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- HCM retoma serviços de radioterapia, após mais de um ano de luta por “Nhonga”
- Ministro da Saúde denuncia sabotagem interna como causa da retoma tardia dos serviços
- Governo abandona orgulho e volta a contactar especialistas que sabem operar a máquina
- HCM não sabe dizer quantas pessoas morreram por falta deste serviço nos 15 meses de paralisação
Após mais de um ano inoperacional, o único serviço de radioterapia do país, localizado no Hospital Central de Maputo (HCM), voltou a operar. A reactivação do acelerador linear, um equipamento crucial para o tratamento de cancro, representa uma nova esperança para os cerca de 170 doentes em lista de espera e um marco significativo para o Serviço Nacional de Saúde. Contudo, a cerimónia de reabertura foi marcada por uma grave denúncia do Ministro da Saúde, Ussene Isse, que apontou para a possibilidade de sabotagem interna como causa da prolongada avaria. Embora Isse não aponte nomes, fontes do Evidências ligadas ao processo acusam o antigo ministro da Saúde, Armindo Tiago e a Direcção Nacional de Assistência Médica de terem deliberadamente dispensado uma equipa de especialistas estrangeiros que garantiam a operação da máquina, o que levou a sua avaria pouco tempo depois da sua retirada, pois o pessoal interno não estava capacitado. Passados 15 meses, a direcção do hospital admite a impossibilidade de quantificar as vidas perdidas durante a paralisação. A paralisação não só interrompeu tratamentos vitais, como também agravou a pressão financeira sobre o Estado, que, segundo a Associação dos Médicos de Moçambique, gasta anualmente perto de mil milhões de meticais no envio de pacientes para tratamento no estrangeiro, sendo os doentes oncológicos mais de metade deste contingente. Segundo fontes, há uma rede clientelista que lucra milhões em comissões no chamado “turismo de saúde” que não tem interesse em ver a máquina a operar.
Evidências
Após cerca de 15 meses tentando contornar a empresa fornecedora e os seus técnicos, o Governo abandonou, finalmente, o orgulho e voltou a contactar os especialistas estrangeiros que sabem operar a máquina.
O serviço de radioterapia é uma componente essencial e, em muitos casos, a mais avançada no tratamento de diversas patologias oncológicas. A sua inoperância desde o início de 2024 representou um duro golpe para centenas de pacientes. A reparação do equipamento só foi possível depois que o Governo abandonou o seu orgulho e chamou a equipa de especialistas internacionais que desde o início estavam baseados no País, exclusivamente para operar o aparelho. A dependência de técnicos estrangeiros para intervenções desta natureza evidencia a limitada capacidade técnica interna para lidar com equipamentos de tamanha sofisticação.
Informações colhidas na praça indicam que a empresa, por sinal moçambicana, que importou a máquina de radioterapia, disse que o aparelho, que custou cerca de 15 milhões de dólares, devia ser operado e mantido por uma equipa especializada de médicos e técnicos, estrangeiros, com formação e licenciamento para operá-lo dentro dos padrões internacionais.
O alerta foi ignorado e por ordens do então ministro da saúde, Armindo Tiago, há cerca de 16 meses, o Governo interrompeu o pagamento de ordenados à equipa especializada e propôs a sua substituição por uma equipa de moçambicanos, sem conhecimento aprofundado sobre a operação.
Tentativa de contornar o fornecedor e a sua equipa
Como resultado, a máquina parou em muito pouco tempo e o Governo procurou formas de contornar a empresa fornecedora do equipamento e o seu pessoal estrangeiro especializado, alegando que o preço de manutenção era alto demais.
Um especialista ouvido pelo Evidências compara a tecnologia da máquina de radioterapia com um avião que só pode ser pilotado por pessoal capacitado para voar consoante as especificações de cada fabricante. O equipamento instalado no Hospital Central de Maputo, numa materialização de um sonho iniciado pela antiga primeira-dama, Maria da Luz Guebuza, é de fabrico suíço-americano.
