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Os depoimentos que chegam de diferentes bairros, instituições públicas e círculos sociais do país desenham um quadro inquietante de uma confusão deliberada entre cidadania e militância partidária. Quando uma chefe de quarteirão bate à porta às sete da manhã a pedir Bilhete de Identidade e NUIT sob o pretexto de “registo de casas”, num contexto de recenseamento de raiz dos membros e órgãos do partido, fica nítida o desespero de empolar os números e fica evidente a impopularidade da Frelimo.
As mensagens internas que circularam recentemente, revelando preocupação com a fraca adesão ao recenseamento partidário, ajudam a compreender a pressa e a criatividade. Em vez de corrigir a relação com as suas bases, a Frelimo parece ter optado por inflacionar números por via oblíqua, incluir cidadãos sem consentimento em listas de membros, adulterando a avaliação interna e, por consequência, a leitura da sua força social real. A pergunta que ecoa nos bairros é simples e perturbadora: até a lista de membros se adultera?
O problema agrava-se quando estes expedientes se apoiam em estruturas do Estado e da administração local. Chefes de quarteirão e secretários de bairro, figuras que deveriam servir a comunidade, surgem como braços operacionais de um recenseamento partidário disfarçado. O relato é recorrente: contam-se pessoas por casa, formam-se “células” sem diálogo, sem confirmação de vontade, sem consentimento. Existir como cidadão passa a bastar para ser carimbado como militante. Isto não é organização; é apropriação.
Há ainda denúncias mais graves. Funcionários públicos relatam pressão para entregar documentos pessoais e cartões de eleitor às células partidárias instaladas nos seus locais de trabalho. O recenseamento não é apresentado como opção, mas imposto de forma silenciosa, criando um clima de medo e conformismo. No Instituto de Ciências de Saúde de Nampula, funcionários relatam coerção e intimidação, com impactos directos na liberdade de escolha. O mesmo padrão surge em bairros como 25 de Junho e em Ressano Garcia, onde vídeos mostram populações a insurgirem-se contra a recolha opaca de documentos.
Este conjunto de práticas tem duas consequências políticas imediatas. Primeiro, engana o próprio partido. Ao inflacionar artificialmente o número de membros, a liderança passa a decidir com base em dados falsos, iludindo-se quanto à sua implantação real. Segundo, mina a confiança pública. Se se fabricam membros, por que não eleitores? A fronteira entre avaliação partidária viciada e suspeitas de eleitorado-fantasma torna-se perigosamente ténue.
Há quem diga que estas práticas não partem do topo. Se assim for, pior ainda, afinal significa perda de controlo e normalização do “faz de conta” nas bases. Se, pelo contrário, houver orientação tácita, então estamos perante um problema estrutural. Em ambos os casos, a resposta responsável é a mesma e parte de inquérito sério, responsabilização clara e correcção imediata.
A Frelimo só tem a ganhar com a verdade. Um partido forte mede-se pela adesão consciente, não pela contagem forçada e muito menos pela manutenção da cultura de roubo. Avaliar-se com rigor é condição mínima para representar alguém. O resto é estatística enganosa e política frágil, para além de um claro sinal de falta de vontade de mudar, passar a governar bem para reconquistar o seu eleitorado.



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