Estradas de sangue: O custo da negligência, corrupção e desordem estrutural

OPINIÃO
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Arão Valoi

Nos últimos tempos, as estradas do nosso País, em vez de serem vias de progresso e integração social, têm-se transformado em palcos de tragédias recorrentes, onde o luto deixou de ser excepção para se tornar rotina. Os acidentes de viação já não chocam; anestesiaram a sociedade, como se a morte súbita de dezenas de pessoas num só dia fosse apenas mais um dado estatístico a preencher os noticiários da manhã.

Ontem mesmo, duas tragédias paralelas — uma em Manhiça, outra em Chongoene — somaram mais de trinta mortos, vítimas de um sistema de transporte que não transporta apenas passageiros, mas também negligência, corrupção e desordem estrutural.

O acidente da Manhiça é emblemático: um autocarro que levava quase 30 pessoas, despistou-se e colidiu com uma ponte, caindo de seguida num riacho. O de Chongoene, envolvendo um semi-colectivo e um camião, produziu a mesma consequência: vidas perdidas de forma brutal. É revelador que os protagonistas sejam sempre os mesmos — transportes semi-colectivos, autocarros superlotados, camiões pesados —, como se a morte tivesse elegido as suas ferramentas preferenciais.

A cada tragédia, repete-se o mesmo ritual: autoridades consternadas, promessas de investigação, lágrimas nos funerais colectivos e, depois, o silêncio que prepara o terreno para o próximo desastre.

As perguntas que se impõem são tantas: Em que condições circula o nosso transporte público? Em que situação andam os seus motoristas? E as nossas estradas, em que condições se encontram? O que têm estado a fazer a Polícia de Trânsito e a Polícia Municipal (onde se aplica)?

A resposta é dura, mas conhecida: a cumplicidade das autoridades. A polícia de trânsito, em grande parte, deixou de ser guardiã da segurança pública para se converter em arrecadadora informal de tributos ilícitos.

O famoso “refresco” dissolve qualquer infracção, seja ela excesso de carga, ausência de carta de condução ou um veículo a cair aos pedaços. O Estado, que deveria ser árbitro e regulador, tornou-se cúmplice silencioso de um sistema que mata em larga escala.

A banalização destes acidentes denuncia, na verdade, uma patologia social mais profunda: a naturalização da irresponsabilidade. Condutores sem formação adequada, frequentemente sem carta, são entregues a veículos sucateados, obrigados a cumprir horários insanos e quotas de lucro impostas por patrões invisíveis. O passageiro, por seu lado, aceita a superlotação como inevitável, resignado à sorte porque “é o que há”. E assim, entre a ganância dos empresários, a complacência das autoridades e a impotência do cidadão comum, as estradas convertem-se em roletas russas colectivas. E esta questão da cumplicidade dos passageiros é gritante: um dia chamei atenção a um “chapeiro” na Avenida de Angola, por causa da condução perigosa que ele fazia, ultrapassando tudo e todos, de forma irresponsável. Em vez de ser o motorista a zangar, foram os passageiros, alegando pressa e atrasos.

Por outro lado, o estado físico das nossas vias é, por si só, um retrato da governação: esburacadas, mal sinalizadas, com pontes frágeis e bermas inexistentes. Mas a degradação material é apenas a camada mais visível de um mal maior — a degradação institucional. Porque uma estrada esburacada pode ser reparada; já a corrupção enraizada, a indiferença estatal e a ausência de políticas sérias de mobilidade são crateras morais muito mais difíceis de tapar.

As mortes nas estradas não são apenas “acidentes”: são homicídios sociais cometidos por um sistema que abdica da sua responsabilidade de proteger.

Quando a polícia fecha os olhos, quando o governo se limita a reagir com comunicados, quando os empresários de transporte exploram motoristas e passageiros como mercadoria descartável, então não estamos diante de fatalidades, mas de crimes consentidos.

Cada acidente arranca, de forma violenta, peças essenciais do tecido social. São pais que deixam filhos órfãos, mães que já não regressam ao lar, jovens que não chegam a cumprir os seus sonhos. O impacto não se mede apenas em números de mortos, mas em projectos de vida interrompidos e comunidades mergulhadas em pobreza acrescida. Para muitas famílias rurais e urbanas, a morte de um membro num acidente equivale a um colapso económico, pois se perde o único sustento. Assim, as estradas moçambicanas não semeiam apenas luto: semeiam miséria, perpetuando o ciclo da vulnerabilidade.

É urgente inverter esta lógica macabra. Mas a urgência não pode limitar-se ao tom fúnebre dos discursos oficiais. É preciso uma revolução de mentalidade e de prática. Isso significa reformar a polícia de trânsito, erradicando a cultura da “refresco” com medidas duras e exemplares; profissionalizar os motoristas, garantindo formação séria e exigindo cartas de condução autênticas, não compradas em esquemas obscuros; regular com firmeza os transportadores, impondo limites de lotação e velocidade, inspeções regulares e responsabilização criminal em caso de negligência; requalificar as estradas e infraestruturas, porque um País que se quer moderno não pode continuar a circular em estradas coloniais, sem manutenção nem sinalização. Mais do que medidas técnicas, o que está em jogo é a afirmação do valor da vida humana. Porque, no fundo, o problema não é apenas de transporte, mas de ética pública.

Se nada mudar, cada viagem continuará a ser uma sentença suspensa, cada autocarro um caixão em movimento, cada estrada uma metáfora da indiferença nacional. O País não pode continuar a aceitar que a mobilidade seja sinónimo de mortalidade. É preciso devolver às estradas a sua função primordial: ligar destinos, gerar encontros, transportar futuro.

Nota: Neste momento de dor e luto, gostaria de expressar a minha mais profunda solidariedade a todas as vítimas de acidentes de viação em Moçambique e às suas famílias. Que a lembrança daqueles que partiram inspire maior atenção à segurança nas nossas estradas e que as famílias encontrem conforto e força para enfrentar esta perda irreparável. Que a memória dos que se foram seja honrada através de acções concretas que tornem as nossas vias mais seguras para todos.

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