Share this
Nilza Dacal
Moçambique vive um momento decisivo. Meio século após a independência, a corrupção, entranhada nos alicerces do Estado, corrói a confiança pública, e a precariedade dos serviços compromete a dignidade dos cidadãos. A desigualdade, alimentada por décadas de descompromisso estrutural, perpetua ciclos de exclusão. Precisamos de uma mudança de mentalidade, e essa transformação só pode começar onde tudo começa: na educação.
A educação deve deixar de ser tratada como apêndice do orçamento e passar a ocupar o centro do projecto nacional. Ela é a única ferramenta capaz de gerar cidadãos íntegros, críticos, empáticos e capazes de colocar o bem comum acima do interesse próprio. Sem uma educação com propósito, o sector público continuará refém de servidores indiferentes, políticas ocas e lideranças que confundem poder com privilégio.
É nas salas de aula que se moldam os valores que definem o país que seremos. Ensinar a ler e a escrever é essencial, mas não suficiente. É preciso formar indivíduos preparados para liderar com responsabilidade, rejeitar o atalho da corrupção e entender que governar é servir, não enriquecer. Um currículo que não cultiva o pensamento crítico, a consciência ambiental, o respeito à identidade cultural e as competências práticas forma cidadãos incompletos e, muitas vezes, inoperantes diante dos desafios do mundo real.
A educação moçambicana precisa de ser transformada num espaço de construção de carácter, moral e ética. Uma escola que ensina a gerir emoções, lidar com diferenças, resolver conflitos e agir com empatia está a formar líderes para um país mais coeso. A ética e a moral, quando aprendidas desde cedo, tornam-se blindagem contra o oportunismo que tantas vezes contamina os cargos públicos. E quando a escola ensina a servir, em vez de dominar, forma-se uma nova cultura de governação.
Moçambique, tão vulnerável às mudanças climáticas, precisa urgentemente de líderes conscientes do seu papel na protecção ambiental. A educação deve preparar os jovens para governar com visão de longo prazo, em sintonia com o planeta e as necessidades futuras. Projectos como hortas escolares ou campanhas de reflorestação não são apenas actividades extra-curriculares; são lições de cidadania planetária e responsabilidade intergeracional.
Também precisamos de educar com raízes, valorizando quem somos para projectar um futuro genuíno. Um jovem que conhece as suas origens e respeita a sua herança torna-se mais comprometido com a sociedade.
Além disso, é preciso conectar a educação ao mundo do trabalho real. Jovens saem das escolas com diplomas, mas sem ferramentas. A formação técnica, o empreendedorismo e a inovação devem ser incorporados ao currículo com seriedade, não como complemento, mas como estratégia de desenvolvimento nacional. Um jovem capacitado transforma a sua comunidade e deve saber ser, estar e fazer.
Neste contexto, os professores são os verdadeiros arquitectos da nação. E hoje, muitos ensinam sem ferramentas, reconhecimento e, sobretudo, dignidade. Reformar a educação passa obrigatoriamente por investir nos professores. Eles devem ser bem formados, bem pagos e profundamente respeitados. Um país que não cuida dos seus professores está a abandonar o seu próprio futuro.
“Professor medíocre fala. Professor suficiente explica. Professor bom demonstra. Professor muito bom inspira.” Moçambique precisa de professores inspiradores.
Ora, nada disso acontecerá por inércia. É preciso um pacto, um compromisso de Estado e de sociedade. O governo deve assumir a liderança, com políticas públicas robustas e recursos à altura da urgência. As famílias devem reforçar os valores em casa. O sector privado pode e deve colaborar na formação profissional e na inovação. A sociedade civil, incluindo as igrejas e as organizações comunitárias, tem um papel insubstituível na promoção da ética e da cidadania. A mudança que queremos no País começa com a mudança na educação.
A corrupção, o maior inimigo do progresso nacional, não será derrotada apenas com tribunais ou denúncias. Ela será superada quando a sociedade, desde a infância, aprender a rejeitá-la. A verdadeira luta contra a corrupção começa em casa e na escola. Educar com ética é formar cidadãos que não se vendem. Educar para servir é formar líderes que não se dobram diante da ganância. É formar governantes que compreendem que a sua função não é enriquecer, mas transformar vidas.
O futuro de Moçambique não será escrito em cúpulas internacionais nem em gabinetes climatizados. Ele será construído nas salas de aula, no coração e na mente de cada criança que aprende que liderar é prevenir, e prevenir é liderar. Que servir ao povo é a forma mais nobre de exercer o poder.
Educar para servir é o gesto político mais revolucionário que um país pode realizar. Que tenhamos, como nação, a coragem de semear esse futuro. Porque onde se investe em educação, colhe-se cidadania, justiça, democracia e progresso duradouro.



Facebook Comments