Só para se ter ideia da complexidade e nível de especialidade exigida, a referida equipa estrangeira que foi dispensada pelo ex-ministro Armindo Tiago era composta por técnicos norte-americanos, suíços, alemães e portugueses. Eram as únicas pessoas capacitadas para manusear o equipamento.
Esta equipa especializada assegurou, durante quatro anos, a manutenção e o funcionamento regular e sem interrupções do equipamento durante cinco anos devolvendo a saúde e esperança a muitos doentes oncológicos que saíram curados, até ao dia em que o ministro Tiago decidiu inovar e substituí-la por pessoas despreparadas e sem conhecimento aprofundado sobre o manuseio do equipamento.
Segundo apurámos, a empresa fornecedora alertou tempestivamente ao Governo, através do Ministério da Saúde, que os médicos moçambicanos não estavam suficientemente capacitados para manusear o equipamento sem o apoio dos especialistas estrangeiros. Os reiterados avisos foram ignorados e, como resultado, a máquina parou em pouco tempo.
Há uma máquina essencial (Fonte) que ainda nem entrou em funcionamento
O Governo não só não seguiu as recomendações da empresa fornecedora, como também negligenciou o processo de formação de recursos humanos para que pudessem ter formação de forma a manusearem o equipamento.
“Não deixaram acontecer isso”, revelou ao Evidências um especialista ligado ao processo, acrescentando que existem outros contornos estranhos por detrás do assunto, que podem revelar um plano intencional de sabotar o projecto, posição agora corroborada pelo actual ministro da Saúde, Ussene Isse.
A máquina de radioterapia é composta por vários outros equipamentos, um dos quais é a Fonte, um equipamento que permite a inoculação do tratamento directamente nas células cancerígenas.
No entanto, aquele equipamento auxiliar desde que chegou ao País, pouco tempo depois da chegada da máquina de radioterapia, nunca foi usado, por razões completamente desconhecidas. O especialista descreve a Fonte como um equipamento extremamente essencial para o tratamento do câncer.
Negócio de comissões em viagens de turismo de saúde podem estar por detrás da sabotagem
O ministro da Saúde, Ussene Isse, denunciou alegada sabotagem interna ao equipamento de radioterapia, o que levou à sua avaria prolongada que empurrou dezenas de pacientes a uma espécie de corredor da morte. O ministro não disse quem são os sabotadores, nem as motivações.
Contudo, fontes do Evidências acreditam que por detrás da intenção de sabotar o equipamento e por extensão todo serviço de radioterapia estão interesses ocultos ligados a uma rede que lucra com comissões a cada paciente que era enviado para o estrangeiro, com destaque para Índia e Portugal, para poderem ter acesso ao serviço deliberadamente sabotado no País.
Esta narrativa pode parecer uma teoria de conspiração de autênticos detractores, mas não é. É a mais pura realidade. O ministro da Saúde tratou de deixar claro esta segunda-feira que, afinal, “há quem não está satisfeito com a retoma desses serviços”. São os mesmos que durante a reparação tentaram deitar tudo por água abaixo.
Dirigindo-se directamente à equipa médica e técnica dos serviços de oncologia do HCM, Ussene Isse não hesitou em falar de forças internas que trabalham contra o bem-estar dos pacientes e o progresso do hospital. O governante apelou a uma união e vigilância redobradas para proteger o equipamento e garantir que o serviço não volte a ser interrompido por actos maliciosos.
“Na fase de manutenção deste equipamento, pessoas, colegas nossos, foram meter água no sítio que fica gás. Hoje estamos a abrir esse serviço, mas há gente que não está satisfeita com a retoma desses serviços. Então temos de estar vigilantes, colegas, não vamos permitir que pessoas que não gostam da saúde do povo estraguem o nosso trabalho. Ajudem-nos, vamos trabalhar em equipa porque, senão, hoje estamos a abrir, mas amanhã vamos ouvir que já foram lá de novo. Vamos estar atentos a isso, peço a vossa colaboração para isso, a equipa deve estar unida para resolver os problemas do povo”, declarou o ministro, deixando um alerta claro sobre a necessidade de proteger o investimento e, acima de tudo, a vida dos doentes.
