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- Cheias apagam o verde nas baixas de Manhiça e Boane e anunciam ano da Fome
- Mais de 30 mil hectares inundados só na Manhiça: produção agrícola em colapso
- “Desde que nasci, nunca vi cheias assim”: agricultores sem nada para recomeçar
- Desesperados, agricultores pedem apoio urgente para salvar a próxima campanha agrícola
- “Não foi só a chuva”: produtores apontam falhas na gestão hídrica
O verde dos campos deu lugar a um manto de água e lama. A subida do caudal do rio Umbeluzi, em Boane, e do rio Incomáti, em Marracuene e Manhiça, transformou os principais celeiros da Província de Maputo em cenários de destruição, arrasando vastas áreas de produção agrícola, destruindo culturas, interrompendo ciclos produtivos e lançando centenas de produtores na incerteza. Agricultores relatam perdas totais, ponderam abandonar a actividade e apontam a gestão das barragens como um dos factores que agravaram as cheias. São milhares de famílias sem nenhuma esperança de colheitas, enfrentando o risco real de fome na Província de Maputo. Para especialistas em hidrologia, quase todas as barragens em Moçambique foram projectadas para cumprir funções económicas ou sociais, como o abastecimento de água às cidades, irrigação ou geração de energia.
Edmilson Mate & Luisa Muhambe
De acordo com os dados apresentados pelas autoridades de Boane e da Manhiça, o impacto das inundações no sector agrário e pecuário é catastrófico, totalizando dezenas de milhares de hectares perdidos e milhares de famílias afectadas, o que agrava o risco de insegurança alimentar não só nos dois distritos, como também em toda a Província de Maputo.
Só na Manhiça estima-se que dos 30.700 hectares inundados, cerca de 14.000 hectares de culturas diversas foram dados como perdidos devido ao tempo de permanência na água, afectando directamente 6.000 famílias e cerca de 10.000 hectares de pastagens foram inundados, resultando na perda confirmada de 4.000 cabeças de gado e colocando outras 5.000 em risco, afectando 1.200 criadores.
Já em Boane, embora o mapeamento oficial ainda esteja em curso, os dados preliminares e os relatos dos grandes produtores confirmam um cenário de ruína. A estimativa é de que mais de 200 hectares áreas agrícolas tenham sido atingidas só na área autárquica.
Nos dois distritos, o cenário é de absoluta catástrofe. Onde antes o verde das plantações dominava a paisagem, hoje estendem-se campos devastados, cobertos por lama espessa e restos de culturas destruídas. O mesmo cenário verifica-se também em Marracuene.
Hectares inteiros de milho, banana, cana-de-açúcar, batata, tomate, entre outras culturas, apodreceram depois de longos dias submersos, sem qualquer possibilidade de recuperação. Nem os infinitos bananais da Bananalândia e canaviais de Maragra e Xinavane, conhecidos por culturas mais resistentes à água, escaparam à fúria das cheias.
Produtores em Boane relatam perdas milionárias e criticam gestão de barragens

Em zonas como Mazambanine e Marconi, a força das águas transformou campos de produção em verdadeiras valas naturais. Sem alternativas, os produtores clamam pelo apoio do Governo para tentarem se reerguer.
Para atravessar de uma margem à outra, a equipa do Evidências teve de recorrer a embarcações. A única ponte que liga à localidade de Mazambanine encontra-se completamente submersa, isolando a comunidade e dificultando o escoamento da produção e a chegada de assistência aos produtores afectados.

Mazambanine é o testemunho da destruição das inundações no distrito de Boane, expondo a fragilidade do sector agrário perante a gestão das infra-estruturas hídricas. Dois dos maiores produtores da região, Agribusiness System e Alberto Augusto Teixeira (AAT), estimam perdas que, somadas, ultrapassam os 32 milhões de meticais. Embora as histórias se cruzem na lama que cobriu os campos, os relatos revelam dimensões distintas de um desastre que ameaça a segurança alimentar e a estabilidade de centenas de famílias.

