A Política de Inimizade Em Moçambique: Partidos, Massas e o Fim da Liberdade de Expressão da Juventude Revolucionária?

OPINIÃO
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John Kanumbo

Comecemos pelos jovens. Moçambique acaba de testemunhar um fenómeno: em apenas 24 horas, mais de 25 mil cidadãos se inscreveram como novos membros de um partido nascente da oposição, a ANAMOLA, com a meta declarada de atingir milhões. À primeira vista, pode parecer força popular, energia transformadora, esperança de um novo amanhã. Mas olhemos com atenção: essa adesão massiva não é revolução; é absorção. É a captura da juventude crítica que, até então, se manifestava livremente, fora da máquina partidária, e que agora é engolida pelo próprio sistema que deveria questionar.

A juventude que se mobilizou na Geração 18 de Março e em tantos outros momentos de resistência foi a chama de uma revolução possível. Mas hoje, essa chama é domesticada e transformada em combustível eleitoral. O activismo livre e autónomo perde espaço para o recrutamento partidário. Não há revolução onde há filiação cega; não há liberdade quando a crítica se converte em militância de sigla.

É nesse contexto que faz sentido evocar Achille Mbembe, em A Política de Inimizade: a política moderna se tornou o campo de divisão, rivalidade e ódio, onde cidadãos são instrumentalizados como massa de manobra. Claus Offe, por sua vez, inspirado em Carl von Clausewitz, lembra-nos de que a guerra é a continuação da política por outros meios; no caso de Moçambique, a guerra pós-independência deu lugar à guerra dos partidos — uma luta incessante pelo monopólio da consciência popular utilizando estratégias de coacção, sedução e captura das massas, incluindo a juventude, a força crítica que deveria manter o poder sob vigilância.

O povo, elemento neutro do Estado (território, povo e governo), nunca teve partido. O povo é uno; são os partidos que dividem. Mas, em Moçambique, desde a independência, a política foi sequestrada por siglas: a FRELIMO transformou o Estado em propriedade do partido dos gerontocratas; a RENAMO, surgindo como resistência em 1977, também se rendeu à lógica partidária; MDM, nascente em 2009 como alternativa depois de insucesso da Resistência, tornou-se movimento democrático e até agora encontra-se na mesma lógica partidária; o PODEMOS traidor e agora come sozinho e, agora, a ANAMOLA tenta apresentar-se como libertação, mas a história mostra que nenhum partido nasce imune à captura ideológica das massas.

Aqui está o erro fatal de muitos activistas: confundir compromisso social com militância partidária. Ser “do povo” não significa ser “do partido”. Apoiar o povo é vigiar, criticar, denunciar abusos e organizar comunidades. Já a militância é, no fundo, um contrato com uma sigla — e não com a vida colectiva.

Olavo de Carvalho, em O Imbecil Colectivo, alerta para o perigo da emoção colectiva: quando a massa se move pela paixão do momento, perde-se a lucidez, e instala-se a manipulação. Mbembe, em Saída da Grande Noite, acrescenta: as massas capturadas pelo discurso político tornam-se dependentes, submissas, presas à ilusão de que estão a protagonizar a história, quando, na verdade, apenas legitimam novas elites.

Aristóteles chamava o homem de “zoon politikon”, o animal político. Mas atenção: ele falava da vida em comunidade, do cuidado com a polis, da busca pela justiça e pelo bem comum. Ele não falava de partidos. Reduzir política a partido é amputar a democracia, aprisionar o pensamento crítico e trair a essência da vida colectiva.

Portanto, activistas, poetas, escritores e defensores dos direitos humanos: atenção! Não se deixem capturar pelo teatro partidário. O vosso dever não é militar em siglas; é vigiar, organizar, criticar e educar. O campo de luta não é o comité central, mas a escola, o mercado, a aldeia, o hospital. É ali onde o povo se organiza; é ali onde a política autêntica acontece.

A história africana confirma essa lição: Angola e Moçambique e entre outros países do mundo fora, até às verdadeiras revoluções mundiais, conquistaram a independência e derrubaram os sistemas pela força de movimentos populares, mas logo o poder foi sequestrado pela lógica partidária, transformando a nação em trincheira de siglas. Quando confundimos activismo com militância, reforçamos essa captura.

