Angola com treze candidatos presidenciais, entre os quais uma mulher

OPINIÃO

 Luca Bussotti

Pela primeira vez, uma mulher será candidata à presidência da república nas próximas eleições de Agosto em Angola. Seu nome é Florbela Malaquias, candidata do Partido Humanista Angolano (PHA), advogada e histórica opositora do regime do MPLA, que desde 1975 governa este país. Trata-se de uma personagem assinalável, com um passado nas fileiras das FALA (o braço armado da UNITA), e como jornalista da Rádio VORGAN, a emissora da UNITA. Seu recente livro, Heroínas da dignidade, tem representado uma fratura quer do ponto de vista ideológico quer em termos de reinterpretação histórica da figura de Jonas Savimbi, com quem a autora-candidata tinha lidado nos anos da sua militância política na UNITA. Descrito como tirano e assassino, a Malaquias procura assim atrair os votos não apenas do eleitorado a ela mais próximo, o da UNITA ou contrário ao MPLA, mas também dos simpatizantes decepcionados do próprio MPLA, e sobretudo dos muitos ainda incertos ou da maioria que já decidiu não ir votar…Uma decisão que poderia ser em parte revertida em razão da novidade de votar numa mulher como próximo presidente, assim como numa mulher profissional, que procura ficar equidistante dos dois partidos maiores, dando assim uma alternativa concreta para quem já não se reconhece no bipolarismo político angolano.

Além da candidata Malaquias, as mulheres terão um destaque maior do que o usual nestas eleições angolanas: o MPLA – que, apesar de todas as dificuldades e as manifestações populares contra o governo, continua favorecido – acaba de apresentar uma lista com uma presença feminina muito significativa. Depois do cabeça de lista, o actual Presidente e candidato, João Lourenço, assinalam-se três mulheres. Em caso de vitória do MPLA, a segunda da lista será nomeada vice-presidente da república e a terceira presidente do parlamento. Trata-se, respectivamente, de Luísa Damião, bióloga, docente na Universidade Agostinho Neto e actualmente Secretária de Estado para a Pesca, e de Carolina Cerqueira, ministra da Área social. Nos primeiros 10 lugares da lista do MPLA se encontram cinco mulheres, uma novidade absoluta para o partido que sempre dominou o país através de figuras masculinas.

É muito provável, diante deste quadro, que o parlamento angolano possa ter uma presença feminina mais significativa da actual, em que apenas 30% dos deputados é mulher; um cenário que se repete no governo das províncias, em que são apenas 4 as mulheres governadoras, diante de 14 de sexo masculino.

Se MPLA e outras formações menores, tais como o PHA, estão à procura de inovações principalmente no que diz respeito a uma maior presença feminina, as descontinuidades que a população exige vão muito além disso. Com efeito, apesar das 13 listas admitidas à corrida para as presidenciais, tudo indica que a competição continuará ainda polarizada entre os eternos rivais, MPLA e UNITA. Diante de um MPLA certamente enfraquecido, desta vez alguns entre os principais partidos de oposição procuraram se juntarem numa aliança eleitoral, formando uma coligação, chamada de Bloco Patriótico; entretanto, eles não tiveram o cuidado de registar junto ao Tribunal Constitucional a nova formação político-eleitoral, pelo que foi muito fácil – por parte da supremo instituição de justiça na Angola – não permitir que este bloco apresentasse listas próprias na contenda eleitoral. Assim o arranjo que UNITA, Bloco Democrático e partido Pra-Já/Servir Angola resolveram manter o espírito unitário, de facto confluindo nas listas da UNITA.

O clima pré-eleitoral em Angola é extremamente tenso: a resignação de muitos potenciais eleitores, essencialmente jovens, é o marco principal para medir o termómetro da confiança política da população angolana. Com efeito, se as sondagens que circulam em Luanda não mostram um vencedor nítido entre UNITA e MPLA, o que parece certo é que o maior partido será, mais uma vez, o dos abstencionistas, devido às manobras administrativas que o governo e o MPLA já estão aprontando, segundo boa parte dos observadores angolanos independentes. Uma contribuição neste sentido foi dada da nova lei eleitoral, que não permitiu ao governo publicar a lista dos eleitores, com o sério risco de que muitos falecidos ao longo dos últimos anos resultem como votantes apanágio do partido de governo, alterando assim significativamente o resultado eleitoral.

Por outra, as manifestações de praça, frequentemente violentas, estão se alastrando e sucedendo para todo o país, tendo como sua característica a crítica ao actual executivo. Entre elas, vale a pena recordar algumas organizadas por parte de um novo agrupamento de jovens, que acaba de lançar uma campanha, denominada “Alternância sim! Sofrimento não!”. Esta campanha visa sensibilizar os jovens angolanos para se fazerem às urnas, votando em favor da oposição. O país está dividido, à espera de eleições pela primeira vez renhidas, pelo menos segundo as previsões da maioria dos observadores nacionais. O símbolo desta divisão é representado pela classe médica: se a Ordem dos Médicos apoia o MPLA, o sindicato dos próprios médicos espera uma mudança na maioria que governa Angola.

O país é, hoje, uma panela no fogão, em que a parte mais viva da população está exigindo mudanças radicais. Assim, se uma maior presença feminina poderá representar parte da mudança tão almejada, ela poderá ser julgada como insuficiente por parte de segmentos importantes da sociedade civil angolana, que acreditam que apenas uma queda do MPLA poderá realmente mudar as coisas. Uma perspectiva, esta, ainda difícil, embora não impossível, a ser alcançada nas eleições do próximo Agosto.