já casos de companhias que colocaram a fresco ou que deixaram de emitir bilhetes via agências moçambicanas. O valor é referente aos últimos seis meses.
Depois de assistirem a companhias a deixarem o País e outras que não aceitam emitir bilhetes a partir do solo pátrio, as agências de viagens moçambicanas temem um colapso do sector e culpam o Banco de Moçambique pela situação.
“Transmite uma imagem negativa e afasta novos investidores e companhias aéreas, que nem sequer equacionam estudar a possibilidade de operar em Moçambique. Tivemos recentemente o caso da Ethiopian Airlines, que suspendeu as suas vendas no País. Há pouco tempo, vivemos situação semelhante com a Kenya Airways, que bloqueou totalmente as vendas no mercado moçambicano. A questão não está na ausência de vontade ou pagamento por parte das agências, mas sim na escassez de liquidez no mercado nacional, o que dificulta a transferência de valores em dólares para as companhias internacionais”, lamenta Muhammad Abdullah, CEO da Cotur, citado pela STV.
Já João das Neves da Associação das Agências de Viagem de Moçambique diz que o Executivo não tem tratado a falta de liquidez com a devida seriedade.
“Parece-me que os nossos dirigentes não têm levado este assunto a peito, com a seriedade necessária. Nós, moçambicanos, temos uma expressão interessante: quando alguém nos deve e não quer pagar, está apenas a entreter-nos. Temos ouvido comunicações do Banco de Moçambique e de outras entidades dizendo que não há problema”, critica, desmentindo a mais recente mentira de Zandamela.
Moçambique está à frente da Argélia (178 milhões USD) e Angola (84 milhões USD), entre os Estados africanos com maiores restrições à repatriação de receitas. Eritreia (76 milhões), Zimbabwe (68 milhões) e Etiópia (44 milhões) também figuram entre os maiores devedores, enquanto os restantes seis países, Camarões, República Centro-Africana, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial e Gabão, acumulam em conjunto 191 milhões de dólares em valores por regularizar.
A IATA considera que estas restrições colocam em risco a viabilidade das operações das companhias aéreas e violam os Acordos Bilaterais de Serviços Aéreos (BASA), dificultando o acesso das transportadoras aos fundos necessários para suportar os custos operacionais, sobretudo aqueles denominados em moeda estrangeira.
O director-geral da IATA, Willie Walsh, considerou a situação “profundamente preocupante” e referiu que os atrasos ou bloqueios na repatriação dos fundos ameaçam a continuidade dos voos internacionais e o próprio desenvolvimento económico dos países envolvidos.
“As companhias aéreas operam com margens extremamente reduzidas e não conseguem sustentar interrupções no acesso às suas receitas”, alertou Walsh, apelando ao respeito pelos compromissos internacionais e à remoção imediata dos entraves cambiais.
Fora do continente africano, países como o Líbano (142 milhões USD), Bangladesh (92 milhões USD) e Paquistão (83 milhões USD) também continuam a reter valores significativos, ainda que em menor dimensão comparativamente aos Estados africanos.
A IATA insiste que o desbloqueio dos fundos é essencial para garantir a conectividade internacional, a estabilidade dos fluxos de passageiros e carga, e o fortalecimento das economias africanas, um apelo que se reveste de particular urgência no caso moçambicano, dada a sua crescente centralidade geográfica e estratégica nas rotas do Sul do continente.



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