Um jornalista é morto ou escapa à tentativa de assassinato em cada três anos em Moçambique

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  • Desde que os esquadrões provaram o sangue de Carlos Cardoso em 2000

Desde o ano 2000, quando o jornalista investigativo Carlos Cardoso foi assassinado, Moçambique tem registado um padrão alarmante de violência contra profissionais da imprensa. Ao todo, foram reportados pelo menos oito casos flagrantes de assassinato ou tentativa de assassinato de jornalistas e comentadores políticos, incluindo episódios como os de Paulo Machava (2015), João Chamusse (2023), Ibraimo Abú Mbaruco (2020), Arlindo Chissale (2025), Ericino de Salema (2018), Matias Guente (2019), Selma Inocência e mais recentemente Carlitos Cadangue. Os restantes têm sido ameaças, intimidações, confisco e destruição de materiais, detenções arbitrárias, tortura e outras violações.

Evidências

Ao longo das últimas décadas, Moçambique tem registado uma sucessão de assassinatos, desaparecimentos, raptos e agressões contra jornalistas e comentadores políticos, num padrão que organizações internacionais descrevem como marcado pela impunidade e pela fragilidade das investigações.

O ano 2000 foi prpositadamente escolhido pelo Jornal Evidências como o ponto de partilha deste levantamento por ter sido o ano em que foi assassinado, Carlos Cardoso, aquele que é um dos maiores mártires do jornalismo moçambicano. A partir daí seguiu-se um padrão preocupante.

Considerando o período de 2000 a 2026, são 26 anos de registo. Dividindo o número de anos pelo número de casos (26 ÷ 8) obtém-se um resultado de aproximadamente 3,25 anos. Isto significa que, estatisticamente, um jornalista moçambicano é morto ou é alvo de uma tentativa de assassinato a cada três anos, reforçando a gravidade da situação.

Paulo Machava, assassinado a 28 de Agosto de 2015, permanece como um dos símbolos mais fortes desta realidade. O jornalista foi morto a tiro em pleno centro de Maputo, quando regressava do seu habitual exercício físico matinal. Apesar de diligências anunciadas pela polícia, o caso nunca foi plenamente esclarecido ao nível dos mandantes, reforçando a percepção pública de impunidade.

Em Dezembro de 2023, o país voltou a ser abalado pelo assassinato de João Chamusse, editor do jornal Ponto por Ponto e comentador da TV Sucesso. Chamusse foi encontrado morto no quintal da sua residência, na Katembe, com sinais de agressão. As autoridades detiveram suspeitos e houve uma condenação em tribunal, mas organizações como o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) sublinharam que as motivações do crime não ficaram totalmente esclarecidas, persistindo dúvidas sobre a eventual existência de mandantes. Chamusse era conhecido pelas suas posições críticas em relação à governação, o que conferiu ao caso forte carga política.

Outro caso emblemático é o de Ibraimo Abú Mbaruco, jornalista da rádio comunitária de Palma, desaparecido a 7 de Abril de 2020, em Cabo Delgado. Mbaruco saiu da rádio e nunca mais foi visto. Testemunhos indicaram possível envolvimento de forças de segurança, mas o caso foi posteriormente arquivado sem esclarecimento conclusivo. Organizações internacionais continuam a classificar o episódio como um possível desaparecimento forçado, exigindo a reabertura da investigação.

Também em 2018, o jornalista e analista político Ericino de Salema foi raptado em Maputo por indivíduos armados, espancado e abandonado na via pública. O ataque ocorreu num contexto de crescente tensão política e foi amplamente interpretado como uma tentativa de intimidação devido às suas posições críticas. Até hoje, não há informação pública sobre a responsabilização dos autores.

Um padrão que se repete

Em linha semelhante, o editor do jornal Canal de Moçambique, Matias Guente foi igualmente raptado e brutalmente espancado, em 2019, na Cidade de Maputo. O caso foi associado ao padrão de actuação dos chamados “esquadrões da morte”. Tal como noutros episódios, não houve esclarecimento judicial conclusivo.

Mais recentemente, o nome de Arlindo Chissale, jornalista e activista em Cabo Delgado, passou a integrar esta lista. Em 2025, Chissale foi detido e alegadamente espancado por forças de segurança, vindo a morrer dias depois, segundo relatos de organizações internacionais. O caso gerou forte pressão externa para uma investigação independente, mas, até ao momento, não são conhecidos resultados que apontem para responsabilização efectiva.