John Locke, no seu famoso livro Segundo Tratado sobre o Governo, dizia: “quando o governo deixa de expressar a vontade colectiva, os cidadãos têm o direito de derrubá-lo.” Mas, em Moçambique, essa máxima perdeu força: como falar em vontade colectiva se o povo é manipulado, dividido e enganado por décadas de promessas? O Estado, por si, não tem vontade própria; apenas exerce poder. Atribuir-lhe subjectividade é criar uma ficção que protege corruptos e anestesia consciências.

Hoje, meus jovens, devemos encarar sem ilusões: Moçambique matou a revolução. A juventude foi transformada em militante, não em revolucionária. Aqueles que deveriam manter a chama crítica e independente foram capturados por um partido. Toda a energia juvenil, que deveria ser motor de mudança, foi convertida em combustível eleitoral. A crítica virou slogan; a liberdade, filiação.

Eis a verdade dura: quando o jovem crítico se torna membro de um partido, a revolução morre. O futuro perde autonomia, a mudança perde fôlego e o espírito revolucionário é sufocado antes de nascer.

Moçambique não precisa de mais partidos. Precisa de consciência, lucidez e vigilância. Precisa de activistas que resistam à sedução das siglas, que entendam que o povo é unidade e soberano, e que partido é apenas divisão e captura. A verdadeira transformação não virá de aplausos fáceis, nem de números impressionantes de filiados. Virá do despertar crítico, da educação, da coragem de agir fora das máquinas de manipulação.

O povo não precisa de salvadores de palco. Precisa de movimentos sociais lúcidos, independentes e resistentes. Precisa de cidadãos que compreendam que a política não é emoção passageira, mas razão, consciência e compromisso com o colectivo.

E sabem por que digo que a juventude matou a revolução? Porque, a partir do momento em que o jovem se torna membro de um partido, a sua liberdade de expressão passa a ser regulada pelo estatuto partidário. A sua voz já não é sua: é mediada, filtrada, moldada às normas internas. O jovem crítico, rebelde, capaz de dizer a verdade contra todos, passa a ser apenas mais um quadro, enquadrado no silêncio institucional. A política deixa de ser espaço de criação colectiva e torna-se apenas um campo de disputa entre siglas.

E o que resta? Apenas o teatro da esquerda contra a direita, da situação contra a oposição. Não haverá mais manifestações gerais contra a corrupção, contra o nepotismo, contra o roubo da soberania popular. Haverá apenas manifestações partidárias, controladas e manipuladas para defender a honra de uma sigla ou atacar outra. O grito colectivo cede lugar ao coro afinado da militância. O povo deixa de ser soberano e passa a ser claque.

O mais grave é que esse processo cria uma nova elite política juvenil, uma geração que acredita que a militância partidária é a forma mais segura de ascensão social. Ser membro de partido, em Moçambique, passa a ser sinónimo de passaporte para o futuro. É uma carreira. É uma identidade. É até uma espécie de religião. O jovem já não sonha em mudar o país; sonha em subir dentro do partido. O activismo que ontem era rebeldia agora é currículo. A revolução vira plano de carreira.

E juridicamente, politicamente, socialmente, eticamente, sociologicamente e até religiosamente, este é o novo paradigma: o jovem moçambicano, antes livre, inconformado e crítico, agora é disciplinado, enquadrado e domesticado. A juventude, que deveria ser a força que questiona e rompe, torna-se a força que sustenta e reproduz o sistema. O espírito rebelde foi dissolvido em estatutos, regulamentos e congressos.

Essa é a tragédia que poucos percebem: não foi apenas a revolução que morreu, foi também a liberdade de expressão juvenil. O jovem que ontem protestava sem pedir permissão hoje terá de pedir autorização ao partido até para sonhar.

E aqui não podemos ignorar um detalhe essencial: Eng. Venâncio Mondlane soube instrumentalizar aquilo que Mbembe chamou de política de inimizade. Ele construiu sua narrativa sobre a ideia de que só há dois campos possíveis: o “nós” e o “eles”. O inimigo externo dá coesão interna, e a juventude, em busca de direcção, aceitou esse maniqueísmo sem perceber o preço. É a lógica de Carl Schmitt em estado puro: a política como distinção entre amigo e inimigo.

