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- Moçambique entre promessas e realidades
Ajay Banga, Presidente do Banco Mundial, defende que a criação de empregos será a prova de fogo para os países em desenvolvimento. Em entrevista à BBC, destacou o papel da energia, da digitalização e das pequenas empresas para transformar o crescimento demográfico em prosperidade. Em Moçambique, essas ideias encontram eco nos primeiros 100 dias de governação de Daniel Chapo, mas a distância entre as promessas e a realidade continua grande.
Quando Ajay Banga fala de emprego, fá-lo com a autoridade de quem gere uma das instituições financeiras mais poderosas do mundo. Presidente do Banco Mundial desde 2023, Banga carrega a experiência de décadas no sector privado e de conselheiro de líderes americanos. Em entrevista à BBC World Service, alertou que o maior risco do nosso tempo não é apenas económico, mas também social e político: o desemprego em massa da juventude.
Segundo ele, até 2050, 80% da população em idade activa viverá em países em desenvolvimento. Só na próxima década, mais de 1,2 mil milhões de jovens entrarão no mercado de trabalho global. “Se não criarmos oportunidades para estas pessoas, estaremos a fabricar instabilidade”, disse.
Banga não fala apenas de estatísticas. Para ele, o problema é estrutural: empregos não se criam por decreto, nem apenas com escolas ou estradas. “Os empregos surgem de um ecossistema em que se cruzam energia, políticas públicas, regulação previsível e, sobretudo, um sector privado dinâmico”, sublinhou.
A entrevista decorreu em Washington, mas tinha África como pano de fundo. Ao contrário das décadas anteriores, em que o motor do crescimento foi a Ásia, Banga acredita que o século XXI poderá ser africano – desde que os países consigam transformar a sua demografia em prosperidade.
África em foco
O Presidente do Banco Mundial enumerou quatro factores que dão vantagem ao continente:
- População jovem – milhões de pessoas em idade activa, um potencial inédito de mão-de-obra e consumo.
- Recursos hídricos e terras aráveis – capacidade de alimentar não só a própria população, mas também parte do mundo.
- Minerais críticos – lítio, grafite, areias pesadas, fundamentais para a transição energética.
- Energia limpa e abundante – sol, vento, água, e em alguns países, gás natural.
Foi neste ponto que citou Moçambique. “É um país que combina gás natural com potencial solar e hídrico. Mas a pergunta é: conseguirá criar as infra-estruturas certas, as regras claras e as condições para o sector privado investir?” A questão é pertinente. Moçambique já conhece a maldição dos recursos: megaprojectos que geram exportações, mas não empregos em escala. O país é um dos maiores produtores de alumínio em África, mas a Mozal emprega apenas algumas centenas de pessoas. Os projectos de gás em Cabo Delgado prometeram 70 mil empregos, mas a insurgência e a instabilidade atrasaram tudo.
Para Banga, África não pode repetir a dependência de enclaves extractivos. O verdadeiro motor do emprego está no quotidiano das pequenas e médias empresas. “É aí que a juventude encontra oportunidades reais”, frisou.
Moçambique em perspectiva
Quando tomou posse a 15 de Janeiro de 2025, Daniel Francisco Chapo apresentou-se como “o primeiro Presidente nascido depois da Independência” e prometeu renovar Moçambique. Falou em liberdade, justiça, prosperidade e anunciou “medidas ousadas” para quebrar o ciclo de promessas não cumpridas.
No discurso, fez questão de marcar distância da retórica habitual: estabeleceu contratos-programa para ministros e gestores públicos, com metas mensuráveis. “Só alcançaremos resultados diferentes alterando radicalmente o nosso método”, disse.
Cem dias depois, apresentou o primeiro balanço. De acordo com o Governo, 96% dos indicadores foram cumpridos; em 25% dos casos, as metas foram superadas. Foram financiadas milhares de iniciativas de auto-emprego, distribuídos quase 12,5 milhões de livros escolares, inauguradas unidades de saúde e electrificados novos postos administrativos.
A narrativa oficial fala de “100 dias que redesenharam o futuro”. Mas a leitura crítica obriga a perguntar: quantos destes resultados são sustentáveis? Quantos representam mudança estrutural e não apenas acções de impacto imediato?
É aqui que a voz de Ajay Banga ajuda a colocar a fasquia mais alta: os empregos criados por projectos pontuais não serão suficientes para responder ao desafio demográfico.
