Máquina de Ecografia do HCM avariada há mais de três meses

DESTAQUE SAÚDE
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Pacientes do Hospital Central de Maputo (HCM), incluindo gestantes e parturientes, enfrentam um drama silencioso: há mais de três meses, a única máquina de ecografia do hospital está avariada. Doentes com diversas enfermidades, que dependem do exame para diagnóstico ou preparação de cirurgias, vêem-se obrigados a recorrer a clínicas privadas, onde o custo do serviço ronda os quatro mil meticais, um valor que muitas famílias não conseguem suportar. Para estes pacientes, a avaria não é apenas um problema técnico: é uma barreira que põe em risco a saúde e a vida de quem mais precisa.

Edmilson Mate

A situação afecta doentes em diferentes estágios de tratamento, desde mulheres grávidas que necessitam de acompanhamento regular até pacientes que aguardam por cirurgias, todos confrontados com a mesma barreira: a falta de um exame essencial numa unidade hospitalar pública de referência nacional.

Segundo apurou o Evidências, os utentes que necessitam de ecografia para efeitos de diagnóstico ou preparação cirúrgica são forçados a procurar clínicas privadas, onde o valor do exame é elevado para a maioria das famílias.

Sem alternativas no sistema público, muitos utentes vêem-se forçados a desembolsar cerca de quatro mil meticais em clínicas privadas para realizar um exame considerado básico. Para estes pacientes, a avaria do equipamento não representa apenas um constrangimento administrativo, mas um factor que agrava o sofrimento, prolonga a dor e coloca em risco a sua saúde e, em alguns casos, a própria vida.

Mais grave ainda, existem alternativas nalgumas unidades sanitárias da capital, mas o HCM justifica que não pode transferir os pacientes para outras unidades sanitárias de menor escalão por se tratar de um hospital quaternário, com capacidade para casos complexos.

A avaria compromete seriamente o diagnóstico clínico e impede a realização de várias cirurgias. Para avaliar o impacto da situação, a equipa do Evidências deslocou-se ao Hospital Central de Maputo e ouviu alguns dos utentes afectados.

Joana (nome fictício) é uma das pacientes que sente na pele as consequências da falta do equipamento. Com um caroço e fortes dores no umbigo, afirma estar há mais de três anos à procura de uma solução para o seu problema de saúde.

“Iniciei o tratamento no Hospital Geral de Mavalane (HGM), em 2022, devido às fortes dores. Depois de muito tempo de espera, sem solução, um médico aconselhou-me a iniciar um novo processo no HCM. Quando cheguei aqui, comecei tudo de novo, mas agora dizem que a máquina de ecografia está avariada. Tenho ligado várias vezes, sempre dizem que vão ligar, mas nunca ligam. Estou cada vez mais doente e preciso entregar os exames dentro de dias. Sem este exame, não posso fazer a cirurgia, e nas clínicas privadas o valor cobrado é elevado, e eu não tenho emprego”, lamenta.

Marta (nome fictício), outra utente do HCM, foi encontrada no Departamento de Radiologia. Ela contou à nossa equipa que sofre de hérnia umbilical há cerca de três anos. Durante as consultas, um médico cirurgião recomendou a realização de uma ecografia para confirmar o tamanho da hérnia e decidir sobre a necessidade de intervenção cirúrgica.

Há quem morre por não ter dinheiro para fazer exame na clínica

De acordo com Marta, os resultados do exame deveriam ser entregues na próxima semana. Contudo, afirma não ter condições financeiras para recorrer a uma clínica privada, sendo essa a principal barreira para a continuidade do seu tratamento.

“Sofro de hérnia umbilical há três anos. Tentava sempre tomar medicamentos para ver se aliviava, mas não resultou. Decidi vir ao HCM, iniciei todo o processo, mas estou há muito tempo a vir aqui e dizem sempre que a máquina está com problemas. Estou entre a espada e a parede, porque sem o exame e a cirurgia, vou continuar doente”, explicou.

Questionada sobre os próximos passos, Marta, visivelmente triste, disse não saber o que fazer:

“Não sei, só posso continuar à espera. Não tenho dinheiro para pagar uma clínica privada. Se tivesse, iria logo, mas como sou pobre, estou aqui a morrer aos poucos neste hospital”, desabafou, em lágrimas.

O Evidências contactou o Departamento de Radiologia do HCM. Depois de muita insistência, Arsénia Tembe, representante do sector, reconheceu a existência da avaria, mas considerou que a situação “não é tão grave quanto parece”.

Segundo Tembe, existem hospitais na periferia que podem responder à demanda, como o Hospital Provincial, José Macamo e o Hospital Geral de Mavalane. No entanto, questionada se os pacientes estão a ser formalmente referenciados para essas unidades, explicou que, por enquanto, o HCM ainda não está a encaminhar os utentes.

“De princípio, como ainda está em curso o processo de resolução do problema, não estamos a referenciar os pacientes. Quando tivermos a confirmação de que a reparação vai demorar mais tempo, então iremos encaminhar”, afirmou.

A responsável acrescentou, ainda, que, nos casos de urgência, o hospital dispõe de ecógrafos móveis nos leitos e enfermarias, utilizados para atender pacientes em estado crítico.

“Para situações de urgência, os médicos deslocam-se com os ecógrafos disponíveis e realizam os exames necessários. O que não estamos a atender neste momento são os pacientes em regime ambulatório”, esclareceu.

Por fim, Arsénia Tembe explicou que a demora na resolução da avaria está ligada à complexidade técnica dos equipamentos de radiologia e à necessidade de importação de peças.

“A radiologia é uma área muito sensível. A maioria das peças não é produzida no país e depende de processos de importação, o que condiciona o tempo de reparação. Só após esse processo é que poderemos saber quanto tempo a situação irá durar”, concluiu.

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