Banco Mundial aposta 10 biliões de dólares na economia doméstica nos próximos cinco anos

DESTAQUE ECONOMIA
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A nova parceria económica entre Moçambique e o Grupo Banco Mundial, que prevê mobilizar cerca de 10 mil milhões de dólares em investimento público e privado até 2031, surge num momento de tentativa de reequilíbrio da economia nacional após um longo período de deterioração das contas públicas, crescimento irregular e aumento da vulnerabilidade externa.

O acordo foi anunciado após encontro entre o Presidente Daniel Francisco Chapo e o director do Banco Mundial para Moçambique, Fily Sissoko, e representa uma das primeiras grandes iniciativas de política económica da nova liderança, que enfrenta o desafio de estabilizar indicadores macroeconómicos fragilizados ao longo da última década.

O montante anunciado tem dimensão relevante numa economia cujo Produto Interno Bruto ronda cerca de 24 mil milhões de dólares. Em termos relativos, o financiamento corresponde a uma parcela significativa da produção nacional e poderá influenciar a trajectória económica do país nos próximos anos.

A iniciativa surge num contexto particularmente exigente. A dívida pública moçambicana mantém-se em níveis elevados, próxima de 90% do PIB segundo estimativas recentes, enquanto o peso do serviço da dívida continua a limitar a capacidade orçamental do Estado. O crescimento económico tem permanecido abaixo do potencial e a economia mantém elevada dependência de financiamento externo.

Durante os últimos anos, Moçambique enfrentou sucessivos desequilíbrios fiscais, aumento do endividamento e dificuldades na consolidação das contas públicas. Relatórios internacionais têm apontado divergências recorrentes entre metas orçamentais e resultados efectivos, fragilidades institucionais e limitações na gestão financeira do Estado.

É neste contexto que o novo Governo procura reposicionar a política económica e recuperar a confiança externa, reforçando relações com parceiros multilaterais e procurando mobilizar financiamento para investimento produtivo.

Nos últimos dias, o Fundo Monetário Internacional alertou para a necessidade de consolidação fiscal mais robusta, destacando pressões sobre o financiamento do Estado e o aumento dos encargos com juros. O organismo defende maior disciplina orçamental e reformas estruturais para garantir sustentabilidade financeira.

Alívio de restrições imediatas de liquidez

O financiamento do Banco Mundial pode aliviar restrições imediatas de liquidez e permitir expansão do investimento público, mas economistas sublinham que o impacto dependerá da qualidade da execução e da capacidade de transformar recursos em aumento efectivo da produtividade.

A estrutura produtiva da economia constitui um dos principais desafios herdados. O crescimento recente tem sido impulsionado sobretudo por mega-projectos extractivos, especialmente no sector do gás natural, com impacto limitado na criação de emprego e na diversificação económica.

Apesar do potencial dos recursos naturais, os benefícios para a economia interna têm sido reduzidos devido à concentração do investimento, à fraca integração das cadeias produtivas e a limitações estruturais persistentes.

A agricultura continua a empregar a maioria da população activa, mas apresenta baixos níveis de produtividade. O sector industrial mantém participação reduzida na economia, enquanto os serviços estão concentrados em actividades de baixa complexidade económica.

Ao mesmo tempo, a economia permanece vulnerável a choques externos. A forte dependência de importações expõe o país a pressões cambiais e inflacionárias, enquanto eventos climáticos extremos continuam a afectar rendimento e segurança alimentar.

Para o cidadão comum, estas questões macroeconómicas traduzem-se em preocupações imediatas.

“Quando falam de bilhões, queremos saber se isso vai baixar o custo de vida”, afirma Manuel Simbine, comerciante informal no mercado do Xipamanine, em Maputo. “O que precisamos é emprego e preços estáveis.”

Analistas sublinham que o sucesso da nova estratégia dependerá da capacidade de romper padrões económicos do passado. “O desafio não é apenas mobilizar financiamento, mas transformar esse financiamento em diversificação produtiva e crescimento sustentável”, explica um economista ligado ao sector bancário, destacando a necessidade de melhorias institucionais e maior eficiência na execução de investimentos.

A parceria com o Banco Mundial poderá financiar infra-estruturas, melhorar condições de investimento e estimular actividade económica se for acompanhada por ganhos de produtividade e reformas estruturais. Contudo, experiências anteriores mostram que grandes fluxos de financiamento externo nem sempre resultam automaticamente em crescimento inclusivo.

A nova estratégia económica representa, assim, uma tentativa de estabilização após um período prolongado de desequilíbrios fiscais e limitações estruturais. O impacto do acordo dependerá da capacidade institucional do Estado, da transparência na gestão dos recursos e da transformação do financiamento externo em expansão efectiva da base produtiva.

Para Moçambique, o volume do financiamento é apenas um dos factores. O verdadeiro teste será a capacidade de corrigir vulnerabilidades acumuladas ao longo dos últimos anos e estabelecer bases mais sólidas para o crescimento económico sustentável.

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