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Arão Valoi
A antiga área de plantação de eucaliptos, conhecida como “FAO”, situada no Bairro de Guava, no Distrito de Marracuene, Província de Maputo, que em tempos foi um verdadeiro pulmão verde da comunidade, é hoje o retrato cru da degradação ambiental. O que antes simbolizava vida e equilíbrio ecológico transformou-se num buraco assustador, que se expande dia após dia sob o ritmo impiedoso da extracção desenfreada de areia vermelha para abastecer a construção civil. Como se não bastasse, o espaço foi ainda convertido num depósito improvisado de lixo doméstico, num cenário de abandono e negligência que agride a paisagem, ameaça a saúde pública e expõe, sem disfarces, a ausência de responsabilidade ambiental. Moscas, ratos e outros vectores proliferam livremente, enquanto o cheiro insuportável e a poeira tornam o dia-a-dia da população, tudo isso sob o olhar impávido do Município de Marracuene, mesmo sob o grito de socorro, várias vezes lançado pelos residentes. Desde que vivo em Guava, nunca testemunhei — nem ouvi falar — de uma única reunião de consulta pública promovida pelo operador para auscultar os moradores sobre os impactos sócio-ambientais desta exploração. O impacto sobre a comunidade é directo e doloroso. Camiões pesados que circulam por ali aceleram a degradação das vias de acesso (já péssimas) e, por vezes, casas, enquanto o desmonte mecânico da areia levanta poeira fina que irrita olhos e vias respiratórias, contribuindo para doenças. Ao mesmo tempo, o lixo doméstico despejado no buraco transforma a área num verdadeiro foco de insalubridade. O que antes poderia ser um espaço de desenvolvimento responsável, aliás, já houve ideia de um projecto ambicioso, transformou-se, na prática, num símbolo do descaso.
Essa degradação ambiental agrava-se quando se considera a famosa Rua da FAO, cuja situação se torna gritante nos dias de chuva. Andar por ali é um acto quase heróico: lama, buracos e água acumulada tornam a circulação extremamente difícil e perigosa, expondo moradores a acidentes e prejudicando a mobilidade da comunidade.
O trânsito desordenado é outro problema crítico. A combinação entre camiões de areia e operadores de transporte semi-coletivo de passageiros cria um ambiente caótico, especialmente na Rotunda do CMC, em direcção à FACIM. Engarrafamentos constantes, estacionamento desordenado, indisciplina transformam a rotina em stress diário, enquanto os moradores convivem com barulho, poeira e riscos de acidentes. Para conter esse caos, seria urgente regular o fluxo desses veículos ou, alternativamente, criar um estacionamento fixo para os camiões no interior da área do areeiro. A presença constante da Polícia Municipal no Terminal de Chapas da Rotunda do CMC é igualmente necessária e urgente para garantir ordem e segurança.
Do ponto de vista ambiental, o cenário é igualmente grave. A degradação do solo, associada ao despejo irregular de lixo, provoca erosão, poluição e desequilíbrio ecológico. A poeira da extracção e a decomposição dos resíduos contribuem para a contaminação do ar, ameaçando crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. A interacção entre exploração predatória de recursos naturais, depósito de lixo e trânsito desordenado cria um ciclo degradante do ponto de vista ambiental e social que é extremamente difícil de reverter sem intervenção imediata.
A passividade do Município de Marracuene é escandalosa. Sabemos que algumas decisões vêm de cima, mas é preciso que se faça algo. A escalada dos impactos evidencia total descompromisso com a governação e responsabilidade ambiental e com a protecção da população: não há fiscalização, medidas preventivas ou planos de contenção. A propósito, qual será o destino final daquele buraco? O que será feito dele, mesmo depois do fim da exploração do areeiro? O que se denota ali são interesses particulares e actividades informais que se sobrepõem ao bem-estar da comunidade, transformando o que poderia ser desenvolvimento sustentável em desastre previsível.
A responsabilidade, porém, não é apenas institucional. O operador da extração de areia e os coletores de lixo actuam de forma predatória, desrespeitando normas de segurança e saneamento. Cada camião que circula com excesso de carga, cada saco de lixo despejado e cada estacionamento irregular contribuem para o caos, aumentando a insegurança, stress, atrasos, etc (principalmente nas manhãs).
O caso do areeiro de Guava evidencia que protecção ambiental não é um luxo, mas uma questão de sobrevivência, dignidade e direitos básicos. Sem regulamentação da extracção de areia, controlo do despejo de lixo e fiscalização do trânsito, a degradação só tende a piorar. É urgente que o Município de Marracuene abandone o papel de espectador e adopte medidas concretas: regulamentar a extracção, organizar o tráfego e controlar o despejo de resíduos, garantindo segurança, saúde e qualidade de vida à população.
Enquanto isso não acontece, Guava, Kumbeza e Magoanine B permanecem à mercê da irresponsabilidade de operadores e da omissão institucional, transformando um espaço que poderia ser de desenvolvimento numa bomba ambiental e social prestes a explodir. A comunidade paga, diariamente, o preço de quem deveria proteger o interesse público e zelar pelo bem-estar dos cidadãos.



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