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John Kanumbo
Eu conheço aquela estrada. Não é teoria, não é “informação de fonte”, não é mapa desenhado num gabinete climatizado.
A EN380 — entre Macomia e Awasse — é uma ferida aberta no corpo de Cabo Delgado. É um corredor estreito, florestado, com densas matas que sempre serviram tanto de abrigo como de ameaça. Desde os meus 16 anos que aquela zona é falada como “perigosa”, e nos últimos 10 anos tornou-se literalmente uma faixa de guerra.
Quem conhece o terreno sabe: A densidade da mata, os longos troços sem aldeias, a vegetação fechada, a ausência de patrulhamento contínuo — tudo aquilo é uma aula prática de como se fabrica vulnerabilidade. Não é necessário ser especialista em segurança: basta ter passado ali, a pé ou de chapa, para perceber que aquela estrada pede emboscada.
Porquê ali? Porque ali é fácil matar e difícil proteger. Os terroristas sabem disso. As autoridades sabem disso. O povo sabe disso. Mas apenas o Estado finge que não sabe.
E foi exactamente ali, onde toda a gente teme, que mais duas vidas foram ceifadas. Explosão, mina artesanal — uma técnica repetida, conhecida, previsível. E, no entanto, tratada pelo Estado como surpresa ou, pior ainda, como “desinformação”.
A Geografia não mente — quem mente é a política. Uma análise séria não pode ignorar o óbvio: Cabo Delgado tem zonas onde a combinação entre geografia, abandono e conflito cria corredores perfeitos para ataques. A EN380 é um desses corredores.
Academicamente, chamamos isso de zona permissiva de insurgência: ausência de presença estatal contínua; floresta densa; dispersão populacional; poucas barreiras de vigilância; conhecimento local aprofundado por terroristas. Popularmente, chamamos “lugar onde quem passa, reza.”
É simples assim. Mas por que continua assim? Essa é a parte que ninguém numa conferência governamental vai dizer — mas precisa de ser dita: Porque há interesses que lucram com a insegurança. Recursos naturais sempre foram um catalisador de conflito. Em Cabo Delgado, onde há gás, rubis, madeira, rotas e contrabando, há também silêncio político estratégico.
Uma população deslocada facilita concessões. A terra vazia facilita exploração. A guerra cria justificação para contratos emergenciais sem escrutínio.
Porque assumir o fracasso é politicamente mais caro do que enterrar civis. Enquanto o Estado disser “há segurança”, garante a imagem. Enquanto disser “é desinformação”, garante controlo narrativo.
Enquanto negar, protege o partido — não o povo. Porque a governação prefere combater a informação em vez de combater a insurgência. É mais fácil chamar o povo de mentiroso do que admitir que se falhou no básico: proteger vidas.
O Problema não é falar — é morrer. Quando o povo denuncia, dizem que “espanta investidores”. Como se o investidor fosse mais importante do que o moçambicano que morre todos os meses naquela estrada.
A verdade é outra: não é a notícia que afugenta investimentos; é o terrorismo. É a incompetência. É a mentira oficial. E muita gente — incluindo dentro do próprio Estado— sabe que, se a Frelimo perder poder, acaba o teatro da guerra lucrativa. E acaba o silêncio. E é por isso que se tenta silenciar quem fala.
O ataque de 5 de Dezembro não é episódio isolado — é sintoma. Esse episódio é mais um degrau na degradação da segurança ao norte. E como qualquer análise séria mostra e eu mostro: quando o Estado deixa uma estrada estratégica vulnerável, duas coisas acontecem sempre: o inimigo ocupa; o povo morre. E é exactamente isso o que está a acontecer.
A EN380 é o espelho do País. Aquela estrada é o País inteiro em miniatura: rica em potencial, pobre em protecção. Vasta em recursos, curta em responsabilidade. Cheia de discursos, vazia de segurança. Visível no mapa, invisível nas prioridades do Estado. E, por isso, digo, com simplicidade e com rigor: Enquanto a Frelimo continuar a governar pela negação, o povo continuará a enterrar filhos e a fugir de estradas onde deveria circular em paz. A EN380 não é “zona de insurgência”. É zona de abandono. E abandono, quando dura anos, produz exactamente o que vimos: morte, medo e mentiras oficiais.



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