“Não é possível dizermos quantas pessoas morreram por falta deste tratamento agora” – HCM
Mouzinho Saide, director-Geral do HCM, detalhou o impacto da paralisação e os desafios inerentes à gestão de um serviço tão complexo e dispendioso. Desde a sua inauguração, em 2019, o serviço vinha registando um crescimento significativo. Segundo o director-geral do HCM, Mouzinho Saide, começou com 40 pacientes no primeiro ano, passando para uma média anual de 250. No entanto, em 2024, quando ocorreu a avaria, apenas 60 pacientes conseguiram ser tratados nos primeiros três meses.
“A ausência deste serviço trouxe complicações muito grandes para alguns doentes. Agora, com a retoma, teremos a oportunidade de oferecer um tratamento de qualidade que pode aliviar o sofrimento”, afirmou Saide, lembrando que a manutenção anual da máquina oscilava entre 2 e 3 milhões de dólares e que o país ainda depende de equipas técnicas do exterior para este tipo de trabalho.
Apesar da dimensão do impacto, o responsável ressalva que não é possível determinar quantas mortes possam ter resultado directamente da interrupção, já que o cancro é tratado por meio de diferentes abordagens, como cirurgia, quimioterapia, imunoterapia e hormonoterapia.
“Não é possível dizermos quantas pessoas morreram por falta deste tratamento agora, porque, como disse, para além deste tratamento existem outros para o câncer. Existe a cirurgia, existe a quimioterapia, a imunoterapia, a hormonoterapia. Portanto, não é o único tratamento para o câncer, esta é uma intervenção. No hospital, para fazermos estes tratamentos, nós temos uma comissão multissectorial que avalia os doentes e decide qual é a fase do tratamento que vai ter. Portanto, não poderemos dizer quantos doentes morreram por falta deste, porque, provavelmente, possam ter beneficiado também de outros tratamentos”, disse Saide.
Para o presidente da Associação dos Médicos, Napoleão Viola, a paralisação representou um duplo prejuízo: financeiro e humano. Durante os 15 meses de inactividade, o Estado gastou quase mil milhões de meticais por ano para enviar doentes para o estrangeiro, através da Junta Nacional de Saúde.
“Esta reativação é um passo importante para reduzir custos e evitar que pacientes passem pelo desgaste de viajar para fora do país. Estima-se que mais de 50% dos doentes que eram enviados ao exterior necessitavam especificamente da radioterapia”, destacou Viola.
O fim da espera para os que sofriam as consequências da falta de tratamento
Para quem vive com a doença, a notícia é mais do que uma estatística ou um avanço técnico; é uma luz no fundo de um túnel de sofrimento e espera. Nas palavras de Josefa Adriano, um jovem de 17 anos, a reabertura do serviço significa uma nova oportunidade de vida.
“Fiquei quase dois anos à espera da máquina. Agora que a máquina está de volta, que está funcionando, tenho uma nova esperança”, partilhou, visivelmente emocionado.
Outra paciente, que luta contra um cancro do colo do útero desde 2023, ecoou o sentimento: “Estamos gratos por saber que a máquina está boa, era uma preocupação. Para quem não tem condições de ir fazer fora é um grande alívio. Eu fiz a quimio no ano antepassado e quando terminei me mandaram para cá, mas a máquina estava avariada. Quando ouvi que a máquina já está a operar, fiquei feliz”.
Uma terceira doente, Marta Zunguze, que também aguardava pela radioterapia após sessões de quimioterapia, resumiu a longa jornada de incerteza: “A promessa era de que um dia a máquina iria voltar a operar”. Para ela e para centenas de outros, esse dia finalmente chegou.



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