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Nilza Dacal
Moçambique tem tudo para ser grande. Fomos abençoados pela natureza com terras férteis, um mar abundante, riquezas minerais e, sobretudo, uma juventude vibrante, criativa e cheia de talento. O que nos falta não é potencial, mas a decisão colectiva de transformar esse potencial em progresso. O desenvolvimento não é uma obra do acaso, mas o resultado de uma visão clara, de disciplina estratégica e de coragem política.
Vivemos à beira da maior transformação global da história moderna. Nos próximos cinquenta anos, o mundo mudará mais do que nos últimos duzentos. A revolução digital, a economia verde, a inteligência artificial e as novas formas de produção estão a redesenhar fronteiras e a redefinir o conceito de poder. As nações que planeiam e agem hoje colherão protagonismo amanhã, já as que hesitam tornar-se-ão reféns da sua própria inércia. É aqui que precisamos de decidir de que lado da história queremos estar, se assumimos o papel de protagonistas, com políticas públicas consistentes, boa governação, instituições sólidas e uma cidadania consciente, ou continuaremos a viver entre promessas adiadas e planos que não se concretizam. Parece que o tempo das hesitações terminou, chegou a hora de alinhar a ambição nacional com acções concretas, que passam, inevitavelmente, por uma escolha estratégica: adoptar o patriotismo económico como política de Estado.
Mais do que um ideal romântico, o patriotismo económico é uma revolução silenciosa, uma nova forma de pensar o desenvolvimento a partir das nossas próprias forças e recursos. É o caminho para criar riqueza sustentável, gerar verdadeiros milionários moçambicanos fora do domínio político e consolidar uma economia nacional que sirva o povo e não interesses externos. As nações que hoje inspiram o mundo, tais como a China, a Coreia do Sul ou Ruanda, compreenderam que o progresso começa dentro das fronteiras, com uma economia produtiva, inovadora e patriótica. O seu sucesso resulta de um pacto nacional em torno da produção, da valorização do trabalho e da defesa dos interesses económicos internos.
Em Moçambique, este debate é urgente. Décadas de independência política não se traduziram em independência económica. O país continua a depender de exportações primárias, de capitais estrangeiros e de políticas económicas muitas vezes ditadas de fora. Não há soberania sem economia forte, e nenhum país se liberta verdadeiramente enquanto depender do que outros produzem.
Chegou o momento de transformar o discurso em decisão, e a ambição em reformas concretas. Nenhum país alcança o progresso apenas com boas intenções, é preciso construir as bases institucionais, económicas e sociais que sustentem o crescimento de longo prazo. O patriotismo económico só se tornará realidade se for traduzido num programa nacional de reformas estruturais, capaz de libertar as energias produtivas do país, reanimar o sector privado e reorientar o Estado para o papel que lhe cabe: o de facilitador e guardião do interesse público. Essas reformas não são uma opção, mas uma necessidade histórica, pois representam a passagem da dependência à autonomia, do assistencialismo à produtividade, e da improvisação à visão estratégica. É por meio delas que Moçambique poderá finalmente conquistar a independência económica que faltou à sua independência política.
- Reforma Fiscal e Tributária
O sistema fiscal deve deixar de penalizar quem produz. É preciso simplificar impostos, reduzir a carga tributária sobre sectores produtivos, como a agricultura, a indústria e a tecnologia e eliminar a burocracia que sufoca o investimento. O Estado deve ser um parceiro estratégico do empresário nacional, criando incentivos para a transformação local de matérias-primas e para a exportação de produtos acabados. Esta reforma não é apenas económica, é moral. Um Estado que tributa o trabalho e recompensa a especulação financeira corrói o espírito produtivo de uma nação.
- Reforma do Ambiente de Negócios
Nenhum país prospera quando o investimento é travado por entraves administrativos. É urgente desburocratizar, digitalizar e tornar previsível o sistema de licenciamento e de regulação económica. O empreendedor moçambicano precisa de liberdade para criar, inovar e competir. A segurança jurídica e a estabilidade regulatória são o oxigénio de qualquer economia moderna.
- Reforma Financeira
Sem acesso a crédito, o sonho empresarial morre antes de nascer. O sistema financeiro deve servir a economia real, e não apenas o consumo. É fundamental fortalecer bancos de fomento, criar linhas de crédito acessíveis e estimular fundos de investimento nacionais voltados para a produção, a inovação e as exportações. O capital deve circular a favor de quem cria valor e não de quem o extrai sem retorno social.
