Razões para não elogiar o governo pelos feitos

OPINIÃO
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Alexandre Chiure

Há quem entende que tenho, por tendência, optado mais por criticar, por tudo e nada, as actividades do governo do dia do que, propriamente, elogiar obras bem-feitas em benefício das populações. Por outras palavras, sou tido como aquele que só vê o lado negativo das coisas, em detrimento do positivo. Apesar de não estar de acordo com essa forma de pensar, respeito a opinião.

Na verdade, são poucas as ocasiões em que elogiei ou um Presidente da República, o governo, a Procuradoria-Geral da República, a Assembleia da República ou um determinado município não por falta de obras feitas, mas porque é sua obrigação fazer o que fizeram. Se não o fizessem, quem o faria?

Não tenho que bajular, por exemplo, o executivo por este ter feito chegar a energia a mais povoados, depois de muito tempo de espera pela sua instalação por parte das comunidades ou por mandar construir um centro de saúde ou uma escola porque entendo que é seu dever fazer isso.

Não vejo razões para parabenizar o executivo por abrir novas vias de acesso para permitir maior circulação de pessoas e bens e ou para o escoamento da produção e fazer chegar os produtos aos mercados ou pela reabilitação de estradas já existentes, secundárias e terciárias, porque é, igualmente, sua responsabilidade.

Mas se não fizer isso, será alvo de críticas da parte da sociedade em geral no sentido de que o seu desempenho é fraco. Quase tudo aquilo que um Presidente da República, o governo ou os municípios implementam é parte integrante de promessas eleitorais. Não elogio alguém só porque as cumpriu, mas posso criticar por não as ter cumprido.

Pelas mesmas razões, não há espaço para rasgos elogios a um município ou ao seu presidente se resolver acabar com o lixo espalhado por tudo o que é canto, organizar os vendedores ambulantes para que possam pagar as taxas de mercado e participarem na limpeza e conservação da sua cidade.

É tarefa do  governo abrir furos de água, acabar com os raptos e outro tipo de crime organizado, combater a corrupção e burocracia no seio do aparelho de Estado e criar um bom ambiente de negócio É, igualmente, sua obrigação proporcionar aos moçambicanos melhores serviços nas áreas de educação e saúde.

O mesmo acontece em relação à solução dos problemas de transporte, falta de medicamentos e equipamento para o diagnóstico e tratamento dos doentes nos hospitais públicos. O executivo, ao realizar estas e outras actividades não deve, de forma alguma, esperar, em troca, que seja elogiado porque mais não fez do que cumprir com as suas atribuições.

Por isso, não faz parte do meu estilo congratular os servidores públicos pelos seus feitos. A minha missão, como jornalista e membro da sociedade, é monitorar as actividades do governo, Assembleia da República, Procuradoria da República, governos provinciais, assembleias provinciais e outras entidades e apontar erros para que sem corrigidos.

Não é meu estilo promover ou defender a mediocridade e a impunidade. Para mim, azul é azul. Castanho é castanho. Nunca vou considerar cor branca como preta, à semelhança do que fazem alguns lambe-botas. Não tenho jeito para defender o indefensável.

Admiro pessoas que não se importam de queimar a sua imagem em troca de alguns benefícios como nomeações para alguns cargos públicos, a exemplo de administradores não-executivos de algumas empresas participadas pelo Estado e receberem salários fabulosos sem fazerem nada. Há muitos exemplos desses.

Prefiro continuar como estou, a levar uma vida normal e honesta, às vezes a ser chamado nomes como de que estou do outro lado de lá e não do lado de cá onde os outros se encontram, com benefícios e oportunidades.

Não consigo falar ou escrever para agradar alguém ou a um determinado chefe, nem elogiar por elogiar só para estar bem, por exemplo, perante um ministro, governador, Presidente da República, Governo ou partido no poder. Podem não concordar comigo, vou compreender. Mas, em nome da democracia vigente no país, ainda que caracterizada por intolerância política, são obrigados a respeitar as minhas opiniões como eu respeito as de qualquer que seja o cidadão.

A melhor contribuição para o bem do meu país é exercer a cidadania com responsabilidade. Criticar, sim, mas uma crítica construtiva. Apontar erros, sim, mas com propostas de soluções para a sua correcção. Esse é o exercício (in)glório que tenho feito no meu dia-a-dia e sinto-me muito bem a fazer isso.

Posso elogiar, sim, senhor, o presidente do meu país ou outras individualidades se forem distinguidos por organismos internacionais pela defesa dos direitos humanos, ambiente ou equidade de género no país e no mundo porque a premiação é motivo de prestígio não só para o laureado, como também para todos os moçambicanos.

Aqueles que não querem ser criticados ou escrutinados, o melhor é não ascender a cargos públicos. Não se fala de João, Pedro ou Alberto porque ninguém os conhece. Mas no dia em que essas pessoas decidirem entrar na política ou serem nomeados para algum cargo nas instituições públicas, passarão a ser seguidos.

A melhor recompensa para quem está a governar não são elogios, mas, isso sim, a sua recondução ao poder nas eleições seguintes, se houver o reconhecimento público de que trabalhou bem. O país cresceu e desenvolveu-se. A qualidade de vida dos moçambicanos melhorou substancialmente.

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