Mulher perde bebé após ser abandonada por horas pelo motorista da ambulância

SAÚDE SOCIEDADE
  • Quando o milho tem maior valor que a vida
  • Desamparou parturiente em serviço de parto para ir comprar milho
  • Há também relatos de mulheres que dão parto no corredor

Embora o Ministério da Saúde tenha adoptado o lema “ O Nosso Maior Valor é a Vida”, a realidade dos serviços de Saúde Materna Infantil (SMI), um pouco por todo o país, mostra uma cada vez falta de sensibilidade para com a vida, devido a normalização da violência obstétrica e outros maus tratos a parturientes e utentes nas unidades sanitárias. Do Distrito de Gorongosa, na província de Sofala, chegam vários relatos de mulheres que passaram momentos de puro terror no hospital local que vão desde partos no corredor à perda de bebés devido à negligência de quem jurou cuidar e trazer novos seres humanos ao mundo. O governo de Sofala promete criar uma comissão de inquérito para averiguar as denúncias.

Jossias Sixpence – Beira

A negligência e o mau atendimento nos hospitais continua a ser um dos maiores desafios do Sistema Nacional de Saúde (SNS), que para além de causar perdas de vida humana tem deixado traumas nos utentes, sobretudo das maternidades onde entrar grávida e sair com um bebé ao colo não é para qualquer um.

Célia, nome feitiço, ainda guarda com carinho algumas peças do enxoval que preparava para receber o seu bebé que, infelizmente, a negligência de um motorista do Hospital Distrital de Gorongosa a roubou, quando a abandonou em meio a uma emergência de parto.

O facto aconteceu no dia 22 de Maio do ano corrente, quando depois de ter sido solicitada a ambulância, o referido motorista dirigiu-se para o Posto de Saúde de Muera a fim de socorrer uma parturiente em serviço de parto, que necessitava de uma intervenção urgente, visto que passavam três dias que não conseguia trazer seu filho ao mundo.

Chegado a Muera, por volta das 10 horas, o motorista, de nome Manuel Mussa, decidiu abandonar o carro no posto de saúde e dirigiu-se à comunidade com o pretexto de querer comprar milho, deixando a parturiente praticamente à sua sorte durante horas.

E porque o motorista nunca mais voltava e o quadro da parturiente e seu bebé piorava, os enfermeiros ligaram para a direcção do hospital distrital, tendo sido orientados a procurarem outra viatura, mesmo que fosse para pagarem, tendo em conta a urgência que havia para salvar o bebé e a mãe.

No entanto, não foi tarefa fácil e só foi possível “alugar” uma viatura por volta das 13 horas, ou seja, três horas depois do motorista da ambulância ter chegado ao centro de saúde. Imediatamente, a gestante e a família se deslocaram para o hospital distrital, onde viriam a ser atendidos, mas, para a sua infelicidade, o bebé nasceu sem vida.

Apesar da conduta negligente do referido motorista, não há nenhuma informação de ter sido sancionado. Enquanto isso, Célia procura se reerguer dos traumas que a violência obstétrica causou na sua vida.

Familiares assumem lugar de parteiros

Outro relato horripilante de maus tratos vem do Hospital do Posto Administrativo de Nhamadzi, distrito de Gorongosa, inaugurado pelo governador de Sofala, Lourenço Bulha, no dia 13 de Novembro de 2021.

A enfermeira local é acusada de se recusar a atender gestantes com dores de parto, com alegações de que não é especialista da área da maternidade, havendo relatos de parturientes que acabaram tendo bebés nos corredores ou mesmo no recinto hospitalar após serem abandonadas por quem devia lhes cuidar.

Casos há em que a referida enfermeira, identificada por Maria, manda parturientes para casa, acabando por darem parto em casa ou pelo caminho, numa altura em que, estranhamente, o governo tem se desdobrado em campanhas de sensibilização para desestimular partos em casa.

No dia 15 de Maio, por exemplo, uma parturiente, na companhia dos seus familiares, se fez presente naquela unidade hospitalar por volta das oito horas, com dores de parto. A enfermeira informou-lhes que não poderia atendê-los, tendo orientado a um dos membros da família para ir chamar a parteira que responde pelo nome de Lieza, que na altura se encontrava em casa.