A jornalista investigativa Selma Inocência foi alvo de um episódio igualmente preocupante em Março de 2025, durante uma viagem de trabalho à Cidade de Maputo. Pouco tempo depois, ao regressar à Alemanha, onde reside actualmente, começou a apresentar um quadro súbito de mal-estar físico. Exames médicos revelaram a presença de metais pesados em níveis clinicamente inexplicáveis, levando a suspeitas de envenenamento. Não há informações sobre qualquer investigação oficial ou responsabilização, reforçando o clima de insegurança e intimidação enfrentado por jornalistas no país.

O caso mais recente deu-se neste mês de Fevereiro em curso, quando Moçambique voltou a assistir a um episódio alarmante de violência contra jornalistas, desta vez na Cidade de Chimoio, Província de Manica. Carlitos Cadangue, correspondente da STV, foi alvo de uma tentativa de assassinato. Até ao momento, o caso permanece em investigação, sem informações públicas sobre detidos ou responsáveis identificados, reflectindo a persistência da impunidade em ataques contra jornalistas em Moçambique.

Medo e silêncio: como a violência contra jornalistas fragiliza a democracia

O mais recente episódio, com a tentativa de silenciamento do jornalista Carlitos Candangue, reacende um passado sombrio que o país insiste em não conseguir enterrar. Segundo o Índice de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, o país ocupa atualmente a 101.ª posição entre 180 países.

Dados do MISA apontam que, em 2023, foram registados 28 casos de violações à liberdade de imprensa, dos quais 11 estiveram ligados às eleições autárquicas, especialmente nas províncias de Maputo, Sofala e Zambézia. Em 2024, o número aumentou para 32 casos, 22 associados às eleições gerais, abrangendo praticamente todas as províncias e incluindo a paralisação intencional do acesso à internet nos dias 25 e 30 de outubro, medida que prejudicou o trabalho jornalístico e restringiu o acesso à informação.

Carlitos Candangue sobreviveu ao ataque com seis tiros, dois dos quais atingiram o seu carro enquanto ele regressava a casa com o filho.

“Fiquei em pânico total. Nunca imaginei que as minhas reportagens pudessem provocar uma reacção ao ponto de alguém tentar silenciar-me”, recorda, sublinhando que hoje vive om medo pois “a sensação que tenho é que eles podem voltar, porque não conseguiram concretizar o objetivo”.

Questionado sobre as declarações do Presidente da República, Daniel Chapo, Candangue critica referindo que, apesar de importantes, as palavras precisam ser acompanhadas por acções concretas.

“Condenações todo mundo faz, mas o que queremos são acções enérgicas que levem à responsabilização dos autores”, sublinhou.

MISA alerta para fragilidades da liberdade de imprensa

Ernesto Nhanale, director do MISA-Moçambique, afirma que os ataques a jornalistas não devem ser vistos de forma isolada, mas como parte de um contexto político e institucional que gera medo e auto-censura.

“Cada novo caso representa um agravamento do cenário já preocupante. A sociedade, as instituições e a classe jornalística precisam de responder firmemente para que o medo e a violência não vençam. Isso seria uma derrota para a democracia e para os cidadãos moçambicanos”, sublinha.

Segundo Nhanale, nos últimos anos tem-se registado uma incidência preocupante de episódios que atentam materialmente contra os profissionais da imprensa, envolvendo processos considerados ilegais, perseguições e até casos de desaparecimentos. Para o responsável, estes fenómenos fragilizam o exercício da profissão e levantam questionamentos sobre a robustez do sistema democrático no país.

Nhanale defende que episódios de ataques ou intimidações contra jornalistas não devem ser analisados de forma isolada. Para ele, estes acontecimentos emergem dentro de um contexto mais amplo, marcado por tensões políticas, sociais e institucionais que contribuem para o surgimento de um clima de medo e autocensura.

“Não podemos olhar para um caso como um evento único. Estes episódios surgem dentro de um contexto e podem criar um ambiente em que as pessoas passam a ter receio de exercer determinadas actividades profissionais, o que constitui um prejuízo grave para a democracia e para o direito dos cidadãos à informação”, explica, para depois acrescentar que a resposta da sociedade, das instituições públicas e da própria classe jornalística deve ser firme e orientada para a defesa dos direitos fundamentais.

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