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Edmilson Mate
Durante muito tempo, achei exagerada a ideia de que Moçambique e Angola são como gémeos siameses. Mas à medida que cresço e observo os acontecimentos que marcam a vida quotidiana do povo moçambicano assim como angolano, vejo que essa comparação está longe de ser apenas uma ideia exagerada. O que nos une vai além da língua, da história colonial ou das guerras civis, partilhamos uma mesma dor, a da má governação, da repressão, da ausência de empatia por parte dos que nos deviam proteger.
Na última semana, as redes sociais foram invadidas por vídeos chocantes de cidadãos angolanos brutalmente agredidos e assassinados durante manifestações. Infelizmente, para nós moçambicanos, essas imagens não são novidade. Basta recordar os episódios das manifestações das últimas eleições gerais, em que também se disparou contra jovens desarmados, contra pais de família, contra cidadãos que apenas queriam exercer o seu direito constitucional de protestar. Em ambos os países, os regimes políticos FRELIMO e MPLA parecem gémeos de uma mesma matriz autoritária, onde o poder se sobrepõe à dignidade humana.
E porquê? Porque razão um cidadão é morto como um animal por ter ido à rua manifestar-se? Porque razão a exigência de direitos básicos, legítimos é respondida com balas e agressão? Um governo que reprime a sua população desta forma esqueceu-se da sua função primordial: servir. Uma palavra muito simples. Porque é o povo que constrói o Estado, que paga impostos, que vota, que sustenta com o seu suor as instituições. Em qualquer república que se preze, o governo deve servir o povo, não o contrário.
O aumento do preço dos combustíveis em Angola, um país com uma das maiores reservas de petróleo do continente é um insulto à lógica e à justiça social. Os que saíram às ruas são, na sua maioria, os mais pobres, os mais esquecidos, os que sabem que esse aumento terá impacto directo na sua alimentação, no transporte, na sobrevivência diária. Manifestar-se é um direito constitucional.
Infelizmente, muitos líderes africanos parecem esquecer-se disso assim que chegam ao poder. Já dizia uma frase conhecida: “se quiseres conhecer verdadeiramente alguém, dá-lhe poder”. É aí que se revela o carácter, e é também aí que se desmorona a esperança depositada por milhões. Muitos partidos libertadores tornaram-se opressores, e isso é uma das maiores tragédias da nossa história recente. Não lutámos pela independência para vivermos com medo. Não morremos pela liberdade para sermos silenciados.
É importante clarificar que sou contra o vandalismo e a destruição que, por vezes, se infiltram nas manifestações. Mas também acredito que um presidente digno e com amor à patria deve distinguir o justo do injusto. Um governo não pode tratar o seu povo como um inimigo. Quando um filho erra, não o matamos, educamo-lo, escutamo-lo, corrigimo-lo com amor e firmeza. O povo é esse filho. E os líderes deveriam ser os seus cuidadores, não ‘’assassinos’’.
A liberdade de expressão, a democracia e a justiça não são luxos. São pilares fundamentais para qualquer nação que queira crescer de forma saudável e sustentável.
Escrevo este artigo não como moçambicano ou angolano, mas como ser humano. Escrevo porque acredito que a vida humana é sagrada, e nenhum regime seja qual for o seu nome ou cor partidária tem o direito de ignorar essa verdade. Moçambique e Angola podem ter histórias distintas, mas estão unidos por uma mesma ferida: causada por regimes ‘’sanguinários’’.



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