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- Saúde masculina em crise
O cenário da saúde pública masculina em Moçambique foi pintado com cores alarmantes este domingo, durante o lançamento oficial da campanha Novembro Azul na cidade da Matola, província de Maputo. O Ministério da Saúde (MISAU) revelou dados preocupantes que colocam em choque a literacia e o acesso à saúde para uma fatia considerável da população.
Luísa Muhambe
O Ministro da Saúde, Ussene Isse, divulgou que cerca de 30% dos homens moçambicanos, uma proporção chocante, sofrem de problemas directamente relacionados com o cancro da próstata. Considerando que os homens representam aproximadamente 48 por cento dos estimados 34 milhões de habitantes do país, este número traduz-se em milhões de potenciais casos que exigem atenção médica e intervenção imediata.
A próstata, uma pequena glândula que faz parte do sistema reprodutor masculino, é a sede de uma das formas mais comuns de cancro entre homens a nível global. Em Moçambique, a situação é agravada por múltiplos factores de risco que contribuem para o aumento da incidência.
O Ministro Isse alertou que o consumo excessivo de tabaco e álcool, hábitos que são socialmente aceites ou culturalmente enraizados, estão entre os principais motores desta crise de saúde. Adicionalmente, a crescente incidência de acidentes vasculares cerebrais (AVC) no país indica uma população com padrões de vida cada vez mais propensos a doenças crónicas não transmissíveis (DCNT).
Os dados oficiais confirmam esta tendência preocupante: a mortalidade associada a doenças crónicas não transmissíveis (DCNT) saltou de apenas 05% em 2005 para cerca de 30% na actualidade. Esta escalada reforça a necessidade urgente de prevenção e sensibilização em massa.
A estatística de novos diagnósticos revela a dimensão do desafio para o sistema nacional de saúde. Entre 2022 e 2025, as autoridades sanitárias diagnosticaram mais de 1.500 novos casos de cancro da próstata por ano. A taxa média de mortalidade associada à doença atinge os cinco por cento, um número que o MISAU está determinado a reduzir através do diagnóstico precoce e da melhoria do tratamento. No entanto, este objectivo esbarra numa barreira cultural e comportamental profunda.
Isse identificou abertamente a principal fraqueza do sistema nacional de saúde: a falta de adesão dos homens aos serviços médicos.
“Os homens têm muito medo de ir aos hospitais, não gostam. As pessoas que mais frequentam os nossos serviços são as mulheres, porque estão com as crianças. Uma das grandes fraquezas do sistema nacional de saúde são os homens”, afirmou categoricamente o governante.
Este medo e a relutância em procurar ajuda médica, muitas vezes alimentados por mitos ou pelo estigma associado aos exames de próstata, criam um círculo vicioso onde a doença é diagnosticada em estádios avançados, limitando drasticamente as hipóteses de sucesso do tratamento.
Compromisso do executivo e a campanha Novembro Azul
Perante este cenário, o Executivo garantiu estar a desenvolver e a implementar novos programas de saúde direccionados especificamente ao público masculino, com o objectivo primário de inverter esta tendência de baixa adesão e promover massivamente a prevenção e o diagnóstico precoce.
“Se nós não aproveitarmos esta janela de colocar intervenções focalizadas para o homem, teremos muitos problemas de saúde pública no nosso país”, advertiu o Ministro Isse, sublinhando que a inacção terá custos sociais e económicos incomportáveis.
O lançamento do Novembro Azul, mais do que um evento cerimonial, foi acompanhado por uma jornada de saúde prática. Cerca de 70 médicos de diversas especialidades mobilizaram-se para realizar testes e avaliações clínicas em várias patologias, incentivando os homens a dar o primeiro passo para o auto-cuidado. A iniciativa demonstra o esforço do Ministério em levar os serviços de saúde para mais perto da população, tornando-os acessíveis e menos intimidatórios.
A campanha Novembro Azul 2025 em Moçambique torna-se, assim, mais do que uma iniciativa de sensibilização; é um apelo urgente à mudança de comportamento e uma tentativa crucial de salvar vidas, combatendo a negligência e o estigma que têm permitido que o cancro da próstata se torne uma ameaça tão disseminada à saúde masculina no país. A expectativa é que as acções focalizadas consigam, finalmente, levar os homens moçambicanos aos hospitais, antes que seja tarde demais.



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