Para Chikusi Mwane, proprietário da Agribusiness System, o cenário de 2026 é uma repetição agravada do que viveu há três anos, mas com uma causa que considera puramente humana. Nos seus 15 hectares, onde 10 estavam em plena produção, a água atingiu um metro e meio de altura, inutilizando tudo o que encontrou pelo caminho.
“O que aconteceu em 2023, aconteceu de novo. Não podemos culpar a água. E eu falo isso porque não faz sentido que dentro de 10 dias, ou uma semana, meu campo já esteja assim. Se alguém tivesse começado a tirar a água, o estrago seria menor. Você não pode continuar com uma barragem com 98% sabendo que vai chover muito. Eles estão a gerir mal as barragens”, denuncia Mwane.
“Não se recupera nada na machamba”
O impacto financeiro na Agribusiness é estimado em 12 milhões de meticais. Além das culturas de alface, tomate e pepino, a força das águas destruiu estufas e alterou a própria geografia da propriedade.
“A estufa foi destruída. Parece que alguém saiu com uma velocidade de 120 km e bateu ali. Não se recupera nada numa machamba onde a água passa um metro e meio. Aqui andava barco em cima desta machamba”, desabafou.
Socialmente, a paragem da produção afecta directamente 30 trabalhadores permanentes e até 60 sazonais, mas o golpe maior recai sobre as revendedoras locais.
“Temos 200 mamanas. Por isso, este campo é chamado Mercado Capulana. A vida destas 200 mamanas está parada neste momento. Todos os dias, de manhã, isto ficava cheio de alface nas ‘xidjumbas’ das mamanas. Agora, vou ter de cortar os trabalhadores a metade. Infelizmente, nem dinheiro para pagar indemnização tenho”, lamenta o produtor, apelando a um financiamento bonificado para os produtores locais.
“Tivemos uma perda de cerca de 20 milhões”

O mesmo cenário vive-se na empresa Agro-pecuária Alberto Augusto Teixeira (AAT). Segundo Boaventura Orlando, agrónomo da farma, 13 hectares de culturas diversas foram-se com a água, um prejuízo financeiro de 20 milhões de meticais, se incluído o equipamento destruído.
“Os impactos são altos. Estamos a falar de treze hectares de culturas diversas como tomate, pimenta, pepino e milho, perdidos. Fora os insumos, fitas, tubagem… isso não está contabilizado ainda”, explica Orlando.
A AAT, que foca 95% da sua contratação em mão-de-obra feminina, vê-se agora obrigada a parar e o abandono da actividade não está posto de lado.
“Já pensámos mesmo em fechar, mas a solução é continuar a fazer, mas esperamos que o nosso governo nos ajude. Diz-se que vem dinheiro para as cheias, mas até aqui nem um pouquinho chegou”, lamentou Alberto Texeira, propretário da AAT.
Visivelmente abatido, Alberto Texeira também aponta o dedo às barragens, alegando se tratar de uma falta de respeito pelo ciclo produtivo.
“A barragem também não pode reter água, tem de a deixar passar. Se tivesse uma gestão mais equilibrada, isso minimizaria as perdas. Temos de contar com a água que vem e libertar antes para receber as outras. O apoio mais urgente agora seriam insumos e sementes. A cidade espera por nós para produzir, e nós gostamos de trabalhar, mas sem apoio é difícil recuperar o solo que perdeu todos os macronutrientes com a lixiviação”, conclui.
Nem mesmo os pequenos produtores conseguiram escapar à fúria das águas que voltaram a atingir a zona sul do país. Em Boane, Luís Manhica, produtor e florista há mais de dez anos, viu o seu investimento ser destruído pela segunda vez.
“Depois daquelas cheias de 2023, tivemos um furo que ficou completamente inundado e perdemos tudo. Agora aconteceu outra vez e voltámos a perder os nossos equipamentos e plantas”, lamenta.
Segundo o produtor, a água cobriu praticamente toda a área de produção, afectando várias das plantas, sobretudo nas zonas mais baixas do terreno. Luís Manhica estima em cerca de 1,5 milhões de meticais os prejuízos.

