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Há uma crise de valores que se alastra por todas as esferas da vida pública moçambicana, manifestando-se com especial gravidade nos processos eleitorais, mesmo aqueles que à primeira vista pareceriam menos politizados ou menos visíveis. A recente realização das eleições da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), os preparativos em curso para a escolha da nova direcção da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e os episódios testemunhados no seio do partido PODEMOS, durante a eleição do seu secretário-geral, denunciam um mesmo padrão: a ausência de uma cultura democrática enraizada e a prevalência da imposição em detrimento da deliberação livre.
Nas eleições da OJM, o que se viu foi a perpetuação da lógica da “obediência às ordens de cima”, uma marca estrutural do nosso fazer político que insiste em sobreviver geração após geração. Jovens, que deviam ser portadores de novas práticas, revelaram-se cópias conformadas das velhas tácticas de exclusão, manipulação de listas e centralismo opaco. Quando a juventude de um partido no poder repete e celebra os vícios do autoritarismo, o que se pode esperar do futuro político do país?
Não muito diferente, o ambiente que antecede as eleições da AEMO, marcadas para o próximo dia 26 de Julho, está igualmente ensombrado por suspeitas e constrangimentos. A exigência do pagamento de quotas dos últimos cinco meses como critério de elegibilidade para votar, se por um lado parece um instrumento legítimo de organização interna, por outro também se revela uma medida que pode servir para restringir a participação e manipular o colégio eleitoral, sobretudo se não houver transparência sobre os prazos, os meios de pagamento e a comunicação prévia aos membros. Um processo eleitoral é, por excelência, um espaço de inclusão, e não uma armadilha burocrática.
A situação na AEMO é particularmente simbólica porque envolve a elite intelectual do país. Se mesmo os escritores, cuja função social é reflectir criticamente sobre a sociedade e promover os valores do debate e da liberdade, colocam-nos dúvidas sobre as suas capacidades em promover eleições limpas, participativas e inspiradoras, que exemplo se pode esperar que deixem para a sociedade em geral? A elite que falha no micro reafirma a tese de que não é apenas nos corredores do poder político que a democracia está doente, ela padece também nas fundações.
O mesmo se verificou no PODEMOS, partido que surgiu como uma alternativa à mesmice e ao desgaste dos partidos tradicionais. A expectativa era a de práticas políticas novas e corajosas. Contudo, vimos no passado os relatos em torno da eleição do secretário-geral a desmentirem esse anseio. Houve queixas de exclusão de candidatos, de falta de transparência e até de imposições internas. O que deveria ser um exercício de renovação, acabou sendo um espelho do que o partido dizia combater.
A crise é cultural. É moral. É civilizacional. Há uma harmonia entre os líderes e os liderados que se fundamenta, paradoxalmente, na negação do diálogo. O mesmo ego que nos impede de ceder o assento num transporte público é o mesmo que faz um dirigente não saber a hora de sair de cena. E é esse mesmo ego que contamina os processos eleitorais e bloqueia a emergência de lideranças legítimas.
Enquanto sociedade, parecemos agarrados a uma fé cega de que milagres acontecerão quando as pessoas “certas” chegarem ao poder. Mas como esperar milagres no macro se fracassamos repetidamente no micro? A qualidade dos nossos governantes reflecte, inevitavelmente, a qualidade das nossas práticas sociais. Quem sobe aos grandes cargos vem desse mesmo chão onde a democracia rasteja.
Não é apenas a política que precisa de se reinventar. É a cultura cívica, é o tecido social. São as nossas pequenas organizações, associações, partidos emergentes, colectivos artísticos e académicos que devem ser laboratórios vivos de democracia real. Porque se falharmos aí, em cada eleição da juventude partidária, em cada assembleia de escritores ou em cada congresso de um novo partido, estaremos apenas a perpetuar o ciclo de decepções nacionais.
A mudança começa em casa. Ou não começa nunca.



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