E mais: Venâncio explorou, consciente ou não, aquilo que Olavo de Carvalho descreveu como imbecilidade colectiva. Quando milhares de jovens, movidos por raiva, esperança e carência de sentido aderem a uma sigla sem reflexão crítica, não estamos diante de consciência política — estamos diante de catarse colectiva. Quase 30 mil inscrições online em tão pouco tempo não significam revolução; significam captura emocional.

Perguntemos: quantos desses jovens têm independência financeira? Quantos têm casa própria, estabilidade, autonomia real? A maioria ainda depende dos pais, de biscates, de favores, de empregos precários. E, no entanto, são transformados em militantes digitais, soldados de um partido que promete futuro, mas brevemente exigirá o silêncio, a disciplina e a obediência.

Ser membro de um partido não é o mesmo que ser activista. Ser activista é estar ao lado do povo, questionando qualquer poder. Ser militante é estar ao lado de uma sigla, defendendo-a até contra o povo. Muitos desses jovens confundiram as duas coisas. Não é acusação, é diagnóstico histórico: a juventude que poderia ser motor da revolução foi absorvida por uma lógica partidária que já conhecemos.

Talvez Venâncio veja neles o que Aristóteles chamou de zoon politikon, mas a realidade é que ele os transformou em zoon politicus domesticados: seres políticos cuja energia serve não ao bem comum, mas à máquina partidária. O movimento livre virou tropa organizada. A rua virou estatuto. A revolução virou número de filiados.

As consequências futuras da captura juvenil pelo partido serão profundas e estruturais. Primeiro, a liberdade de expressão desaparecerá no espaço partidário. Cada membro será condicionado a respeitar normas internas, estatutos e hierarquias. A contestação deixará de ser legítima, porque qualquer crítica poderá ser interpretada como deslealdade. A emoção do engajamento será substituída pelo medo de represálias e pela necessidade de autopreservação.

Em segundo lugar, o espaço de debate livre se reduzirá à disputa entre “esquerda e direita” ou entre “filiados do partido X e do partido Y”. Não haverá mais diálogos sociais genuínos, nem manifestações populares autônomas. Tudo se submeterá à lógica partidária: cada acção, cada palavra, cada gesto será filtrado pelo interesse do partido. A autonomia do jovem activista será sacrificada em nome de uma carreira política ou de aprovação interna.

Terceiro, o activismo crítico e independente será sufocado. Aqueles que antes denunciavam injustiças e organizavam comunidades livres agora terão que navegar pelos limites estabelecidos pelo partido. Silêncio institucional será imposto: respeitar estatutos e linhas oficiais se tornará mais importante do que defender o bem colectivo. A consciência crítica será moldada pela disciplina partidária, e não pelo compromisso com a justiça social.

Quarto, surgirá a intolerância interna: qualquer jovem que tente questionar, sugerir mudanças ou agir fora das normas será rapidamente marginalizado ou expulso e intimidado. A competição deixa de ser pelo bem comum e passa a ser pela carreira política, pelo reconhecimento dentro da sigla, pelo “passaporte” para a ascensão no Estado. Juridicamente, politicamente e socialmente, a lógica de submissão ao partido sobrepõe-se à lógica da cidadania.

Finalmente, essa captura emocional cria um efeito de longa duração: a juventude perde a sua capacidade de mobilização autônoma. Movimentos sociais que antes poderiam gerar transformação real tornar-se-ão extensões do partido. A história se repete: a energia revolucionária é domesticada, a crítica se limita, e o poder real permanece nas mãos de poucos líderes. O ciclo de dependência, adesão cega e imitação colectiva reforça a perpetuação de uma política de inimizade, que divide, manipula e aprisiona.

Portanto, activistas e jovens moçambicanos: compreender essa dinâmica não é pessimismo, mas prevenção. Identificar a captura emocional, a ilusão de protagonismo e a substituição da consciência pelo estatuto é o primeiro passo para resistir. A verdadeira revolução não está em assinar formulários, aderir a partidos ou buscar popularidade: está na vigilância crítica, na educação social, no engajamento independente e na recusa de ser instrumentalizado.

E aqui está a questão: a história dirá se esse movimento foi libertação ou captura. Mas, para quem observa criticamente, já é claro: a juventude que deveria questionar o sistema foi atraída para dentro dele, e o preço será alto. O tempo dirá.  Assim seja!

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