“Aqui era tudo água. Todas as plantas que estavam nesta zona morreram”, explica, lamentando a perda do seu investimento no sistema de captação de água que ficou comprometido. O furo que abastecia a machamba ficou submerso, obrigando o produtor a abrir um novo poço manual.
Estes três produtores são apenas uma gota no oceano. Dados não oficiais indicam para milhares de hectares perdidos, incluindo parte das zonas de culturas de rendimento como as farmas de batata e bananalândia.
“Desde que nasci, nunca vi cheias assim”
Já no distrito da Manhiça, o cenário é igualmente dramático. Toda a zona baixa está inundada, o que comprometeu praticamente a época agrícola. Quem repara para o horizonte a partir da baixa da vila-sede pode facilmente pensar que o leito do rio se fundiu ao oceano ou pode achar que se trata de uma lagoa, já que o verde exuberante foi completamente inundado.
Na baixa da Manhiça, o horizonte deixou de ser verde. Onde antes se estendiam campos de cana-de-açúcar e batata doce, ou machambas carregadas de vida, hoje há apenas água. Muita água. A paisagem é tão alterada que, para quem observa à distância, é difícil distinguir onde termina o leito do rio e onde começa a terra firme.
O dique de protecção da Açucarreira da Maragra, que estava em processo de reabilitação, voltou a romper, enterrando o optimismo que começava a surgir em torno da recuperação da fábrica e da retoma da produção de cana-de-açúcar.
Hoje, a ligação com Calanga e Machubo só é possível de barco, no meio das machambas inundadas. A força das cheias apagou os limites entre o rio e a terra cultivada, tornando impossível distinguir onde termina o rio Incomáti e onde começam as machambas. As zonas baixas de Mantxiana, Palmeira, Taninga, 3 de Fevereiro, Xinavane e Ilha Josina estão até agiora inundadas.
Para os agricultores, o golpe foi devastador. Muitos tinham regressado lentamente à actividade, acreditando que o pior já tinha passado. Agora, vêem-se novamente de mãos vazias. Para além da cana, principal cultura de rendimento, perderam-se também culturas alimentares e comerciais essenciais para a sobrevivência das famílias, como batata-doce, batata-reno, milho, amendoim, hortícolas e outras.

A reportagem do Evidências encontrou rostos marcados pelo cansaço, pela incerteza e pelo medo do amanhã. Entre eles está Maria Nhantumbho, agricultora com mais de 15 anos de experiência no campo, que descreve um cenário de total devastação.
“Perdemos amendoim, batata-doce, feijão, milho e outras culturas. Ficou tudo inundado. Somos só nós, sem nada. Não recebemos nenhum aviso, só nos assustámos quando vimos as machambas submersas”, conta, com a voz carregada de dor.
Para Maria, estas não são cheias comuns. São diferentes de tudo o que já viveu. Mais profundas, mais rápidas, mais destruidoras. Nem as de 2000 se assemelham ao que viveu este ano.
“Desde que nasci, nunca vi cheias que inundassem até zonas que nunca ficaram alagadas. Está tudo destruído e, mesmo quando a água secar, vai ser muito difícil recuperar o próprio solo”, afirma.
A agricultora admite que já nem consegue calcular os prejuízos. O que tinha foi levado pela corrente. O que restou foi o medo.
Na Manhiça, a cheia não levou apenas culturas. Levou sementes, investimentos, meses de trabalho e, sobretudo, a esperança de muitas famílias que dependem da terra para sobreviver. O drama não se mede apenas em hectares submersos, mas em pratos vazios, crianças fora da escola e agricultores sem meios para recomeçar.
“Depois das cheias de 2023, em que perdi quase tudo, tinha voltado a apostar fortemente na produção de cana-de-açúcar. Reactivei uma das minhas machambas, consegui semente com muito sacrifício e fiz um grande investimento para a lavoura e sementeira. Tudo está debaixo da água e não espero recuperar nada”, lamentou Regina Chuibunhe, relatando a perda de cinco hectares e um investimento de mais de 100 mil meticais.
À medida que as águas continuam a cobrir campos e comunidades, cresce a angústia sobre como e quando será possível reconstruir. Para muitos, a pergunta já não é apenas quando a água vai baixar, mas se terão forças e recursos para voltar a plantar, e voltar a acreditar. Com as mãos atadas, lançam hoje os olhos.
Enquanto, a nossa reportagem fazia o seu trabalho, havia um vaivém de pequenas embarcações artesanais que partiam e chegavam cheias de batata e outros produtos idos de Calanga, onde agricultores tentam salvar o que podem dentro da água.
Dados oficiais apontam cerca de catorze mil hectares de culturas perdidos na Manhiça