- Reforma Industrial e de Conteúdo Local
O futuro de Moçambique não pode continuar a ser exportar riqueza em bruto e importar pobreza transformada. Precisamos de indústrias que processem o algodão, o gás, o carvão, o pescado e os produtos agrícolas dentro do país. A política de conteúdo local deve ser um instrumento de emancipação económica, garantindo que as grandes obras e concessões nacionais priorizem empresas moçambicanas e gerem emprego digno. Transformar o que é nosso é mais do que economia, é soberania.
- Reforma Educacional e Tecnológica
Não há desenvolvimento sem conhecimento. O sistema de educação deve ser reorientado para as necessidades reais do mercado e da economia do futuro. É tempo de formar técnicos, engenheiros, gestores e inovadores capazes de pensar soluções para Moçambique, e não apenas candidatos a empregos públicos. Educar para produzir, inovar e competir deve ser o novo lema nacional.
- Reforma da Administração Pública
A máquina do Estado precisa de deixar de ser um obstáculo e tornar-se um exemplo. A profissionalização, a meritocracia e o combate firme à corrupção devem ser as bases de uma nova cultura de gestão pública. Um Estado ético, eficiente e transparente é o maior catalisador do crescimento económico e o mais poderoso símbolo de patriotismo.
- Reforma Agrária e de Segurança Alimentar
Moçambique possui um dos solos mais férteis da África Austral, mas o campo continua abandonado e dependente. É urgente transformar a agricultura num sector empresarial competitivo, com acesso a insumos, crédito, tecnologia e mercados. A verdadeira independência começa no prato, quando o povo se alimenta do que a sua terra produz.
- Reforma do Turismo Sustentável e Cultural
O turismo é a indústria invisível que pode tornar-se uma das maiores fontes de riqueza e emprego para Moçambique. Com praias paradisíacas, parques naturais, património histórico e uma cultura vibrante, o país tem potencial para ser um dos destinos mais procurados de África. No entanto, o turismo deve ser visto não apenas como lazer, mas como plataforma de desenvolvimento económico, integração territorial e promoção da identidade nacional. O exemplo do Egipto é inspirador: recentemente, o país anunciou um investimento de 1 bilião de euros no sector do turismo, compreendendo que esta indústria é um pilar estratégico para atrair divisas, criar empregos e projectar a sua imagem no mundo. Moçambique, com uma localização geográfica abençoada, situada entre o Índico e o coração económico da África Austral, pode seguir um caminho semelhante. Investir em infra-estruturas modernas, qualificação de recursos humanos e valorização do turismo interno é uma forma inteligente de multiplicar a riqueza nacional e reduzir desigualdades regionais. O turismo comunitário e sustentável pode transformar vilas costeiras, reservas naturais e zonas rurais em pólos de inclusão e prosperidade, garantindo que a riqueza gerada permaneça nas comunidades locais. O turismo patriótico é aquele que valoriza o que é nosso, preserva o que é de todos e promove o que nos distingue.
Essas reformas não são apenas um programa económico, são a base de um novo contrato social. Um pacto entre o Estado e a sociedade, entre o governo e os cidadãos, entre quem governa e quem produz. Um pacto em que o patriotismo económico se converte na bússola da nossa soberania e no motor da nossa prosperidade. Mais do que um conjunto de políticas, trata-se de uma mudança de mentalidade. É compreender que o desenvolvimento não virá de fora, mas da nossa capacidade de criar valor dentro do país. É acreditar que podemos produzir o que consumimos e exportar o que transformamos. O verdadeiro patriotismo não está apenas em cantar o hino ou erguer a bandeira. Está em trabalhar com integridade, servir com honestidade e sonhar com responsabilidade. O progresso constrói-se nas escolas que educam, nas empresas que inovam, nos líderes que inspiram e, sobretudo, nos cidadãos que acreditam. O futuro não se espera. Constrói-se, com visão, coragem e unidade. E o destino de Moçambique será tão grande quanto a vontade do seu povo de transformar o patriotismo económico na força motriz de uma nova era de dignidade, desenvolvimento e esperança para África e para o mundo.



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