Identificada a casa da parteira, esta recusou-se a ir ao hospital, por alegadamente ter trabalhado durante a noite. Pelo meio, a gestante acabou dando parto com ajuda dos seus familiares. A parteira só apareceu no dia seguinte e para justificar a sua ausência alegou que o parto não foi feito no hospital.

“Chegamos por volta das 8 horas e a enfermeira Maria disse que não sou parteira. Mandou chamar a senhora Lieza. Fomos chamá-la, mas disse que trabalhou durante a noite e já não podia fazer nada. Deixou-nos sozinhos até à hora que tive parto, por volta das 13 horas. Depois voltamos para casa porque estava a fazer frio e não tinha nenhuma enfermeira para nos atender”, disse uma das denunciantes.

Relatos de pacientes que deram parto no corredor

Outro caso deu-se no dia 22 de Maio, quando uma outra senhora em trabalho de parto e seus acompanhantes chegaram a aquele centro de saúde por volta das 20 horas. Mostrando total insensibilidade, a mesma enfermeira negou prestar qualquer tipo de assistência.

Mesmo diante de gritos da parturiente, ela abandonou o centro de saúde alegando que ia dormir porque trabalhou o dia todo. Mas antes de sair deixou o seu número de celular, com a orientação de que se a situação piorasse podiam ligar para ela.

No entanto, durante a noite a gestante entrou em trabalho de parto e teve o bebé no corredor, assistida pelos seus familiares. A enfermeira Maria só apareceu na manhã seguinte. Só neste momento é que a enfermeira abriu a porta e mandou entrar na sala, onde deu uma cama para descansar.

“Chegamos no hospital à noite e a enfermeira Maria disse que já tinha despegado. Com isso, foi dormir e deixou-nos com o número de telefone, com orientação de que devíamos ligar caso as dores se intensificassem. Porque sabíamos que seria inútil, acabamos por não ligar e o parto aconteceu com ajuda de familiares”, relata o drama.

Quando finalmente esperava ser tratada com um pingo de humanidade, eis que surge uma outra figura para atormentá-la. Trata-se de uma servente, de nome Rita, que por volta das 10 horas exigiu que ela se retirasse da sala com o seu bebé no colo para fazer a limpeza.

A servente não se importou com o facto de naquela manhã estar a fazer muito frio, muito menos com o sofrimento de quem teve parto a noite e pernoitou no banco da varanda de cimento e sem condições.

“Por volta das 10 horas, a senhora Rita acabava de chegar e queria fazer a limpeza, e mandou descer, fiquei fora até ela terminar”, disse a denunciante.

Paciente humilhada e obrigada a limpar chão sem luvas e exposta a riscos

Enquanto a nossa equipa de reportagem apurava as denúncias no posto de saúde local, deparamo-nos com situações de maus tratos aos utentes. Um dos momentos foi quando a servente Rita obrigou uma paciente a limpar o chão por ter deixado pegadas após passar do local enquanto esta fazia sua limpeza.

Antes de obrigá-la a limpar o chão, a servente insultou e humilhou publicamente a paciente. A referida paciente teve que obedecer e fazê-lo, com um pano ensanguentado e sem nenhum meio de protecção.

“A senhora Rita lançou o pano ao chão, cheio de sangue, uma vez que acabava de chegar um paciente acidentado de uma motorizada”, relatou aos prantos a vítima de maus tratos, para depois ter que pedir ajuda a alguém para segurar o bebé.

Perante estes acontecimentos, o repórter procurou saber do director distrital de Saúde de Gorongosa, Tatos Domingos Benate, que prometeu se pronunciar oportunamente, alegadamente porque acabava de tomar posse.

“Eu, neste momento, não tenho resposta. Tomei posse no dia 1 de Junho e voltei no mesmo dia para levar alguns pertences para voltar a Gorongosa. Em relação a esta matéria ainda não comecei a trabalhar, mas na segunda irei procurar me informar melhor”, prometeu Tatos.

Tentamos recorrer ao director cessante, sem sucesso. Por sua vez, o governador da província de Sofala, Lourenco Ferreira Bulha, confirmou ter tomado conhecimento de parte das denúncias, adiantando que vai enviar ao local uma inspecção liderada pelo director provincial de saúde para apurar a veracidade dos factos.

“Obrigado pela denúncia. Estou neste momento com o director provincial de saúde e vamos enviar uma equipa de inspecção para apurar a veracidade dos factos”, prometeu Bulha.