Emprego e juventude
Banga foi claro: “Os empregos não surgem apenas por externalizar fábricas do mundo desenvolvido. É preciso criar ecossistemas locais.” Ele dá o exemplo da Ásia, onde o comércio intra-regional explodiu, mas nota que em África o comércio entre vizinhos não passa de 15%.
Moçambique enfrenta exactamente este dilema. A juventude é maioria – mais de 60% da população tem menos de 25 anos. Todos os anos, mais de 400 mil jovens entram no mercado de trabalho. A economia formal, porém, absorve apenas uma fracção. O grosso sobrevive na agricultura de subsistência ou na economia informal. Nos primeiros 100 dias, o Governo anunciou a criação do Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL), orientado para jovens e mulheres empreendedoras. Mais de 3.000 iniciativas de autoemprego foram financiadas. Além disso, lançou uma linha de crédito de 10 mil milhões de meticais para apoiar micro e pequenas empresas afectadas por ciclones e manifestações.
São medidas relevantes, mas pequenas perante o desafio. Mesmo que cada uma das 3.000 iniciativas de autoemprego empregasse cinco pessoas, estaríamos a falar de 15 mil postos de trabalho, menos de 5% da procura anual.
Aqui a entrevista de Banga ecoa de forma cortante: “Não podemos fixar-nos num único modelo. Precisamos de inovação, comércio intra-regional e sector privado forte.”
Energia e digitalização
Outro ponto central é a energia. Para Banga, a electricidade é um direito humano. Ele recorda que 600 milhões de africanos vivem sem acesso regular. “Não estamos a falar de cortes de energia: falamos de ausência total”, disse.
Moçambique electrificou recentemente postos administrativos em Nampula e Zambézia. Mas o desafio continua colossal: milhões de famílias ainda cozinham a carvão e vivem às escuras. O país tem energia de Cahora Bassa e gás do Rovuma, mas a rede de distribuição não cobre o território.
No campo digital, Banga distingue entre “IA grande” e “IA pequena”. A primeira exige poder computacional e dados em escala, algo distante para países africanos. A segunda é prática: um agricultor que usa o telemóvel para identificar doenças na plantação, um médico que recebe uma foto da pele de um paciente remoto. Curiosamente, Chapo adoptou uma visão parecida: nos primeiros 100 dias, lançou a iniciativa Internet para Todos em 100 escolas, distribuiu 5.000 computadores a estudantes carenciados e iniciou a digitalização da “machamba do camponês”. A aposta é ligar o agricultor à informação básica.
É um começo. Mas a exclusão digital permanece enorme: a penetração da internet em Moçambique ronda os 25%, e nas zonas rurais é mínima.
Dívida e finanças
A entrevista de Banga também tocou num tema sensível: a dívida. Ele insiste que novos financiamentos não podem servir apenas para pagar dívidas antigas. “Isso não faz sentido”, disse. Moçambique conhece bem o problema. O escândalo das dívidas ocultas de 2016 mergulhou o país numa crise que ainda hoje pesa nas contas públicas. A dívida pública continua acima de 90% do PIB.
Nos primeiros 100 dias, o Governo procurou dar sinais de disciplina: pagou o 13º salário a funcionários e pensionistas, regularizou horas-extra em saúde e educação e liquidou parte das dívidas a fornecedores. São acções que aumentam a confiança, mas ainda longe de resolver o problema estrutural.
Para Banga, a solução passa por fluxos líquidos positivos: usar novos créditos para criar activos produtivos que gerem receitas futuras. Aqui reside a questão: será Moçambique capaz de converter a bonança dos recursos naturais em dividendos duradouros?
No final da entrevista, Ajay Banga confessou: “O que mais me tira o sono é o emprego para os jovens.” No fecho do seu balanço dos 100 dias, Daniel Chapo afirmou: “O futuro do nosso País não está escrito; ele será moldado pelas nossas mãos.” As duas frases resumem a tensão entre o desafio global e a promessa nacional. O mundo precisa de empregos; Moçambique precisa de transformar promessas em estruturas sólidas.
Se os próximos anos confirmarem a visão de Banga, o século poderá ser africano. Mas isso dependerá não apenas de recursos ou discursos, mas da capacidade de países como Moçambique criarem oportunidades reais para a sua juventude. Cem dias são apenas um começo.
*Entrevista concedida à BBC World Service. Transcrição e adaptação: Evidências.



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