Homem de terreno e que nos últimos tempos trocou o conforto de seu gabinete e os seus momentos de descanso para garantir assistência às vitimas das inundações, o administrador da Manhiça, Matias Parruque, apresenta números que escalam a dimensão da catástrofe, ilustrando como a agricultura e a pecuária foram severamente atingidas naquele ponto do País.
“No sector da agricultura, temos 30.700 hectares inundados, e dessa área perto de 12 mil hectares de culturas diversas e 18 mil de rendimento. Deste universo, até ao momento 14 mil consideramos perdidos. Pelo tempo de permanência da água sobre as culturas podemos assumir que já perdemos. Isso afecta cerca de seis mil famílias. Temos também a pecuária onde quatro mil cabeças foram perdidas, afectando 1.200 criadores”, revelou Parruque.
Questionado sobre a existência de planos de financiamento para o sector com vista a recuperação pós-cheias, o governante distrital mantém-se cauteloso para evitar falsas esperanças.
“Temos esse pensamento de financiamento, mas a execução depende da situação real dos danos que se registaram. Ainda é prematuro e também não queremos alimentar expectativas. Se tens 14 mil hectares de culturas diversas perdidos, a consequência é imediata e clara também. Agora, em que medida, teremos que levar a fita métrica e medir de que forma isso vai impactar a segurança alimentar”, sublinhou.
Município de Boane sem verbas apara apoiar os produtores afectados

A Presidente da Vila de Boane, Geraldina Bonifácio, admite que o município não tem capacidade financeira para apoiar directamente os produtores afectados pelas cheias, concentrando os recursos na resposta humanitária e no apoio às pessoas acolhidas.
“Eu não gosto de mentir. Não posso prometer que existe um financiamento, porque não existe. Ainda tenho pessoas que estão no acolhimento, preciso de alimentar aquelas pessoas e garantir que não retornem aos lugares de risco”, afirmou, acrescentando que mais de 200 áreas agrícolas poderão ter sido afectadas, segundo dados preliminares.
A edil reconhece o risco de escassez e possível ruptura no fornecimento de alimentos, sublinhando que Boane está dependente da gestão de águas a montante. “A maior parte da água vem dos países vizinhos. Eles sempre vão abrir as comportas. A gestão das barragens não é directa do Conselho Municipal, é da ARA-SUL”, disse.
Apesar das limitações, Geraldina Bonifácio aponta para soluções administrativas e de planeamento a médio prazo, como a isenção de taxas e projectos de infra-estrutura para evitar que o problema se repita ciclicamente.
“O que podemos fazer agora é propor ao gestor da barragem a criação de dragagem, fazer-se bacias ou represas de forma a captar a água, porque a partir de Abril ou Maio vamos começar a chorar por causa da água. Sobre a ponteca submersa que conecta Mazambanine, lançámos um concurso público para garantir a concepção de um projecto executivo,” clarificou.
“As barragens nacionais não foram projectadas para a protecção contra cheias”

Por sua vez, o hidrólogo Dinis Juízo esclarece que as barragens nacionais não foram concebidas para protecção contra cheias. O especialista considera que as previsões têm sido adequadas, mas que as falhas podem estar noutros níveis.
“Em Moçambique, as barragens foram projectadas sobretudo para abastecimento de água, irrigação ou energia. A sua capacidade de mitigar cheias é relativamente pequena. As entidades são capazes de produzir previsões de boa qualidade. As falhas devem estar a outro nível”, afirmou, defendendo mais investimento em tecnologia e capacitação.
Juízo alerta ainda para riscos na gestão das albufeiras. “Há suspeitas de que, em certos casos, as albufeiras foram mantidas a níveis altos, o que pode ter levado a descargas mais agressivas”, disse, criticando a interferência não técnica e defendendo a prevenção como condição para o crescimento económico.
O hidrólogo Dinis Juízo oferece uma visão aprofundada sobre as limitações técnicas das infra-estruturas moçambicanas, desmistificando a ideia de que as barragens podem, sozinhas, eliminar o risco de cheias.
“A função das barragens é variável. Nem todas têm uma função de gestão de cheias. No caso de Moçambique, as barragens foram quase todas projectadas para servir uma função económica ou social tal como o abastecimento de água, irrigação ou geração de energia. É verdade que nas suas regras de operação é considerado o encaixe de volume de cheias, mas em grande parte a sua capacidade de mitigar cheias é relativamente pequena. Uma barragem para servir adequadamente para a mitigação de cheias deveria ser projectada para essa função, o que resultaria em albufeiras enormes”, explicou.



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