Onda de encerramentos de empresas empurra quase 100 mil pessoas à incerteza

DESTAQUE ECONOMIA
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  • Segundo dados do INE, cada salário formal sustenta, em média, cinco pessoas
  • Fecho de uma única empresa como a Mozal condena cerca de 24 mil cidadãos à insegurança

Entre o início de 2024 e Março de 2026, o encerramento definitivo de grandes unidades industriais, cadeias de retalho e centenas de empresas de construção civil desenhou um cenário nebuloso para o mercado de trabalho nacional. Segundo dados compilados pela Organização dos Trabalhadores de Moçambique (OTM-CS) e por diversas associações sectoriais, o desinvestimento neste período resultou na perda directa de 21 mil postos de trabalho. Aplicando o rácio de dependência familiar do Instituto Nacional de Estatística (INE), estima-se que quase 100 mil moçambicanos tenham perdido o seu sustento básico, caindo abruptamente abaixo da linha da pobreza num país que ainda enfrenta elevadas taxas de desemprego.

Luísa Muhambe

A crise actual é alimentada por uma tríade de factores que têm asfixiado o sector produtivo. Em primeiro lugar, as tensões pós-eleitorais de 2024 deixaram um rasto de destruição física e insegurança que afugentou o capital estrangeiro. Em segundo lugar, a crónica falta de divisas no sistema financeiro nacional tem impedido as empresas de honrar compromissos com fornecedores externos e de importar matérias-primas essenciais. Por fim, os impasses fiscais entre o sector privado e o Governo, marcados por divergências na devolução do IVA, criaram um ambiente de desconfiança mútua.

Contabilizando as perdas, a construção civil lidera com 12.000 vagas extintas, após o encerramento de mais de 300 empresas. Segue-se a indústria pesada e extractiva, com 6.100 postos de trabalho perdidos, onde se destacam os 1.000 empregos directos da Mozal (suspensa em Março de 2026), os 4.000 trabalhadores das mineradoras de Manica paralisadas por questões ambientais e os 1.100 cortes efectuados na Kenmare.

A indústria ligeira contribui com 1.200 vagas, maioritariamente devido à falência da Navi Reia Lda, de capitais chineses, enquanto o sector de retalho e serviços (incluindo ONG’s e cadeias como a Game e a Shoprite) fecha a contagem com 1.700 despedimentos, totalizando mais de 21 mil postos de trabalho perdidos.

O evento de maior impacto sistémico nestes dois anos foi a suspensão total das operações da fundição de alumínio Mozal, na Matola, concretizada a 15 de Março de 2026. A decisão da multinacional South32 de colocar a unidade em regime de conservação e manutenção, motivada pela inexistência de um acordo para fornecimento de energia eléctrica a preços competitivos, silenciou o maior motor industrial do País. O impacto é imediato e devastador, com a extinção de mil empregos directos e aproximadamente quatro mil indirectos.

Na província de Maputo, onde cada trabalhador sustenta em média cinco pessoas, o encerramento da Mozal significa que cerca de 24 mil cidadãos ficaram sem o pilar que garantia a educação, a saúde e a alimentação diária. A vasta rede de cerca de três mil fornecedores locais que orbitava em torno da fundição enfrenta agora um efeito dominó de falências, ameaçando desertificar economicamente toda a região da Matola.

O horizonte torna-se ainda mais sombrio quando se analisa o futuro da Kenmare Resources, na província de Nampula. A mineradora, responsável por cerca de 6% da produção mundial de titânio, já anunciou a redução de 15% da sua força laboral em Moma, devido à queda acentuada dos lucros e à descida dos preços internacionais.

Contudo, o que mais preocupa o mercado é o braço-de-ferro fiscal com o Governo e a ameaça de uma arbitragem internacional que poderá paralisar a mina. Caso a Kenmare siga o caminho da Mozal e suspenda as suas operações, Moçambique poderá enfrentar uma catástrofe social sem precedentes no norte do País, agravando os números já alarmantes do INE, que indicam que a taxa de desemprego juvenil e a precariedade laboral atingiram picos históricos em 2025, com a maioria da população activa empurrada para a sobrevivência no sector informal.

Taxa de deemprego continua assustador

De acordo com as actualizações do INE, baseadas no Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF), a taxa de desemprego alargada em Moçambique mantém-se em níveis críticos, situando-se entre 18,4% e 20%. Contudo, o dado mais alarmante verifica-se nas áreas urbanas: na Cidade de Maputo, o desemprego juvenil atinge 36%, o dobro da média nacional.

Paralelamente ao colapso da indústria pesada, o sector do retalho e da construção civil foi severamente afectado pela instabilidade política e pela vandalização ocorrida durante os protestos pós-eleitorais de 2024. Marcas históricas de capital sul-africano, como a Game e a OK Mobiliário, encerraram definitivamente as suas portas em zonas estratégicas como a Matola e o bairro da Malhangalene, em Maputo.

O caso da Shoprite é particularmente emblemático, com unidades na Macia e em Magoanine a cessarem actividades após saques violentos, deixando dezenas de famílias sem qualquer fonte de rendimento. No sector da construção civil, a Federação Moçambicana de Empreiteiros reporta que mais de 300 empresas fecharam portas, muitas delas pequenas sub-empreiteiras que dependiam de projectos de infra-estrutura abandonados após a fuga de investidores estrangeiros. Este segmento isolado foi responsável por lançar cerca de 12 mil trabalhadores formais no desemprego, afectando a sobrevivência de mais de 50 mil dependentes.

Se não é instabilidade ou factores conjunturais é a inexplicável falta de divisas

A crise estendeu-se com igual intensidade à indústria ligeira e ao sector dos serviços, onde casos recentes como o da empresa portuguesa Dematel ilustram a fragilidade do tecido empresarial actual.

A operação foi interrompida devido à incapacidade de aceder à moeda estrangeira para sustentar a logística e os pagamentos internacionais, lançando dezenas de técnicos qualificados no desemprego. Já a fabricante chinesa de cabelos sintéticos Navi Reia Lda declarou falência total após a destruição da sua unidade produtiva, dispensando todos os funcionários sem garantias imediatas de indemnização.

No sector extractivo em Manica, a intervenção estatal contra crimes ambientais levou à paragem forçada de 11 mineradoras de ouro, o que, embora necessário para a preservação do rio Révuè, resultou na perda de rendimento para milhares de trabalhadores que operavam em regimes de grande precariedade. Adicionalmente, os cortes de financiamento em organizações não-governamentais e projectos da USAID resultaram na dispensa de mais 2.500 profissionais qualificados, agravando a pressão sobre os serviços sociais.

Moçambique não está apenas a perder empresas, mas a enfrentar um retrocesso social profundo que poderá levar anos a ser revertido. O INE destaca o Índice de Dependência Económica como principal multiplicador da crise, sendo que cada salário formal sustenta, em média, entre 4,4 e 5,2 pessoas. Isto significa que a perda de 21 mil empregos formais registada entre 2024 e 2026 não é apenas um dado estatístico isolado, mas a condenação de quase 100 mil moçambicanos à insegurança económica.

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