É Dezembro, a festa é agora, as contas depois…

OPINIÃO
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Arão Valoi

Estamos em Dezembro. Aquele mês que sempre chega com um sorriso perigoso. Um presente envenenado. Não bate à porta, não pede licença e não avisa que, por trás das luzes, da música e da sensação de encerramento de um ciclo, traz consigo uma espécie de amnésia colectiva.

É o mês em que desligamos o modo racional e entramos num estado de excepção emocional, como se a vida tivesse decretado férias para o nosso juízo normal. Tudo é permitido, tudo é compreensível, tudo é desculpável — afinal, é Dezembro.

Neste mês, o dinheiro perde o seu peso real. Torna-se abstracto, simbólico, quase fictício. Gastamos como se o futuro fosse uma teoria distante, como se o salário tivesse propriedades regenerativas e como se Janeiro fosse apenas uma palavra sem consequências. Compramos mais do que precisamos, oferecemos mais do que podemos e festejamos como se a abundância fosse uma condição natural e permanente, sem fim.

Os planos feitos para os meses de Janeiro, Fevereiro e Março ficam esquecidos numa gaveta qualquer, soterrados por postais, brindes, caixas de cerveja, vinhos e promessas que não sobrevivem ao calendário. O curioso é que este delírio colectivo acontece num espaço de tempo ridiculamente curto. Entre a véspera do Natal e os primeiros dias do novo ano, comprimimos uma carga emocional e financeira que não suportaríamos durante mais de uma semana. É como se tentássemos viver vários meses numa única sequência de dias, acreditando ingenuamente que o corpo, a mente e a conta bancária aguentam qualquer coisa quando embalados pela música certa e por um copo sempre cheio.

Depois, o relógio avança. Janeiro entra sem cerimónias, como alguém que não participou da festa, mas veio cobrar a conta. É nesse momento que a consciência reaparece, ainda sonolenta, mas implacável. Lembramo-nos das matrículas das crianças, do material escolar, dos uniformes, dos seguros para as viaturas, dos impostos, da renda da casa e de todas aquelas obrigações que nunca aceitam desculpas festivas. O dinheiro, entretanto, evaporou-se. Não fugiu: foi convidado a sair em clima de celebração.

Mas Dezembro não cobra apenas no bolso. Cobra também no corpo, nas estradas e nas estatísticas. É o mês em que muitos confundem celebração com imprudência e alegria com negação do risco. Bebemos e conduzimos, como se a estrada tivesse piedade, como se os outros condutores fossem mais atentos do que nós e como se a morte tivesse escolhido férias colectivas. Os acidentes de viação que se repetem todos os anos pelo País não são obra do acaso; são capítulos previsíveis de uma história mal escrita, onde a pressa, o álcool, a irresponsabilidade e a sensação de invencibilidade se sentam ao volante. É verdade que aqui entram também outros factores como a qualidade das estradas – mas disso, todos temos conhecimento.

Quando o pior não acontece depois de um acidente, ficam as marcas. Corpos que não voltam a ser os mesmos, mentes que carregam traumas silenciosos e famílias que aprendem, à força, que uma noite mal calculada pode durar uma vida inteira.

O mesmo roteiro repete-se nas praias e piscinas, onde a água, que deveria refrescar e aliviar, transforma-se em cenário de tragédias evitáveis. Entramos no mar ou na piscina sem condições, sem atenção e sem respeito, como se a embriaguez fosse um colete salva-vidas e não um risco adicional.

Esta crónica não é um ataque à festa, nem um elogio à tristeza. É um apelo claro à pausa. Um convite urgente à calma num tempo que glorifica o excesso. Planificar não é estragar a celebração; é permitir que ela não se transforme em arrependimento.

Para quem não tem o décimo terceiro salário, a matemática é simples e dura: Janeiro terá de ser pago com o salário de Dezembro. Ignorar isso não é optimismo, é negação.

Depois, não faz sentido vestir o discurso da injustiça quando a dificuldade chega. Nada de pedidos desesperados, cobranças emocionais ou lamentos públicos quando, semanas antes, as escolhas foram feitas com plena consciência — ainda que sob o disfarce da euforia.

A solidariedade é um valor nobre, mas não pode ser convocada apenas quando a conta chega. Todos enfrentamos pressões semelhantes, vivemos num contexto económico apertado e sentimos o peso das expectativas sociais. O que muda é a forma como cada um escolhe atravessar o mês de Dezembro.

A calma, hoje, tornou-se quase um acto de resistência. Resistir à comparação, ao consumo desnecessário, à pressa e à falsa ideia de que celebrar é exagerar. Celebrar, na verdade, deveria ser preservar a vida, a saúde, a dignidade e o futuro imediato. Dezembro não precisa de ser um campo minado de excessos para ser memorável. Precisa apenas de consciência suficiente para que, quando Janeiro chegar — como sempre chega — não sejamos surpreendidos pela própria irresponsabilidade.

No fim das contas, Dezembro não é o problema. O problema é aquilo que escolhemos esquecer quando ele chega. E lembrar, mesmo em meio às luzes e à música, pode ser o maior gesto de maturidade que nos resta.

Festas Felizes e um Próspero Ano Novo!

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